1. Início
  2. / Curiosidades
  3. / Há 5.000 anos, a civilização mais avançada da China construiu o maior sistema de represas do Neolítico para conter enchentes e foi destruída por elas: estudo publicado na Science Advances mostra que monções extremas derrubaram as barragens em menos de 21 anos e forçaram o abandono de uma cidade quatro vezes maior que a Cidade Proibida
Tempo de leitura 5 min de leitura Comentários 0 comentários

Há 5.000 anos, a civilização mais avançada da China construiu o maior sistema de represas do Neolítico para conter enchentes e foi destruída por elas: estudo publicado na Science Advances mostra que monções extremas derrubaram as barragens em menos de 21 anos e forçaram o abandono de uma cidade quatro vezes maior que a Cidade Proibida

Escrito por Valdemar Medeiros
Publicado em 24/03/2026 às 14:08
Assista o vídeoCivilização Liangzhu colapsou após monções extremas destruírem seu sistema hidráulico. Estudo na Science Advances revela o que aconteceu
Civilização Liangzhu colapsou após monções extremas destruírem seu sistema hidráulico. Estudo na Science Advances revela o que aconteceu
Seja o primeiro a reagir!
Reagir ao artigo

Civilização Liangzhu colapsou após monções extremas destruírem seu sistema hidráulico. Estudo na Science Advances revela o que aconteceu

Segundo estudo publicado na revista Science Advances por uma equipe internacional liderada pelo geólogo Christoph Spötl, da Universidade de Innsbruck, em parceria com a Universidade de Xi’an Jiaotong e outras seis instituições de pesquisa da China e dos EUA, o mistério do colapso mais intrigante da arqueologia chinesa foi finalmente resolvido, não por escavação, mas por uma estalactite. A civilização Liangzhu, que floresceu no Delta do Rio Yangtze por quase mil anos antes de desaparecer abruptamente há 4.300 anos, foi destruída pela mesma força que seus engenheiros haviam passado séculos tentando controlar: a água.

Mais especificamente: uma sequência de monções anormalmente intensas entre 4.345 e 4.324 anos atrás — um período de apenas 21 anos, com margem de erro de ±30 anos, produziu volumes de chuva que superaram a capacidade de absorção de todos os diques, canais e reservatórios que a Liangzhu havia construído ao longo de gerações. A cidade foi inundada. As pessoas fugiram. E uma das civilizações mais sofisticadas do mundo pré-histórico desapareceu sob uma camada de argila que os arqueólogos encontraram séculos depois mas não conseguiram explicar — até que as estalactites contaram a história.

A descoberta não veio de escavações arqueológicas tradicionais, mas da análise de estalactites, que registraram com precisão a intensidade das chuvas ao longo de milhares de anos. Os dados mostram que a civilização, que floresceu no Delta do Rio Yangtze por quase um milênio, foi destruída por uma sequência de monções anormalmente intensas ocorridas entre 4.345 e 4.324 anos atrás. Esse período de apenas 21 anos, mesmo considerando uma margem de erro de ±30 anos, foi suficiente para ultrapassar a capacidade de contenção de um dos sistemas hidráulicos mais avançados já construídos no Neolítico.

Civilização Liangzhu construiu o maior sistema hidráulico do Neolítico antes das pirâmides do Egito

A cultura Liangzhu surgiu há cerca de 5.300 anos no Delta do Yangtze, na atual província de Zhejiang, região leste da China. Esse período antecede a construção das pirâmides de Gizé, o que posiciona Liangzhu como uma das civilizações mais antigas e avançadas de sua época.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

A cidade principal, hoje reconhecida como Patrimônio Mundial da UNESCO, possuía uma organização urbana complexa com zonas internas muradas, áreas externas protegidas e um extenso sistema hidráulico ao redor. Sua área total era aproximadamente quatro vezes maior que a da Cidade Proibida de Pequim.

O sistema hidráulico incluía diques, canais, reservatórios e comportas capazes de controlar o fluxo de água em uma das regiões mais sujeitas a enchentes da Ásia. Essa infraestrutura permitia a produção agrícola contínua e sustentava uma sociedade altamente organizada baseada no cultivo de arroz.

Camada de argila nas ruínas indicava inundação, mas causa do colapso permanecia desconhecida

Desde a descoberta das ruínas em 1936, arqueólogos identificaram uma camada de argila depositada sobre as estruturas da civilização Liangzhu. Essa camada indicava um evento de inundação, mas não permitia determinar sua origem ou intensidade.

A argila poderia ter sido resultado de uma única enchente, de eventos cumulativos ao longo do tempo ou até mesmo de influência marinha. Sem uma datação precisa e sem evidências diretas de causa, diversas hipóteses foram levantadas, incluindo conflitos, epidemias e colapso social.

Nenhuma dessas explicações, porém, era capaz de justificar completamente o desaparecimento abrupto de uma civilização tão sofisticada.

Estalactites registraram chuvas extremas que destruíram a civilização Liangzhu

A solução para o mistério veio de cavernas localizadas a cerca de 160 quilômetros do sítio arqueológico. Estalactites das cavernas Shennong e Jiulong foram analisadas por meio de datação por urânio-tório, permitindo reconstruir com precisão o histórico climático da região.

Assista o vídeo
Vídeo do YouTube

Os registros isotópicos revelaram um período de precipitação extremamente intensa coincidente com o abandono da cidade. Essa correlação direta entre clima e colapso forneceu a primeira evidência concreta de que eventos climáticos extremos foram a causa principal da destruição da Liangzhu.

O que antes era um enigma arqueológico passou a ser explicado como um evento climático extremo registrado em mineral.

Sistema de represas falhou diante de chuvas acima da capacidade de engenharia da época

O sistema hidráulico da Liangzhu foi projetado com base nos padrões climáticos observados ao longo de séculos. No entanto, as chuvas registradas nesse período superaram qualquer cenário previamente experimentado pela civilização.

As represas de terra compactada não suportaram o volume de água, levando ao colapso das estruturas. Os canais, projetados para controlar o fluxo, passaram a funcionar de forma inversa, contribuindo para a inundação generalizada da planície de Taihu.

Como a região é naturalmente baixa, não havia áreas elevadas suficientes para realocação temporária da população, o que tornou o abandono inevitável.

Colapso da Liangzhu pode ter influenciado o surgimento da civilização chinesa

Após o colapso da Liangzhu, registros indicam um período prolongado de mudanças climáticas, seguido por condições mais secas cerca de 4.000 anos atrás. Esse período coincide com o surgimento da Dinastia Xia, considerada a primeira estrutura política da China antiga.

Há evidências de que populações deslocadas do Delta do Yangtze migraram para as Planícies Centrais, levando consigo conhecimentos agrícolas e técnicas de engenharia que influenciaram civilizações posteriores.

Esse processo sugere que o colapso de Liangzhu não representou apenas o fim de uma civilização, mas também a transferência de conhecimento que contribuiu para a formação da China histórica.

inundação devastadora – imagem meramente ilustrativa

Pesquisadores da East China Normal University destacam que as condições que levaram ao colapso da Liangzhu são comparáveis às mudanças climáticas atuais. A combinação de aumento do nível do mar e intensificação das chuvas de monção representa um risco crescente para regiões costeiras densamente povoadas.

A planície onde a Liangzhu existiu está localizada a cerca de 160 quilômetros de Xangai, uma das maiores cidades do mundo, construída sobre o mesmo sistema deltaico e protegida por estruturas hidráulicas modernas.

O paralelo é direto: uma civilização avançada conseguiu controlar a água por quase mil anos, até que eventos extremos ultrapassaram sua capacidade de engenharia. O registro geológico preservado nas estalactites mostra que esse tipo de ruptura pode ocorrer rapidamente — e com consequências irreversíveis.

Inscreva-se
Notificar de
guest
0 Comentários
Mais recente
Mais antigos Mais votado
Fonte
Valdemar Medeiros

Formado em Jornalismo e Marketing, é autor de mais de 20 mil artigos que já alcançaram milhões de leitores no Brasil e no exterior. Já escreveu para marcas e veículos como 99, Natura, O Boticário, CPG – Click Petróleo e Gás, Agência Raccon e outros. Especialista em Indústria Automotiva, Tecnologia, Carreiras (empregabilidade e cursos), Economia e outros temas. Contato e sugestões de pauta: valdemarmedeiros4@gmail.com. Não aceitamos currículos!

Compartilhar em aplicativos
Ir para o vídeo em destaque
0
Adoraríamos sua opnião sobre esse assunto, comente!x