Economia da Groenlândia sofre com crise climática no Ártico, envelhecimento da população e pressão internacional por terras raras.
A Groenlândia voltou ao centro da geopolítica internacional após declarações do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.
Esse debate surge, sobretudo à desaceleração da economia local e ao crescente interesse global pelas terras raras escondidas sob o gelo.
Nesse contexto, a ilha, localizada entre a América do Norte e a Europa, atravessa um momento decisivo, que combina pressão externa.
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Atualmente, cerca de 81% do território da Groenlândia permanece coberto por gelo.
Ainda assim, o país abriga aproximadamente 56 mil habitantes, formados majoritariamente por povos originários inuit.
Além disso, sua localização estratégica, fundamental para rotas comerciais e para a segurança internacional, explica por que a ilha passou a ser vista como um ativo geopolítico relevante em um cenário global cada vez mais competitivo.
Economia da Groenlândia depende da pesca e de subsídios
A economia da Groenlândia se sustenta, principalmente, na pesca e em transferências financeiras da Dinamarca.
Desde 2009, com a entrada em vigor da Lei de Autogoverno, o país recebe cerca de 3,4 bilhões de coroas dinamarquesas por ano, valor próximo a US$ 500 milhões.
Dessa forma, o subsídio garante estabilidade fiscal, mas também limita a autonomia financeira de longo prazo.
Segundo a professora de Relações Internacionais do Instituto Mauá, Carolina Pavese, a atividade pesqueira vai além da dimensão econômica.
Na prática, ela desempenha um papel central na cultura e no modo de vida da população local.
Enquanto isso, grande parte da produção abastece o consumo interno, e o excedente segue para exportação, sobretudo para a União Europeia e, em menor escala, para a China.
Por outro lado, os Estados Unidos não figuram entre os principais destinos das exportações groenlandesas.
No campo das importações, porém, a dependência externa permanece elevada.
Produtos industrializados, alimentos processados e bens de consumo chegam, majoritariamente, do mercado europeu.
Como resultado, essa dinâmica amplia a vulnerabilidade da economia local diante de oscilações externas.
Relatórios indicam desaceleração e risco fiscal
Dados recentes do Banco Nacional da Dinamarca mostram que a economia da Groenlândia entrou em trajetória de desaceleração.
Em 2025, o Produto Interno Bruto (PIB) cresceu apenas 0,2%, após registrar avanço de 0,8% no ano anterior.
Assim, o ritmo de expansão perdeu força de maneira consistente.
De acordo com relatório divulgado em janeiro, as finanças públicas se deterioraram de forma inesperada ao longo de 2025.
Além disso, a liquidez do Tesouro da Groenlândia caiu para um nível considerado criticamente baixo no segundo semestre do ano.
Esse cenário, portanto, acendeu alertas sobre a sustentabilidade fiscal do país.
Entre os principais fatores que explicam essa conjuntura estão o envelhecimento da população, a baixa taxa de natalidade e a escassez de mão de obra qualificada.
Somam-se a isso problemas de infraestrutura, como atrasos em projetos de fornecimento de energia, que impactam diretamente a atividade econômica.
Crise climática no Ártico ameaça pesca e modo de vida
A crise climática no Ártico já produz efeitos diretos e mensuráveis na Groenlândia.
Com o aumento da temperatura, o aquecimento das águas e o degelo alteram a dinâmica da vida marinha.
Consequentemente, a pesca, principal fonte de renda e subsistência da população, enfrenta riscos crescentes.
Além dos impactos econômicos, essas transformações ameaçam a preservação da cultura inuit.
Para a comunidade local, o meio ambiente não representa apenas um ativo econômico, mas sim um elemento essencial da organização social e da identidade coletiva.
Degelo desperta interesse por terras raras
Paralelamente, o avanço do degelo intensifica o debate sobre a exploração mineral.
Nesse sentido, a Groenlândia concentra depósitos relevantes de terras raras, minerais estratégicos usados na fabricação de baterias, turbinas e tecnologias digitais.
Por isso, o território passou a atrair atenção internacional.
“Há um interesse de longo prazo em explorar esses minérios e, consequentemente, reduzir a dependência da China, que lidera a oferta global, especialmente de terras raras”, afirma Pavese.
Assim, a questão mineral se insere diretamente na disputa geopolítica global.
Apesar do potencial, entretanto, a exploração ainda permanece limitada.
Segundo a especialista, a profundidade dos depósitos amplia os impactos sociais e ambientais.
“As terras raras exigem uma mineração muito mais invasiva do que a mineração convencional”, explica.
Autogoverno e controle dos recursos naturais
Desde a adoção da Lei de Autogoverno, em 2009, a Groenlândia assumiu o controle direto sobre seus recursos minerais.
Com isso, eventuais receitas provenientes da exploração ficam sob responsabilidade do governo local.
No entanto, o modelo prevê uma contrapartida clara: quanto maior a arrecadação própria, menor o subsídio enviado pela Dinamarca.
O sistema político garante autonomia administrativa e permite a gestão própria de áreas como saúde, educação e segurança pública.
Além disso, a população elege diretamente o Legislativo, enquanto um Conselho Econômico avalia, de forma contínua, a sustentabilidade das políticas públicas adotadas.
EUA, China e a nova geopolítica do Ártico
A disputa em torno das terras raras colocou a Groenlândia definitivamente no radar dos Estados Unidos, sobretudo como alternativa ao domínio chinês nesse mercado estratégico.
Em determinado momento, Trump chegou a ameaçar anexar o território.
No entanto, recuou após reações negativas da Dinamarca e de aliados europeus.
Segundo Pavese, o interesse norte-americano reflete uma estratégia de longo prazo.
“Trata-se de uma aposta distante no tempo, mas que surge da necessidade dos Estados Unidos de driblar a dependência que mantêm da China”, avalia.
Dessa forma, entre a intensificação da geopolítica internacional, a crise climática no Ártico e os desafios estruturais da economia da Groenlândia, o futuro da ilha permanece no centro de uma disputa que vai muito além de suas fronteiras.
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