O Brasil destruiu R$ 700 milhões em maquinário de garimpeiros ilegais, prendeu 67 pessoas em uma única operação e desmontou mais de mil acampamentos na Amazônia — mas o satélite mostra que a área devastada cresceu mais 35 mil hectares só no último ano.
Segundo o Ibama e o MapBiomas, o Brasil intensificou as operações contra o garimpo ilegal ao longo dos últimos três anos.
Contudo, o monitoramento por satélite revela que a destruição total já chegou a 263 mil hectares — e o ritmo de expansão não cedeu.
A alta do preço do ouro em 2026 atingiu níveis recordes nos mercados internacionais.
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Portanto, a equação econômica da atividade ilegal ficou ainda mais desequilibrada: o lucro potencial supera o risco de perder maquinário ou ser preso.
Por outro lado, o esforço do Estado é concreto.
Em março de 2026, uma megaoperação na Terra Indígena Sararé, no Mato Grosso, resultou em 67 prisões e na destruição de R$ 700 milhões em equipamentos pesados.
Apesar disso, grupos criminosos retornam com novos maquinários em semanas.
Os números do garimpo ilegal na Amazônia: o que o satélite revela

Os dados do MapBiomas, referência nacional no monitoramento ambiental por satélite, mostram um cenário preocupante. O garimpo ilegal destruiu 263 mil hectares de floresta no Brasil — área comparável à soma de vários municípios inteiros.
Além disso, o crescimento foi acelerado. Entre 2018 e 2022, as áreas garimpadas expandiram 265%. Nesse mesmo período, 62,3% de todas as novas áreas abertas pelo garimpo estavam dentro de territórios legalmente protegidos.
Só nos últimos 12 meses, o avanço foi de mais 35 mil hectares.
Para ter uma ideia, isso equivale ao território inteiro de Curitiba (PR) sendo escavado e contaminado com mercúrio dentro de florestas e rios amazônicos.
- 263 mil hectares destruídos no total acumulado no Brasil
- +265% de crescimento em áreas garimpadas entre 2018 e 2022
- 35 mil hectares avançados apenas no último ano
- 92% do garimpo concentrado na Amazônia
- 62,3% das áreas abertas nos últimos 5 anos estavam em zonas protegidas por lei
Em outras palavras, a destruição não é aleatória. Ela mira exatamente os territórios com maior proteção legal e maior riqueza mineral.
Segundo o IBRAM, esse é o padrão histórico da mineração ilegal no Brasil desde os anos 1980.
A megaoperação na Sararé: 67 prisões e R$ 700 milhões em maquinário destruído

A Terra Indígena Sararé tem 67 mil hectares no Mato Grosso e é habitada pela etnia Nambikwara.
Segundo o G1, a megaoperação de março de 2026 resultou em 67 prisões e no desmonte de cerca de mil acampamentos ao longo de três anos consecutivos de operações.
Consequentemente, o valor total em equipamentos destruídos chegou a R$ 700 milhões. Isso inclui mais de 500 escavadeiras, dragas e estruturas de apoio.
Na prática, trata-se de uma das maiores apreensões da história do combate à mineração ilegal no país.
Para ter uma ideia da escala, os 4.200 hectares devastados apenas dentro da Sararé equivalem a mais de 5.800 campos de futebol de floresta nativa varridos para extração de ouro.
As cicatrizes deixadas pelo maquinário pesado são visíveis em imagens de satélite de baixa resolução.
Portanto, o esforço operacional foi enorme. Porém, como mostram os dados do MapBiomas, cada real investido em destruir maquinário é rapidamente recomposto pelo lucro do ouro — especialmente quando o metal está em alta histórica.
O Ibama também realizou outra operação de grande escala na Sararé em outubro de 2025. No entanto, o padrão se repete: grupos criminosos retornam meses depois com novo maquinário, financiado pela valorização do ouro.
O preço recorde do ouro como motor da mineração ilegal em 2026
O ouro atingiu preços históricos em 2026.
Dessa forma, a equação financeira do crime ficou ainda mais atrativa: o risco de ser preso ou ter equipamento destruído é calculado como custo operacional, não como impedimento real.
Conforme o G1, a valorização do metal impulsionou o avanço da mineração ilegal para novas regiões da Amazônia em 2026.
Mato Grosso, Rondônia, Amazonas e Pará concentram os principais focos — mas a expansão chega a áreas antes consideradas de baixo risco.
Além disso, o modelo financeiro do garimpo se profissionalizou. Assim, grupos com acesso a capital conseguem reconstituir operações destruídas em semanas, comprando novo maquinário e retornando às mesmas áreas fiscalizadas anteriormente.
PCC e CV: facções criminosas aliadas ao garimpo na Amazônia

Um dado alarmante emerge dos relatórios de segurança de 2025. O PCC e o CV estão presentes em 344 municípios da Amazônia Legal, conforme o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP).
Em 2022, esse número era de 260 municípios — crescimento de 32% em três anos.
Nesse sentido, mineração clandestina, madeireiros e grileiros formam uma rede integrada. Ela desafia o Estado em territórios de difícil acesso.
Conforme o ClimaInfo, as facções atuam como financiadoras e protetoras das operações, fornecendo logística, segurança armada e canais de escoamento do ouro para o mercado formal.
As terras indígenas mais atingidas pelo garimpo ilegal
A extração ilegal mira os territórios com maior riqueza mineral, que frequentemente são terras indígenas demarcadas. De acordo com o IBRAM, os territórios mais afetados são:
- Terra Indígena Kayapó (PA/MT): 13.700 hectares destruídos
- Terra Indígena Munduruku (PA): 5.500 hectares devastados
- Terra Indígena Yanomami (AM/RR): 3.300 hectares comprometidos
- Terra Indígena Sararé (MT): 4.200 hectares (etnia Nambikwara)
- Terra Indígena Tenharim do Igarapé Preto (AM): 1.000 hectares afetados
Portanto, as populações indígenas pagam o preço mais alto por uma crise gerada pela demanda global por ouro.
As comunidades Nambikwara tiveram parte de seu território varrido por escavadeiras e contaminado com mercúrio — metal usado na separação do ouro.
Da mesma forma, outros povos como os da Terra Indígena Sai-Cinza (RO) registraram perdas de 377 hectares para a atividade ilegal, segundo dados compilados pelo IBRAM.
O paradoxo que não fecha: mais combate, mais garimpo?
A pergunta central é direta: se o Brasil destruiu R$ 700 milhões em equipamentos, prendeu 67 garimpeiros e desmontou mais de mil acampamentos, por que a área devastada continua crescendo 35 mil hectares por ano?
A resposta está na assimetria financeira.
Além disso, como aponta o FBSP, a presença de facções criminosas garante que o garimpo opere como uma empresa.
com capital de giro, capacidade de reposição de ativos e rede de distribuição do produto final.
Ainda assim, os pesquisadores do MapBiomas ressaltam que as operações representaram avanços concretos em áreas específicas. A destruição de R$ 700 milhões na Sararé impôs perdas financeiras reais ao crime organizado.
Será que a fiscalização permanente — e não apenas operações pontuais — mudaria esse quadro?
Em resumo, a solução passa por três frentes: fiscalização contínua, rastreabilidade do ouro na cadeia produtiva e presença estatal permanente nos territórios vulneráveis.
Para entender a dimensão do problema, vale ver como a Amazônia já emite mais carbono do que absorve em consequência do desmatamento acumulado.
Ainda assim, cabe lembrar: o legado do garimpo moldou comunidades inteiras — como Igatu, na Chapada Diamantina, onde 9 mil garimpeiros construíram um vilarejo de pedra que resiste até hoje.
Porém, vale lembrar que os avanços recentes nas operações mostram que a fiscalização contínua pode reduzir a atividade em áreas específicas.
A solução definitiva exige combinar esforços operacionais com rastreabilidade do ouro e presença estatal permanente.
Nota: os dados do MapBiomas têm como base imagens de satélite consolidadas até 2022-2023, com atualizações parciais para 2026.
Os totais definitivos do Ibama para o ano corrente podem diferir dos números parciais disponíveis no momento desta publicação.

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