Projeção apresentada em Cingapura indica mudança importante no consumo chinês de minério de ferro até 2030, com maior uso de sucata de aço, avanço da oferta interna e redução da participação do país na produção global de aço.
O minério de ferro importado deve cair de cerca de 80% para 50% do consumo total da China até 2030, segundo projeção apresentada nesta terça-feira (16) por Yilin Wang, gerente-geral do departamento de pesquisa de mercado e cooperação externa do Instituto CMRG, ligado ao China Mineral Resources Group.
A mudança prevista combina avanço da oferta doméstica, maior uso de sucata de aço e menor participação chinesa na produção mundial da liga metálica, em um movimento que pode alterar o equilíbrio entre fornecedores, siderúrgicas e compradores no mercado global de minério.
Durante uma conferência industrial em Cingapura, Wang afirmou que a fatia da China na produção mundial de aço deve recuar de 52% no ano passado para 46% em 2030, acompanhando um cenário de consumo interno mais moderado.
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China tenta reduzir dependência do minério importado
Pela projeção do CMRG, a China não deixaria de comprar minério de ferro no exterior, mas reduziria de forma expressiva a dependência das importações dentro de seu consumo total até o fim da década.
Esse movimento reúne três fatores centrais: maior disponibilidade de matéria-prima nacional, avanço da reciclagem de sucata de aço e ajuste gradual da indústria siderúrgica a uma demanda doméstica menos acelerada.
Por ocupar posição essencial na cadeia do aço, o minério de ferro influencia setores como construção civil, infraestrutura, indústria automotiva, máquinas e equipamentos, o que amplia o alcance econômico de qualquer mudança no consumo chinês.
Com menor necessidade de minério importado, produtores, traders e empresas de transporte marítimo tendem a acompanhar de perto os efeitos sobre preços, contratos de fornecimento, fretes e volumes negociados nos próximos anos.
O China Mineral Resources Group é descrito como um grupo apoiado pelo Estado chinês, fator que aumenta a relevância da avaliação apresentada por seu instituto de estudos diante de empresas e governos ligados ao setor mineral.
Ainda assim, os números citados por Wang são estimativas para 2030 e dependem da evolução da demanda por aço, da capacidade de produção interna de minério e do ritmo de expansão do uso de sucata.
Produção de aço também deve perder participação global

Além da queda prevista na fatia importada do minério, o CMRG projeta uma redução no peso da China dentro da produção global de aço, setor no qual o país ainda mantém ampla influência.
A participação chinesa, que foi de 52% no ano passado, deve chegar a 46% até 2030, refletindo menor consumo, ajustes industriais e um mercado local em fase mais madura.
Na mesma avaliação, a produção chinesa de aço bruto pode recuar para cerca de 900 milhões de toneladas métricas até 2030, sinalizando um patamar mais baixo para a maior indústria siderúrgica do mundo.
Outro dado destacado é a produção de sucata de aço, que deve alcançar 310 milhões de toneladas métricas no mesmo período, reforçando o papel da reciclagem como alternativa parcial ao minério novo.
Com mais sucata disponível, cresce a possibilidade de produzir aço com menor necessidade de minério primário, embora a matéria-prima continue relevante para a siderurgia chinesa e para a cadeia global de fornecimento.
A queda da participação chinesa na produção mundial não significa perda imediata de importância no setor, já que o país continuaria respondendo por uma parcela expressiva da oferta global de aço.
Mesmo em um cenário de recuo para 46%, a China manteria influência sobre preços, fluxos comerciais e decisões de investimento, especialmente porque seu consumo ainda funciona como referência para fornecedores internacionais.
Impacto sobre exportadores de minério de ferro
Entre grandes exportadores de minério de ferro, a redução da fatia importada no consumo chinês tende a ser acompanhada com atenção, sobretudo por países e empresas que dependem das compras chinesas para sustentar volumes elevados.
O efeito final, porém, dependerá do ritmo dessa transição, da capacidade de outros mercados ampliarem o consumo e da velocidade com que a China conseguirá elevar produção doméstica e reciclagem.
Como a projeção mira 2030, o ajuste não deve ser lido como uma ruptura imediata, mas como uma mudança gradual na composição das fontes usadas pela siderurgia chinesa.
Nesse cenário, a China passaria a combinar de forma mais intensa minério nacional, reaproveitamento de sucata e menor expansão da produção de aço, sem desaparecer como compradora relevante no comércio internacional.
Para o mercado, a informação mais sensível está na diferença entre a situação atual e o cenário previsto para o fim da década.
Hoje, as importações respondem por cerca de 80% do consumo chinês de minério de ferro; em 2030, segundo o CMRG, essa proporção deve cair para metade do total.
Essa diferença pode afetar cálculos de oferta e demanda global, especialmente em um setor no qual contratos de longo prazo, fretes marítimos e investimentos em minas dependem de previsões sobre a siderurgia chinesa.
Quanto menor for a necessidade de minério importado pela China, maior tende a ser a pressão para que fornecedores ajustem estratégias comerciais, diversifiquem compradores e revisem expectativas de crescimento.
Sucata de aço ganha espaço na estratégia chinesa
Na projeção apresentada em Cingapura, o avanço da sucata de aço aparece como uma das principais peças da estratégia chinesa para reduzir a dependência do minério comprado no exterior.
Ao ampliar o reaproveitamento de material metálico, o país pode diminuir parte da demanda por minério primário e, ao mesmo tempo, ajustar sua indústria a um perfil de consumo mais moderado.
A estimativa de 310 milhões de toneladas métricas de sucata até 2030 indica que a China busca fortalecer uma fonte alternativa de insumo para a produção siderúrgica.
Para que esse avanço se concretize, será necessário ampliar coleta, processamento, logística e capacidade industrial, já que o material reciclado precisa atender aos padrões exigidos por diferentes setores consumidores de aço.
O aumento do uso de sucata também deve ser analisado junto com a previsão de menor produção de aço bruto, porque os dois movimentos reduzem a pressão sobre o minério importado.
Se a produção total diminui e a disponibilidade de sucata cresce, a participação do minério comprado no exterior tende a perder espaço de maneira mais consistente no consumo chinês.
Mesmo assim, a projeção não retira a relevância do minério de ferro para o mercado chinês, especialmente em processos industriais que exigem qualidade, regularidade de fornecimento e escala elevada.
A commodity permanece essencial para a siderurgia, mas seu peso relativo nas importações chinesas pode ficar menor à medida que fontes internas e materiais reciclados ganham participação.
Demanda chinesa entra em nova fase
A declaração de Yilin Wang reforça uma leitura de cautela sobre o futuro da demanda chinesa por minério de ferro importado, especialmente diante da combinação entre menor consumo e maior uso de sucata.
Mais do que a redução percentual das compras externas, o ponto central está na mudança simultânea do perfil da siderurgia chinesa e da participação do país na produção mundial de aço.
Para empresas do setor, a projeção do CMRG pode influenciar decisões sobre expansão de minas, contratos de fornecimento, logística marítima e exposição comercial ao mercado chinês.
A transição, se confirmada, tende a exigir maior atenção ao crescimento de outros consumidores de aço e à capacidade de adaptação dos fornecedores globais diante de uma China menos dependente das importações.
O cenário apresentado em Cingapura mostra que o país pretende usar mais recursos internos e reciclados na siderurgia, reduzindo a participação externa no consumo de minério sem abandonar sua posição central no mercado global.
Até 2030, essa estratégia pode diminuir o peso das importações no abastecimento chinês e, ao mesmo tempo, reduzir a participação da China na produção mundial de aço.

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