História de uma família que vive da roça, do leite e da união no coração da Serra da Canastra
Ainda antes do sol nascer, quando boa parte do país dorme, a rotina já começou na propriedade da família de seu Zilomar, no município de Vargem Bonita, na Serra da Canastra, em Minas Gerais. É nesse cenário de terra vermelha, curral, vacas leiteiras e tradição que Gabriela, jovem veterinária, escolheu permanecer. Enquanto muitos seguem o caminho da cidade grande, ela decidiu ficar onde tudo começou: ajudando o pai todos os dias na roça e garantindo a qualidade do leite e do queijo artesanal produzido pela família.
A informação foi divulgada em um conteúdo registrado no canal de campo ‘Vida na Roça hoje’ que acompanhou de perto a rotina da família, mostrando detalhes do manejo, da ordenha e da produção artesanal de queijo típico da Canastra, reconhecido nacionalmente.
A jornada começa cedo, por volta das 4h30 ou 5h da manhã. Não existe folga, não existe domingo, não importa se chove ou faz sol. As vacas precisam ser ordenhadas todos os dias. Atualmente, a família tira cerca de 300 litros de leite por dia, volume que varia conforme a época do ano, o regime de pastagem e as condições climáticas. Segundo seu Zilomar, este é um período favorável, com boas chuvas e pasto conservado, o que garante melhor produção.
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Todo o leite extraído na fazenda é destinado exclusivamente à fabricação de queijo artesanal. A escolha não é por acaso. A propriedade fica distante das antigas linhas de coleta de leite, o que historicamente levou os produtores da região a transformarem o leite em queijo como forma de conservar, transportar e agregar valor à produção.
Da ordenha ao queijo: técnica, cuidado e controle de qualidade todos os dias
Com o passar dos anos, muita coisa mudou. O que antes era feito de forma totalmente manual hoje combina tradição e tecnologia. A ordenha, que no passado exigia esforço físico intenso, agora é majoritariamente mecânica. Ainda assim, algumas vacas não se adaptam ao sistema e precisam ser ordenhadas manualmente, exigindo atenção constante ao comportamento do rebanho.
É justamente nesse ponto que entra o trabalho de Gabriela. Formada em Medicina Veterinária, ela atua diretamente no curral, acompanhando a saúde dos animais, orientando o manejo e realizando testes essenciais para garantir a qualidade do leite. Um dos procedimentos diários é o teste da caneca de fundo escuro, feito antes da ordenha completa. São retirados os três primeiros jatos de cada teta para verificar a presença de grumos, alterações de cor ou textura, sinais que podem indicar mastite ou outros problemas.
Caso o leite apresente qualquer alteração, ele é descartado e não segue para a produção do queijo. Segundo Gabriela, tudo começa ali: “a matéria-prima do queijo é o leite. Se o leite não for bom, o queijo não será bom”. Por isso, higiene, controle sanitário e bem-estar animal são tratados como prioridade absoluta.
Além disso, o rebanho é testado contra brucelose e tuberculose, garantindo que os animais estejam livres dessas doenças. Vacinação, acompanhamento veterinário e manejo adequado fazem parte da rotina, o que permite inclusive o consumo do leite fresco na própria fazenda, algo comum entre a família, mas sempre com consciência dos cuidados necessários.
Tradição, memória e futuro: uma vida dedicada à família e à terra

A casa onde seu Zilomar vive chama atenção logo à primeira vista. Segundo moradores mais antigos da região, trata-se de uma construção centenária, que atravessou gerações. Foi ali que ele chegou ainda com apenas um mês de idade, quando seus pais se mudaram para a propriedade. Ao longo do tempo, a estrutura da fazenda evoluiu, barracões foram ampliados e o trabalho se adaptou às novas realidades do campo.
A produção segue um modelo essencialmente familiar. Além de Gabriela no curral, a esposa Marta auxilia em diversas atividades, enquanto a outra filha, Renata, atua diretamente na casinha de queijo, cuidando da fabricação, maturação e comercialização. Os queijos, que passam por períodos de maturação como o de 18 dias, são vendidos diretamente ao consumidor, inclusive com envios pelos Correios, organizados por meio do Instagram @queijodozilomar.
A história da família ganhou ainda mais visibilidade quando a propriedade foi visitada pelo programa Globo Rural, em duas ocasiões separadas por cerca de 25 anos. Na primeira reportagem, Gabriela era apenas uma criança de colo. Na segunda, já formada, apareceu trabalhando lado a lado com os pais, dando continuidade a uma tradição que atravessa décadas.
Hoje, a fazenda funciona como uma verdadeira empresa rural familiar, onde cada um tem sua função bem definida. O trabalho com o gado, o cuidado com o leite e a produção do queijo garantiram não apenas o sustento da casa, mas também a formação das filhas, uma veterinária e uma engenheira química, que decidiram retornar ao campo para dar sequência ao legado.
No fim das contas, a história de Gabriela e de sua família mostra que tradição, técnica, dedicação e fé caminham juntas. Em meio à rotina pesada da roça, o que se mantém vivo é algo que não se mede em litros de leite ou dias de maturação, mas no orgulho de preservar a cultura do interior e transformar trabalho duro em um produto reconhecido como verdadeiro ouro mineiro.
Você trocaria a vida na cidade para manter viva a tradição da sua família e trabalhar todos os dias na roça, como fez Gabriela?


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