Fundada em 1967 em Montes Claros, a Coteminas saiu de fábrica modelo para gigante global de cama, mesa e banho, mas hoje enfrenta uma recuperação judicial histórica após dívida bilionária, crise têxtil e avanço dos importados.
A Coteminas nasceu em 1967, em Montes Claros, Minas Gerais, impulsionada por incentivos de desenvolvimento regional e pela visão do empresário José Alencar Gomes da Silva. Em poucos anos, a companhia deixou de ser apenas uma fabricante de fios e tecidos para se tornar uma gigante global do setor têxtil, referência em modernização industrial e em marcas fortes de cama, mesa e banho no Brasil, nas Américas e em outros mercados.
No auge, o grupo faturava bilhões de dólares, empregava mais de 11 mil pessoas, abastecia grandes varejistas internacionais e afirmava que um em cada três produtos para o lar vendidos no Brasil levava uma de suas marcas. Décadas depois, porém, a mesma Coteminas chegou a 2024 com menos da metade desse quadro de funcionários, faturamento encolhido, endividamento explosivo e a necessidade de recorrer a uma recuperação judicial para tentar sobreviver como gigante global em reestruturação.
Das origens em Montes Claros ao império têxtil
A Coteminas começou como Companhia de Tecidos do Norte de Minas, apoiada pela Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste e pelo Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais. A primeira fábrica entrou em operação em 1975, sendo considerada à época uma das instalações mais modernas do setor têxtil brasileiro.
-
Idosos podem ganhar documentos essenciais sem pagar taxas: projeto que inclui CIN, CNH, CPF e carteira de trabalho avança na Câmara, elimina cobranças de emissão e renovação e deixa brasileiros aguardando etapas decisivas para saber se benefício realmente sairá do papel
-
O dinheiro de papel está sumindo do bolso do brasileiro, a emissão de cédulas novas caiu 31% de 2020 a 2025, em meio à explosão do Pix, que virou o meio de pagamento mais frequente para 46% da população enquanto o dinheiro vivo despencou de 42% para 22%
-
Dona da Tok&Stok e da Mobly acende alerta no varejo, vê dívida passar de R$ 1 bilhão e corre à Justiça para tentar salvar lojas, empregos e operações essenciais
-
China liga à rede elétrica a maior estação de armazenamento com baterias ultragrandes já construída no mundo e fecha contrato bilionário que consolida uma tecnologia capaz de sustentar cidades inteiras com energia limpa
José Alencar, que havia fundado sua primeira loja aos 18 anos com um pequeno empréstimo, construiu uma trajetória marcada por vários negócios até concentrar seu legado no setor têxtil. Ao longo das décadas seguintes, a Coteminas cresceu com força, tornou-se uma das maiores exportadoras de produtos têxteis da América Latina e passou a ser vista como gigante global em construção, com estrutura verticalizada que ia da fiação à confecção.
No Brasil, o grupo reuniu marcas icônicas como Santista, Artex, M Martan e Casa Moisés, dominando o mercado de cama, mesa e banho. Na Argentina, liderava com marcas próprias e, nos Estados Unidos e no Canadá, abastecia a casa de milhões de consumidores com linhas tradicionais de produtos para o lar.
A fusão que consolidou a gigante global
Em 2006, a fusão com a norte-americana Springs Industries criou a Springs Global, um colosso têxtil com faturamento anual de bilhões de dólares e presença de destaque nas Américas. A estratégia era clara: combinar o custo competitivo da produção brasileira com a força dos canais de distribuição norte-americanos.
O grupo passou a operar nove unidades industriais no Brasil, uma fábrica na Argentina e estruturas relevantes nos Estados Unidos e no Canadá, consumindo cerca de 20% de todo o algodão utilizado na indústria têxtil nacional. Ao mesmo tempo, expandiu agressivamente o varejo: comprou a rede M Martan, que saltou de 57 para 168 lojas entre 2009 e 2011, lançou a rede Artex em 2011 e avançou em franquias físicas e digitais.
No auge, a Coteminas se apresentava como gigante global do setor têxtil, com portfólio de marcas fortes, presença em diversos países e liderança absoluta no mercado brasileiro de cama, mesa e banho.
Crise financeira global e o primeiro grande choque
O primeiro grande abalo veio com a crise financeira de 2008. A forte valorização do real frente ao dólar fez desabar a competitividade das exportações, deixando até 60% da capacidade instalada ociosa. Para tentar compensar no mercado interno, a empresa reduziu preços, sacrificou margens e viu o endividamento crescer.
As operações nos Estados Unidos foram encolhidas, fábricas no Rio Grande do Norte foram fechadas entre 2008 e 2012 e o quadro de funcionários caiu em torno de 20%, para algo próximo de 8,5 mil pessoas. Das 31 unidades industriais que compunham o desenho original da Springs Global, restaram apenas cinco. Mesmo quando o dólar voltou a se fortalecer, a situação financeira da gigante global nunca retornou ao patamar anterior.
Pandemia, insumos caros e ataque dos importados
A pandemia de Covid-19 foi o segundo golpe. A Coteminas reduziu drasticamente a produção e consumiu seu capital de giro para manter despesas básicas em dia. A paralisação de fábricas chinesas provocou escassez de insumos têxteis e disparada no preço do algodão e das fibras sintéticas, empurrando custos a níveis inéditos.
Mesmo antes da pandemia, os prejuízos acumulados já passavam de centenas de milhões de reais. Depois dela, o cenário ficou ainda mais hostil com a entrada massiva de produtos importados, principalmente da China, que chegaram ao Brasil com preços agressivos e, muitas vezes, sem a mesma carga tributária das empresas locais. Plataformas de e-commerce de origem chinesa passaram a simbolizar essa concorrência, vendendo roupas de baixo valor diretamente ao consumidor brasileiro e pressionando ainda mais a indústria nacional.
Entre 2022 e 2023, enquanto a produção têxtil brasileira caía dois dígitos, as vendas no varejo cresciam. A diferença foi coberta por importações e corroeu espaço da Coteminas tanto na indústria quanto nas prateleiras, ameaçando sua posição como gigante global do segmento de cama, mesa e banho.
Dívida explosiva, fundo Faron e acordo com a Shein

Com custos em alta, receita sob pressão e juros elevados, o serviço da dívida se tornou insustentável. O endividamento praticamente dobrou em poucos anos, enquanto o faturamento bruto caiu de cerca de 3 bilhões de reais em 2021 para algo próximo de 1 bilhão em 2023. A empresa passou a atrasar salários e a enfrentar protestos em fábricas de Minas Gerais, Paraíba e Santa Catarina.
O gatilho imediato para o pedido de recuperação judicial foi uma disputa com o Fundo de Investimentos Faron. Entre 2021 e 2022, a Amo Varejo, braço de lojas da companhia, firmou um acordo de financiamento que previa a possibilidade de aporte de centenas de milhões de reais. A Coteminas alega, porém, que apenas parte do valor foi efetivamente desembolsada. Sem cumprir indicadores financeiros combinados, o fundo executou a dívida e pediu acesso às ações da Amo como garantia, forçando o grupo a buscar proteção na Justiça.
Em 2023, numa tentativa de preservar a operação e a imagem de gigante global, Josué Gomes articulou um acordo com a gigante chinesa do e-commerce Shein. O plano previa que mais de 2.000 fornecedores da Coteminas também se tornariam fornecedores da varejista asiática, com promessa de nacionalizar a maior parte da produção no Brasil e criar milhares de empregos. A Shein concedeu um empréstimo em dólares ao grupo, mas o mercado recebeu o anúncio com ceticismo e especialistas consideraram as metas pouco realistas. Poucos dias depois, a empresa demitiu mais de 700 funcionários na unidade de Blumenau, sinal de que o fôlego financeiro continuava curto.
Recuperação judicial histórica e reestruturação em curso
O pedido de recuperação judicial foi protocolado em maio de 2024, envolvendo 10 empresas do grupo, entre elas Coteminas S.A., Springs Global Participações, Amo Varejo e diferentes companhias de tecidos. Após meses de negociações, os credores aprovaram o plano em dezembro de 2024, num dos processos mais relevantes da história recente do setor têxtil brasileiro.
O plano prevê a venda de seis imóveis industriais em vários estados, com possibilidade de conversão de galpões em data centers, e a criação de dois fundos de investimento, um imobiliário e outro de direitos creditórios, que serão os principais veículos para pagamento dos credores. Também está prevista a alienação da marca de varejo M Martan. Trabalhadores devem receber seus créditos em até 36 meses, com chance de antecipação se a venda de ativos gerar caixa, enquanto micro e pequenas empresas terão um cronograma mais longo, que pode se estender por décadas.
Um ponto simbólico é que o plano não menciona a venda da fábrica de Blumenau, responsável por cerca de 50% do faturamento atual e que ainda emprega centenas de pessoas. A manutenção dessa unidade é vista como estratégica para qualquer retomada da Coteminas como gigante global especializada em cama, mesa e banho.
Números do colapso e um futuro em aberto
Os números recentes mostram o tamanho do desafio. A receita líquida em 2023 ficou bem abaixo do patamar de 2022 e o prejuízo líquido se aproximou de 1,1 bilhão de reais. O quadro de funcionários caiu de um pico de 11,7 mil para cerca de 5 mil empregos diretos, com mais de 4 mil demissões em menos de um ano. A rede de varejo também encolheu, com fechamento de dezenas de lojas próprias e uma operação hoje concentrada em pouco menos de 250 unidades entre lojas e franquias.
Ainda assim, a Amo Varejo, dona de marcas como Artex, Casa Moisés e Persono, continua respondendo por quase metade do faturamento do grupo e mantém cerca de 35% do mercado brasileiro de cama, mesa e banho, indicador de que a marca ainda preserva valor junto ao consumidor. Do outro lado, a estrutura industrial segue comprometida, com unidades paradas, operações na Argentina em avaliação e um passivo total que gira em torno de 2 bilhões de reais diante de uma base de credores que se aproxima de 10 mil nomes, incluindo grandes bancos e investidores institucionais.
As ações da Springs Global acumulam queda superior a 90% desde 2021, o valor de mercado despencou para poucas dezenas de milhões de reais e o patrimônio líquido se tornou negativo, refletindo o ceticismo dos investidores sobre a capacidade de a companhia vencer a crise. A suspensão do registro da Coteminas e da Springs Global pela Comissão de Valores Mobiliários por falhas na prestação de informações adicionou mais pressão à reputação da empresa que já foi símbolo de gigante global no setor têxtil.
No fim, a história da Coteminas contrasta dois cenários extremos: de um lado, o sonho de um jovem mineiro que construiu um império têxtil com 25 mil funcionários e faturamento bilionário em dólares; de outro, uma companhia hoje muito menor, com menos de 700 milhões de reais em faturamento anual, alto endividamento e um futuro cercado de incertezas. O plano de recuperação judicial é a tentativa de preservar o que resta e abrir espaço para um novo ciclo, mas o desfecho ainda está em aberto e dependerá da execução da reestruturação e da capacidade de reconquistar mercado.
E você, acredita que a Coteminas consegue se reinventar, reduzir a dívida e voltar a ser uma verdadeira gigante global do setor têxtil ou a era de ouro da empresa ficou definitivamente no passado?


Só ficou assim por causa desse filho dele , devendo agente trabalhadores e fornecedores, com desculpa fiada, as outras empresas têxtil tudo bombando só a coteminas chegou a esse ponto por causa da administração.
Eu acredito que a Coteminas consegue se reinventar e voltar a ser grande novamente.
Trabalhei na COTEMINAS, uma empresa de oportunidades e de valorização profissional, que agregava valores éticos e moral aos seus colaboradores. Porém mal administrada após o falecimento do inlustre José de Alencar, que enchergava o maior valor da companhia nas pessoas, hoje estamos desguarnecidos após quase 03 décadas laborais, sem pagamento de contas e sem garantias de recebê-las, só Deus pode resolver essa questão.