Caso isso se confirme, a perspectiva de corte dos juros básicos fica automaticamente adiada, ‘sine die’, além de não estar inteiramente descartado o início de um novo ciclo de alta, no curto prazo. Isso porque a última projeção do boletim Focus (consulta do BC às 100 maiores instituições financeiras do país) aponta um IPCA de 5,11% para este ano (13ª alta consecutiva), estourando, até mesmo, o teto da meta de inflação, fixada em 4,5% pelo CMN (Conselho Monetário Nacional).
Fatores internos e externos pesam na decisão do colegiado
Reforçam essa possibilidade fatores, tanto externos, quanto internos. No primeiro caso, os reflexos geopolíticos do conflito no Oriente Médio sobre a economia global – como a escalada de aperto monetário pelos bancos centrais, a reboque da alta do petróleo e do gás – e, no segundo, a resiliência da inflação, diretamente associada ao aprofundamento do desajuste fiscal do governo (despesas superam receitas), que prioriza sua reeleição, em outubro próximo. Mas há, também, o impacto, de magnitude ainda imprevisível sobre o Agro da região, a partir da chegada do super El Niño.
Mas a sombra da carestia não é somente tupiniquim, pois eis que surge a ‘inflação importada’, que é quando os preços sobem globalmente e o frete internacional, idem, em que esses custos são repassados aos produtos adquiridos do exterior. Dessa forma, a inflação global pode obrigar o BC a rever a trajetória de flexibilização monetária, ou seja, a queda dos juros.
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Blue3 traça dois cenários distintos para a Selic
A respeito da perspectiva monetária para a economia brasileira, o economista-chefe da Blue3 Investimentos, Roberto Simioni traçou dois cenários básicos: o primeiro, se baseia na possibilidade de a crise energética durar não mais de dois trimestres, o que permitiria ao BC manter a Selic no patamar atual, até o final do ano. Já o segundo, em que a pressão inflacionária persistiria por mais de três trimestres, o que demandaria uma ‘correção mais enérgica da taxa básica’.
No front externo, Simioni percebe uma mudança estrutural por parte dos bancos centrais de diversos países, face à persistência das pressões inflacionárias das respectivas regiões. “Observa-se também que bancos centrais manifestam sinais de possíveis reversões de sua política monetária”, afirma o economista ao citar os casos do Banco da Coreia do Sul e do Banco do Japão.
Principais bancos centrais enfrentam desafio semelhante
Na sua avaliação, o Banco Central Europeu (BCE), o Banco da Inglaterra (BoE), o Federal Reserve (Fed) e o próprio Banco Central do Brasil terão diante de si o mesmo desafio, no médio prazo. “Fica a expectativa de como tais bancos centrais agirão frente aos desafios inflacionários: se promoverão ajustes mais proativos em termos de magnitude ou se preferirão passos menores”.
Caso se confirme a previsão minoritária de um corte de 0,25 ponto percentual (p.p.), a Selic baixaria de 14,50% para 14,25% ao ano, seguida da interrupção do ciclo de reduções da taxa, devido às pressões inflacionárias (interna e externa) e grau elevado de incerteza do exterior. Com um ‘afrouxamento’ mais curto, o indicador chegaria ao final de 2026 no patamar de 13,50% ao ano.

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