Startup sul-coreana grava movimentos de funcionários para treinar robôs humanoides capazes de executar tarefas delicadas em hotéis e serviços.
Em 2026, dentro do cinco estrelas Lotte Hotel Seoul, na Coreia do Sul, funcionários experientes passaram a trabalhar de uma forma incomum: com câmeras presas à cabeça, ao peito e às mãos, registrando cada movimento enquanto dobravam guardanapos, limpavam taças, facas e garfos em um salão de banquetes. Segundo a Associated Press, em reportagem publicada em 12 de maio, esses gestos não estão sendo gravados para vigilância tradicional, mas para alimentar um banco de dados que poderá ensinar robôs a copiar tarefas humanas com precisão.
A iniciativa faz parte do trabalho da startup sul-coreana RLWRLD, pronunciada “real world”, empresa focada no desenvolvimento de modelos de base para robótica e manipulação com mãos robóticas de cinco dedos. Em vez de treinar inteligência artificial apenas com textos e imagens da internet, a companhia coleta movimentos reais de profissionais em hotéis, armazéns e lojas de conveniência, incluindo trabalhadores da CJ e da rede japonesa Lawson, para transformar técnicas humanas em dados legíveis por máquinas.
A proposta mostra uma mudança importante na corrida da inteligência artificial: depois da explosão dos chatbots e modelos generativos, empresas agora disputam a chamada “IA física”, definida pela AP como máquinas equipadas com IA e sensores capazes de perceber, decidir e agir em ambientes reais. No caso da RLWRLD, a meta é criar uma camada de software que funcione em robôs usados em fábricas, centros logísticos, hotéis e, no futuro, até dentro de casas. Funcionários usam câmeras corporais para transformar movimentos humanos em dados para robôs.
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O grande problema dos robôs modernos não é mais andar, mas usar as mãos como humanos
Nos últimos anos, empresas mostraram robôs humanoides capazes de correr, saltar e caminhar em terrenos difíceis. O verdadeiro obstáculo agora passou a ser outro: destreza manual.
Manipular copos frágeis, dobrar tecidos, organizar objetos delicados e controlar pressão dos dedos exige precisão extremamente complexa. Segundo executivos da RLWRLD, replicar a capacidade das mãos humanas se tornou prioridade central para a próxima geração de robôs.
É justamente por isso que a empresa começou a registrar trabalhadores experientes em ambientes reais de hotelaria, logística e varejo.
Hotel de luxo virou laboratório para treinar robôs humanoides
O Lotte Hotel Seoul se tornou um dos primeiros ambientes reais utilizados pela startup. Funcionários do setor de eventos passaram a executar tarefas enquanto sensores e câmeras capturam detalhes como ângulo das articulações, força aplicada nas mãos, posição dos dedos e sequência dos movimentos.
Os dados depois são convertidos em informações compreensíveis para modelos de IA especializados em controle robótico. A RLWRLD não está limitada apenas ao setor hoteleiro.
Segundo a Associated Press, a startup também trabalha com funcionários da empresa logística CJ, registrando movimentos de trabalhadores em armazéns, além de funcionários da rede japonesa Lawson, onde câmeras acompanham organização de produtos e manipulação de itens em lojas de conveniência. A ideia é construir uma gigantesca biblioteca de habilidades humanas voltadas à robótica.
Robôs estão aprendendo força, pressão e movimentos delicados das mãos humanas
Os dados capturados vão muito além de simples vídeo. Segundo a RLWRLD, os sistemas registram detalhes extremamente específicos como pressão aplicada sobre objetos, torque das articulações, sequência motora e intensidade da força usada em cada tarefa.
Isso é fundamental porque robôs precisam aprender não apenas “o que fazer”, mas exatamente “como fazer” sem quebrar, derrubar ou danificar objetos.
A empresa revelou recentemente o modelo RLDX-1, descrito como um sistema de IA voltado especificamente para manipulação robótica de alta precisão.
Segundo a RLWRLD, o modelo utiliza arquitetura multistream capaz de combinar visão computacional, memória de contexto, movimento e sensores de força para gerar ações físicas mais naturais. O objetivo é criar uma espécie de “cérebro” universal para humanoides industriais e domésticos.
Coreia do Sul quer virar potência mundial em “IA física”
O projeto faz parte de um movimento muito maior dentro da Coreia do Sul. O governo sul-coreano anunciou recentemente um programa de cerca de US$ 33 milhões para capturar habilidades de “mestres técnicos” e criar bancos de dados usados no treinamento de sistemas robóticos industriais.
A estratégia nacional busca posicionar o país como líder em IA física, aproveitando a força da indústria sul-coreana em eletrônicos, semicondutores e automação. Grandes empresas sul-coreanas também começaram a entrar fortemente nesse mercado.
Segundo a Associated Press, a Samsung Electronics planeja transformar suas fábricas em ambientes orientados por IA até 2030, enquanto a Hyundai Motor Company pretende utilizar humanoides da Boston Dynamics em suas operações nos próximos anos.
Isso mostra como a corrida pelos robôs humanoides saiu dos laboratórios e começou a entrar diretamente na indústria.
Robôs ainda estão muito longe da velocidade humana em hotéis
Apesar do avanço tecnológico, os próprios envolvidos reconhecem as limitações atuais. Funcionários do Lotte Hotel afirmaram que humanoides ainda precisariam de várias horas para limpar um quarto que trabalhadores humanos conseguem organizar em cerca de 40 minutos.
Isso mostra que os robôs continuam muito distantes da eficiência humana em tarefas complexas e imprevisíveis. Mesmo assim, hotéis já começaram a estudar uso futuro dessas máquinas.
Segundo os envolvidos no projeto, humanoides poderiam assumir aproximadamente 30% a 40% das tarefas realizadas em áreas internas de serviço, especialmente atividades repetitivas de preparação, organização e limpeza. Funções envolvendo interação humana direta continuam vistas como muito mais difíceis de automatizar.
O conhecimento humano começou a virar matéria-prima para IA
Talvez o aspecto mais importante da história seja justamente a transformação do trabalho humano em dado digital.
Movimentos desenvolvidos ao longo de anos de experiência agora são capturados, convertidos em informação computacional e reutilizados no treinamento de máquinas.
Isso criou uma discussão crescente sobre quem realmente “possui” essas habilidades quando elas passam a alimentar sistemas comerciais de inteligência artificial.
O próximo grande mercado da IA pode não estar na internet, mas no corpo humano
Durante a primeira onda da IA generativa, empresas coletaram textos, imagens e vídeos da internet para treinar modelos. Agora, a corrida começa a migrar para outro tipo de dado: movimentos físicos humanos no mundo real.
Dobrar um guardanapo, limpar uma taça, arrumar uma cama ou organizar uma prateleira virou informação valiosa para empresas que tentam criar robôs capazes de atuar fora das fábricas tradicionais.
O caso da RLWRLD ajuda a mostrar uma mudança profunda na relação entre humanos, trabalho e inteligência artificial.
Em vez de apenas conversar com chatbots, empresas passaram a registrar gestos, movimentos e habilidades físicas humanas para alimentar a próxima geração de máquinas.
No fim, o que acontece hoje em hotéis da Coreia do Sul pode representar o início de uma nova etapa da IA: robôs treinados não apenas com palavras da internet, mas com os próprios movimentos do corpo humano no mundo real.


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