Conheça a história de Aline Ferro, a engenheira filha de mecânico que superou preconceitos e montou seu próprio negócio automotivo no Agreste de Alagoas.
Uma rotina cercada por 15 irmãos, ferramentas pesadas e graxa na oficina mecânica de seu pai, José Petrúcio Correia, em Campo Alegre (AL), moldou a infância de Aline Ferro. Hoje, aos 38 anos, a engenheira mecânica comanda seu próprio negócio, a Ferro Oficina Automotiva, localizada em Arapiraca, no Agreste de Alagoas.
A decisão de abrir as portas do estabelecimento próprio ocorreu há alguns meses, após receber o suporte institucional do Sebrae para se formalizar e identificar uma grande oportunidade de mercado durante uma viagem corporativa. Sendo filha de mecânico, ela precisou quebrar barreiras culturais e superar a desaprovação inicial da família para se transformar em um símbolo de representatividade feminina no setor automotivo regional.
Conheça a história de Aline, a filha do mecânico
Os planos iniciais estruturados para o futuro de Aline eram muito diferentes da realidade de um pátio de manutenção veicular. Ao concluir o ensino médio, ela alcançou a aprovação no vestibular para cursar a faculdade de Direito, o que representava a realização de um grande sonho para seu pai, que desejava uma carreira menos desgastante para ela.
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A mudança definitiva de rumo aconteceu durante um período de férias de 15 dias no Rio de Janeiro, onde o irmão mais velho sugeriu que ela prestasse vestibular para Engenharia Mecânica. Aprovada no exame, ela decidiu comunicar a decisão por telefone, o que gerou profunda frustração em José Petrúcio.
O descontentamento fez com que o idoso passasse a ignorar e se recusar a falar com a filha durante todos os quatro anos de faculdade, período compreendido entre 2012 e 2017. Com o apoio irrestrito de sua mãe, do namorado — que posteriormente tornou-se seu marido — e dos irmãos, Aline concluiu a graduação.
A paz familiar foi selada de forma marcante quando o pai apareceu de surpresa na comemoração de sua formatura.
A dinâmica profissional da numerosa família de Aline sempre foi centralizada na oficina mecânica do patriarca, que garantiu o sustento da casa, fazendo com que quase todos seguissem o mesmo ramo, exceto cinco herdeiros:
- Uma profissional voltada ao setor de costura.
- Um integrante da corporação da Polícia Militar.
- Um trabalhador da área de transportes (motorista).
- Uma dona de casa.
- Uma especialista em saúde mental (psicóloga).
Resistência técnica contra o preconceito de gênero
Após o período acadêmico, Aline obteve o título de mestre na área e chegou a lecionar a disciplina de Engenharia Mecânica em uma faculdade na capital Maceió.
No entanto, sua verdadeira paixão estava no trabalho prático do pátio automotivo. Em 2021, após dar à luz seu primeiro filho, ela começou a atender em um box cedido dentro da oficina de seu irmão, em Campo Alegre.
Nesse local, enfrentou episódios diretos de discriminação. Em um deles, um cliente recusou-se a deixar que ela trocasse o calço do motor de seu veículo ao perceber que se tratava de uma mulher, sendo confrontado pelo irmão da engenheira, que se recusou a fazer o serviço no lugar dela.
Em outra situação, um vendedor de autopeças tentou menosprezar o conhecimento técnico de Aline entregando componentes errados, recuando apenas quando ela utilizou um paquímetro para medir e demonstrar o erro.
A segurança para trabalhar de igual para igual veio da confiança de seus irmãos e do uso de novas tecnologias que mitigam a exigência de força física. Conforme explicou a profissional em entrevista sobre a atuação feminina no ramo:
“Muitos homens não acreditam que nós somos capazes de fazer os mesmos serviços que eles fazem, porque é um trabalho pesado, mas a única diferença é a força física. Só que hoje existem ferramentas e equipamentos que reduzem o esforço físico e possibilitam que a gente trabalhe de igual para igual.”

Rede de apoio feminino e os rumos da nova oficina
A experiência acumulada com essas barreiras motivou a filha de mecânico a integrar o projeto “Elas no Volante”, uma iniciativa desenvolvida pelo Sebrae em 2024.
O grupo serve como ponto de apoio e reúne mais de 40 mulheres que atuam no segmento automotivo no Agreste alagoano, promovendo novas rodadas de capacitação e troca de vivências ao longo deste ano de 2026.
A relevância desse espaço de união foi detalhada por Stheffany Lóz, trainee da instituição e gestora do programa:
“O Mulheres no Volante foi criado quando percebemos que o setor automotivo é formado também por mulheres e que elas precisam ter voz. Pela primeira vez elas tiveram suas dores ouvidas, porque não é fácil atuar em um meio em sua maioria feminino e cercado de estereótipos.”
A faísca final para a abertura da Ferro Oficina Automotiva em Arapiraca surgiu em junho, quando uma psicóloga na caravana de ônibus rumo ao evento Alagoas Summit questionou Aline sobre o porquê de viajar diariamente para Campo Alegre em vez de montar sua estrutura na cidade onde morava. Convencida, ela uniu forças com o marido e o irmão para levantar as pilastras do novo prédio.
A coroação dessa trajetória de sucesso vem do próprio pai, José Petrúcio: aos 82 anos, o idoso tornou-se um grande parceiro de oficina, ajudando com carinho a filha engenheira na restauração de automóveis clássicos, como Kombis e Fuscas.
Com informações da Revista PEGN
