Sistema desenvolvido na UFG mostrou como a água descartada por aparelhos de ar-condicionado pode ser captada em reservatórios e usada na limpeza de prédios, reduzindo o consumo de água tratada em uma solução simples, barata e altamente visual.
O que parecia apenas um incômodo comum em prédios, calçadas e marquises virou uma solução simples de economia. Um sistema desenvolvido na Universidade Federal de Goiás mostrou que a água descartada por aparelhos de ar-condicionado pode ser captada, armazenada e usada na limpeza de edifícios.
A experiência foi instalada na sede do Crea-GO e teve como base o trabalho do professor Euler Bueno, da Escola de Engenharia Elétrica, Mecânica e de Computação da UFG. O dado que mais chama atenção é direto: cerca de 400 litros de água por dia deixaram de ir para o ralo.
Em um momento em que prédios públicos, escolas, empresas e condomínios discutem consumo, desperdício e custo da água tratada, o caso mostra que parte da economia pode estar pingando todos os dias diante de todos.
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UFG transformou gotejamento de ar-condicionado em sistema de reaproveitamento

Segundo o Jornal UFG, a proposta partiu de um problema conhecido por qualquer pessoa que circula por áreas urbanas: a água que escorre dos drenos do ar-condicionado. Em vez de cair no chão ou seguir para o esgoto, ela foi canalizada por dutos até reservatórios.
O sistema foi aplicado a 74 aparelhos de ar-condicionado da sede do Crea-GO. A água captada era direcionada para dois reservatórios de 200 litros cada, além de recipientes móveis de 100 litros usados para facilitar o trabalho das equipes de limpeza.
A estrutura teve investimento informado de R$ 782,24, valor baixo diante do volume de água reaproveitado. De acordo com a UFG, a água coletada era suficiente para auxiliar na limpeza da sede do Crea-GO, com 4.444,78 m², e de um prédio anexo de 235,49 m².
O que antes aparecia como gotejamento disperso passou a virar recurso organizado dentro do próprio edifício.
Economia chegou a cerca de 400 litros por dia e passou de 100 mil litros em um ano

O volume registrado pela experiência varia conforme o clima. Nos dias mais secos, segundo a UFG, a captação ficava entre 310 e 350 litros por dia. Já no período chuvoso, quando a umidade relativa do ar superava 60% em média, a produção podia chegar a 510 litros diários.
Na prática, o número mais usado para dimensionar o impacto do sistema foi a economia de cerca de 400 litros de água por dia.
O Crea-GO informou que, em um ano, o sistema evitou o uso de mais de 100 mil litros de água tratada. A economia financeira aproximada foi de R$ 4 mil no período.
O ponto central não está apenas no dinheiro. O caso mostra que grandes edifícios podem estar descartando diariamente um volume considerável de água que poderia atender usos simples, como lavagem de pisos, áreas comuns, garagens e ambientes externos.
Água do ar-condicionado não é para beber, mas pode reduzir desperdício em usos não potáveis

A água formada no ar-condicionado vem da umidade retirada do ambiente. Ao passar pelo processo de condensação dentro do equipamento, essa água escorre pelo dreno e normalmente é descartada.
No caso da UFG, antes do uso, foram feitas análises bacteriológicas e físico-químicas. Segundo o professor Euler Bueno, o resultado indicou que a água poderia ser usada em serviços de limpeza. A orientação, porém, é clara: não se trata de água para consumo humano.
Esse cuidado é importante para evitar uma leitura errada da solução. O reaproveitamento não substitui água potável em torneiras, bebedouros ou preparo de alimentos. Ele faz sentido para tarefas em que não há necessidade de água tratada para beber.
A referência técnica da ABNT NBR 16783:2019, citada na pesquisa, trata do uso de fontes alternativas de água não potável em edificações. Entre os usos previstos estão lavagem de áreas externas, irrigação paisagística, descarga em bacias sanitárias, lavagem de veículos e sistemas de resfriamento.
Escolas e universidades também mediram centenas de litros que antes eram desperdiçados
O caso da UFG não aparece sozinho. Em Mato Grosso do Sul, uma escola estadual de Campo Grande desenvolveu um projeto com água de ar-condicionado e bebedouro. Segundo a Secretaria de Estado de Educação de Mato Grosso do Sul, os estudantes calcularam cerca de 403,20 litros por dia, o equivalente a 2.016 litros por semana.
Na escola, a água que antes escorria pelas calçadas foi canalizada para uma caixa d’água fechada, com torneira e bomba, e passou a ser usada na limpeza da quadra esportiva.
Outro estudo, publicado pela Universidade Federal de Santa Maria em 2024, mediu a água condensada por um aparelho em sala de aula e encontrou média de 1.662 ml por hora. O volume aumentava em condições de maior temperatura e umidade, o que ajuda a explicar por que prédios em cidades quentes e úmidas podem ter potencial maior de captação.
Em Pernambuco, um estudo apresentado na ABRHidro estimou produção de 3,72 m³ por dia e 82 m³ por mês em um campus universitário. Esse volume poderia representar cerca de 9,5% do consumo médio mensal de água do local.
Já em Recife, um estudo sobre uma edificação hospitalar publicado em periódico da ANAP estimou que a água condensada dos equipamentos poderia atender parte relevante da demanda predial não potável, incluindo irrigação, higienização de pisos e sistemas de resfriamento.
Solução simples exige reservatório fechado, manutenção e separação da água potável
Apesar da aparência simples, o sistema precisa ser feito com cuidado. A água deve ser coletada em reservatórios fechados, com proteção contra sujeira, insetos e acesso de mosquitos.
Também é necessário separar completamente a rede de água potável da rede de água não potável. A ABNT NBR 16783:2019 reforça a necessidade de identificação visual, projeto adequado, operação correta e manutenção periódica.
O próprio caso da UFG destacou esse ponto ao usar proteção nos reservatórios para impedir o acesso de mosquitos. Em prédios públicos, escolas, hospitais e empresas, a adoção do sistema exige ainda análise da qualidade da água e regras claras para uso.
Mesmo assim, a ideia mostra uma vantagem difícil de ignorar: ela aproveita uma água que já está sendo produzida todos os dias pelos aparelhos ligados.
O desperdício escondido dentro dos prédios
A história da água do ar-condicionado chama atenção porque não depende de grandes obras para ser compreendida. Basta olhar para o gotejamento que cai de um aparelho em funcionamento.
Em muitos locais, essa água vira poça, escorre por paredes, molha calçadas e acaba no ralo. No sistema testado pela UFG, o mesmo volume passou a ajudar na limpeza de milhares de metros quadrados.
O caso vai além de uma curiosidade técnica. Ele revela como o desperdício urbano também pode estar nos detalhes mais comuns da rotina. Em tempos de pressão sobre recursos hídricos e custo crescente de operação em prédios, até a água que pinga silenciosamente do ar-condicionado pode mostrar que a economia começa antes do hidrômetro.
