Mortes por afogamento em rios, canais e lagos acendem alerta durante a onda de calor na Europa, enquanto autoridades reforçam os riscos de águas abertas, choque térmico e resgates improvisados em locais sem supervisão adequada.
Desde 18 de junho, 40 pessoas morreram afogadas na França enquanto tentavam se refrescar em meio à onda de calor que atinge parte da Europa, segundo o primeiro-ministro francês, Sébastien Lecornu.
O avanço dos casos levou autoridades a reforçar alertas sobre banhos em rios, canais, lagos e áreas sem supervisão, especialmente em períodos de calor extremo.
Na terça-feira (23), a França registrou temperaturas recordes, com pico de 44,3°C no sudoeste do país, de acordo com a Météo-France.
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Reino Unido, Itália, Espanha e Suíça também enfrentaram calor intenso, com efeitos em escolas, transportes e pontos turísticos, em um cenário associado a um bloqueio atmosférico que mantém ar quente preso sobre a região.
A procura por rios e canais aumentou porque muitas pessoas passaram a buscar alívio imediato para as altas temperaturas, mesmo em trechos onde o banho é proibido ou perigoso.
A ministra francesa do Esporte, Marina Ferrari, afirmou compreender a tentativa de escapar do calor, mas disse que nadar sem supervisão durante uma onda de calor deve ser levado “muito a sério”.
Entre os casos registrados está o de uma menina de 13 anos que entrou no rio Sena com a família, em Fontaine-La-Port, embora não soubesse nadar.
Perto de Lyon, um jovem jogador de futebol profissional foi retirado em estado grave do rio Ródano, após equipes de emergência serem chamadas para socorrer quatro jovens em uma área interditada ao banho.
Onda de calor amplia risco em águas abertas
Na Alemanha, mortes também foram registradas durante o período de calor, segundo a Associação Alemã de Salvamento Aquático, conhecida pela sigla DLRG.
A entidade informou seis incidentes fatais com banhistas entre sexta-feira (19) e domingo (21), além de alertar que homens, em especial, tendem a superestimar a própria capacidade dentro da água.

Dias depois do desaparecimento de três homens de 23, 27 e 50 anos em dois pontos diferentes do rio Reno, três corpos foram encontrados perto de Biblis, no sudoeste alemão.
Já no Reino Unido, nove pessoas morreram em ocorrências envolvendo lagos e rios durante uma onda de calor registrada no fim de maio.
Mais da metade dos departamentos franceses ficou sob alerta vermelho, o nível máximo, durante o episódio de calor, e centenas de escolas tiveram atividades afetadas.
A Reuters informou que 54 departamentos estavam em alerta vermelho na terça-feira (23), com previsão de aumento para 58 no dia seguinte.
Por trás da escalada das temperaturas, meteorologistas apontam um bloqueio atmosférico conhecido como “Omega block”, ou bloqueio ômega, que prende uma massa de ar quente entre sistemas mais frios.
Com a circulação do ar dificultada, o calor permanece sobre a mesma área e pode se intensificar ao longo dos dias.
Perigos invisíveis aumentam o risco de afogamento
Especialistas ouvidos pela BBC afirmam que a falta de experiência em águas abertas ajuda a explicar parte das mortes registradas durante a onda de calor.
Steve Cavallo, da Royal National Lifeboat Institution, disse que, quando o tempo esquenta em países pouco acostumados a calor intenso, muitas pessoas entram em qualquer corpo d’água, seja no litoral, seja no interior.
Reservatórios, canais e lagos formados em antigas áreas industriais podem esconder obstáculos sob a superfície, o que aumenta o risco de aprisionamento, ferimentos e perda de controle durante o banho.
Cavallo afirmou que não é possível saber, apenas observando de fora, quais objetos foram descartados ou permanecem submersos nesses locais.
Outro fator de risco é o choque térmico provocado pela água fria, mesmo quando a temperatura do ar está muito elevada.
Ashley Jones, especialista em segurança aquática da Royal Life Saving Society, explicou que a água não aquece na mesma velocidade do ar e que entrar correndo, pulando ou mergulhando pode provocar uma inspiração brusca e involuntária.
Segundo Jones, essa reação se torna perigosa quando a pessoa já está dentro da água, porque a respiração e os batimentos cardíacos aceleram de forma repentina.
Em uma situação de susto e esforço físico, o pânico pode dificultar os movimentos e iniciar o processo de afogamento.
Georgia Beardmore, da Royal Society for the Prevention of Accidents, afirmou que a maioria dos afogamentos acidentais ocorre em águas interiores, e não no mar.
Na avaliação dela, reservatórios, canais e lagos de pedreiras apresentam riscos diferentes e menos visíveis do que aqueles normalmente associados às praias.
Resgate improvisado pode agravar emergências
Além dos riscos para quem entra na água, especialistas chamam atenção para o perigo de tentativas de resgate sem preparo, sobretudo quando familiares ou amigos estão em dificuldade.
Cavallo afirmou que, em muitos casos, quem tenta ajudar também acaba precisando de socorro, porque desconhece a correnteza, os obstáculos ou a condição que colocou a vítima em risco.
Para reduzir esse perigo, Andrew Black, voluntário da York Rescue Boat, recomenda a técnica de “alcançar e lançar”, que consiste em jogar ou estender algo que a pessoa possa segurar.
O objeto pode ser um equipamento de emergência, um galho, toalhas amarradas ou qualquer item que permita ajudar sem entrar diretamente na água.
Quando alguém cai ou se vê em dificuldade, a orientação é tentar flutuar de costas, manter as vias respiratórias fora da água e controlar a respiração antes de pedir ajuda ou nadar.
Beardmore e Black reforçam que manter a calma facilita a adaptação ao frio e reduz o risco de pânico enquanto o socorro não chega.

