A Ferrovia do Contestado, cuja construção desencadeou uma guerra entre 1912 e 1916, está parada desde os anos 1990, mas Canoinhas (SC) pediu estudo de viabilidade e o governo federal analisa com o BID e a Rumo o futuro de trechos ferroviários ociosos no país.
A ferrovia do Contestado, cuja construção deflagrou uma guerra que matou milhares no Sul do Brasil, voltou ao centro das discussões sobre infraestrutura no Norte catarinense após a prefeitura de Canoinhas pedir, no início de 2026, a elaboração de um EVTEA (Estudo de Viabilidade Técnica, Econômica e Ambiental) para determinar se o trecho desativado há mais de 30 anos ainda pode ser reaproveitado. O estudo concentra-se num segmento que conecta Caçador ao trecho de Mafra, com saída para o Porto de São Francisco do Sul, rota que poderia baratear o frete de produtos agrícolas e industriais da região. A análise vai examinar demanda potencial, custos de reativação, condições do traçado, capacidade operacional e impactos ambientais.
Paralelamente ao esforço municipal, o governo federal também se movimenta. O Ministério dos Transportes confirmou que já deu início a levantamentos, em cooperação com o Banco Interamericano de Desenvolvimento, para avaliar trechos ferroviários inativos em todo o país, e a ferrovia de Canoinhas está entre os que serão analisados. Os levantamentos devem apontar se a reativação compensa do ponto de vista técnico e econômico e de que forma a operação poderia ser retomada. A decisão final caberá ao governo federal, já que a ferrovia integra a malha operada pela Rumo em regime de concessão com vigência até 2027.
A guerra que a construção da ferrovia provocou em Santa Catarina

A Ferrovia do Contestado carrega uma história que ultrapassa a engenharia. Sua construção no início do século 20 esteve no centro de um dos conflitos armados mais violentos do Sul do Brasil: a Guerra do Contestado, travada entre 1912 e 1916 na região disputada por Santa Catarina e Paraná. Na época, terras onde viviam comunidades de camponeses foram cedidas a empresas envolvidas na obra da antiga estrada de ferro, expulsando moradores que dependiam daquele solo para sobreviver.
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Sem terra e sem trabalho, milhares de pessoas passaram a se organizar em resistência contra autoridades e grandes proprietários. O confronto se estendeu por quatro anos, deixou milhares de mortos e marcou profundamente a identidade cultural do interior catarinense e paranaense. A ferrovia que motivou o conflito funcionou por décadas depois da guerra, impulsionando o desenvolvimento de municípios como Canoinhas ao facilitar o escoamento de madeira e erva-mate, até perder relevância nos anos 1990 com a mudança do modelo logístico brasileiro para as rodovias.
Por que a ferrovia foi desativada e o que mudou desde então

A linha férrea na região de Canoinhas perdeu sua função operacional após a implantação da chamada Ferrovia Tronco Sul, que conecta Paraná ao Rio Grande do Sul por uma rota diferente. A concessionária Rumo, responsável pela Malha Sul, informou que a desativação ocorreu antes mesmo do início do contrato de concessão vigente, e que o trecho permanece inativo desde então. Com os trilhos sem uso, as estações viraram patrimônio cultural e a ferrovia se transformou em símbolo histórico.
O cenário logístico, porém, mudou nas últimas três décadas. O custo do transporte rodoviário subiu, as estradas da região sofrem com manutenção deficiente e a demanda por escoamento de produção agrícola e industrial cresceu. Esses fatores reacenderam a discussão sobre se a ferrovia ainda pode cumprir o papel que desempenhou no passado, agora com volumes de carga e destinos diferentes dos que justificaram sua construção original há mais de um século.
O que o estudo técnico vai analisar sobre a ferrovia
O EVTEA solicitado pela prefeitura de Canoinhas tem escopo definido: avaliar se a reativação da ferrovia no trecho entre Caçador e o ramal de Mafra faz sentido nos dias atuais. O levantamento vai cruzar dados de demanda de carga na região com os custos estimados para recuperar trilhos, pontes, estações e sistemas de sinalização que estão abandonados há três décadas. A conexão com o Porto de São Francisco do Sul é o principal atrativo logístico, já que permitiria escoar produtos do interior diretamente para o litoral sem depender exclusivamente de caminhões.
A administração municipal argumenta que a ferrovia impulsionou o desenvolvimento local no passado e que o estudo deve responder se ela pode repetir esse papel. O desafio é que a infraestrutura existente pode estar deteriorada a ponto de exigir investimento equivalente ao de uma construção nova, o que mudaria completamente a equação de viabilidade. Só o resultado do EVTEA poderá dizer se a reativação é economicamente justificável ou se permanecerá como aspiração regional sem sustentação técnica.
Quem decide o futuro da ferrovia e por que a resposta não é simples
A reativação não depende apenas da vontade de Canoinhas ou do governo estadual. O trecho pertence à malha concedida à Rumo, cujo contrato vigora até 2027, e qualquer decisão sobre o destino da ferrovia passa necessariamente pelo governo federal, que é o titular da concessão. A Secretaria de Portos, Aeroportos e Ferrovias de Santa Catarina confirmou essa limitação: o estado pode apoiar estudos e articular politicamente, mas não tem poder de decisão sobre a operação do trecho.
A Rumo, por sua vez, mantém diálogo com o governo federal sobre possibilidades para a Malha Sul como um todo. A empresa não descarta mudanças, mas condiciona qualquer definição às decisões da União, postura esperada de uma concessionária que opera sob contrato regulado. O cenário mais provável é que os resultados dos estudos federais, conduzidos em parceria com o BID, sejam cruzados com o EVTEA municipal para formar um diagnóstico completo sobre a ferrovia antes que qualquer decisão concreta seja tomada.
O que a possível volta da ferrovia significaria para o Norte de Santa Catarina
Se os estudos apontarem viabilidade, a reativação da ferrovia abriria um corredor logístico entre o interior catarinense e o litoral que hoje não existe. Produtores de grãos, madeira e manufaturas da região de Canoinhas, Caçador e Mafra teriam uma alternativa ao transporte rodoviário, reduzindo custos de frete e diminuindo o fluxo de caminhões pesados nas estradas estaduais. A conexão ferroviária com o Porto de São Francisco do Sul agregaria competitividade às exportações da região.
O impacto iria além da economia. A ferrovia que gerou uma guerra, impulsionou cidades e foi abandonada por três décadas voltaria a operar sobre os mesmos trilhos que carregam a memória de milhares de mortos do Contestado. A decisão sobre seu futuro envolve números de viabilidade, contratos de concessão e política federal, mas para os moradores da região envolve também identidade, história e a esperança de que uma infraestrutura centenária ainda possa servir ao desenvolvimento de quem vive ao longo do seu traçado.
E você, acha que ferrovias desativadas deveriam ser reaproveitadas ou o Brasil deveria investir em linhas completamente novas? Conhece a história da Guerra do Contestado? Deixe sua opinião nos comentários.


Bom dia. Sim, as ferrovias deveriam voltar a funcionar aproveitando a estrutura existente com aperfeiçoamento gradual.
Nossa…..adoraria q fosse possível…e tbem colocar trem para passageiros…seria mto legal
Parabéns pela matéria e espero que o estudo seja favorável.