Envelhecimento no campo avança nos EUA: idade média dos produtores chega a 58,1 anos, jovens deixam as fazendas e mais de um terço já ultrapassou 65 anos sem sucessores.
As mãos calejadas de John Miller, 62 anos, conhecem cada centímetro dos 800 acres de terra que sua família cultiva há quatro gerações em Iowa. Mas quando olha para o horizonte, não vê um sucessor. Seus dois filhos seguiram carreiras na tecnologia e nas finanças, deixando para trás os campos de milho e soja que alimentaram a família desde 1890. A idade média dos produtores agrícolas americanos atingiu 58,1 anos em 2022, um aumento de 0,6 anos em relação a 2017, continuando uma tendência de décadas que começou quando a idade média era de 48,7 anos em 1945.
Ainda mais alarmante: o número de produtores entre 35 e 64 anos caiu 9%, enquanto o número de produtores com 65 anos ou mais aumentou 12%. Isso significa que mais de um terço dos agricultores americanos já ultrapassou a idade tradicional de aposentadoria, mas continua trabalhando porque não há quem assuma.
“Eu deveria ter me aposentado há cinco anos”, admite Miller. “Mas quem vai cuidar disso tudo?”
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A geração que não voltou para casa e a crise de sucessão com agricultores
De 2002 a 2007, o número de agricultores americanos com 55 anos ou mais aumentou 17%, enquanto o número de agricultores com menos de 45 anos diminuiu quase 21%. A matemática é cruel: os velhos agricultores estão “envelhecendo para fora” do negócio e não estão sendo substituídos.
O problema não é apenas demográfico é estrutural. Embora 69% das fazendas familiares pesquisadas esperem que a propriedade continue para a próxima geração, apenas 23% têm um plano de sucessão. Pior ainda: 53% dos proprietários de fazendas que planejam se aposentar não têm plano de sucessão, e apenas 19% têm um sucessor que atualmente trabalha na fazenda.
“Meus filhos me perguntam: ‘Pai, por que você não vende tudo e se aposenta?'”, conta Miller. “Mas vender para quem? Para uma corporação? Isso não é o que meu avô queria quando comprou essa terra.”
O custo invisível da crise de sucessão com agricultores
A transferência de uma fazenda não é como passar as chaves de um carro. É um processo complexo que envolve milhões de dólares em ativos, dívidas geracionais, impostos sobre herança e a difícil tarefa de dividir a propriedade entre herdeiros que querem (e os que não querem) continuar no campo.
Menos de 33% das empresas familiares sobrevivem à transição da primeira para a segunda geração, e apenas metade dessas consegue fazer a transição da segunda para a terceira geração — o que significa que apenas cerca de 16,5% das empresas familiares sobrevivem até a terceira geração.
As barreiras financeiras são gigantescas. Os EUA perderam mais de 140.000 fazendas entre 2017 e 2022, e o tamanho médio das fazendas cresceu 20 acres, empurrando mais operações para a faixa afetada por impostos federais sobre herança.
Para jovens que desejam entrar na agricultura, o cenário é ainda mais desafiador. O custo de equipamentos, terras e insumos tornou-se proibitivo. Uma única colheitadeira moderna pode custar US$ 500 mil. Terras agrícolas em estados produtivos como Iowa podem custar US$ 10 mil por acre. Para um jovem de 30 anos sem herança, começar uma fazenda de tamanho viável exigiria milhões de dólares em capital inicial.
O êxodo para as cidades
Sarah Thompson, de 28 anos, cresceu em uma fazenda de gado leiteiro em Wisconsin. Ela ama a terra, mas não voltará para assumir o negócio da família.
“Meu pai trabalha 80 horas por semana e mal consegue pagar as contas”, explica. “Eu tenho um emprego em marketing em Chicago. Ganho bem, tenho horário flexível e seguro de saúde. Como posso voltar para trabalhar o dobro e ganhar metade?”
Aproximadamente 10% de todas as terras agrícolas (93 milhões de acres) devem ser transferidas durante o período de 2015-19, das quais a maior parte (6%) mudará de mãos através de presentes, trustes ou testamentos. Mas de todas as terras que se espera serem transferidas, apenas cerca de um quarto (21 milhões de acres) será vendido entre pessoas não relacionadas.
Isso significa que a maioria das terras permanece “na família”, mas muitas vezes nas mãos de herdeiros que não têm interesse em cultivá-las. Agricultores aposentados representam 38% dos proprietários não-operadores de terras agrícolas, criando uma classe crescente de “proprietários ausentes” que alugam terras para outros agricultores.
O dilema da América
A crise de sucessão não é apenas um problema para famílias rurais é uma questão de segurança nacional. Os EUA registraram exportações agrícolas de US$ 176 bilhões em 2024, mantendo-se como o segundo maior exportador de produtos agrícolas do mundo, atrás apenas da União Europeia.
Fazendas familiares representam 96% de todas as fazendas dos EUA, mas esse modelo centenário está em risco. O Censo Agrícola de 2022 mostrou que o número total de fazendas caiu abaixo de 2 milhões pela primeira vez registrado, e as terras agrícolas agora totalizam apenas 880 milhões de acres, a menor quantidade desde 1850.
“Se perdermos mais uma geração de agricultores, não seremos capazes de recuperar”, alerta Robert Hansen, economista agrícola da Universidade de Iowa. “Não se cria um agricultor da noite para o dia. Leva décadas de conhecimento acumulado.”
Sinais de esperança?
Há algumas luzes no fim do túnel. Pouco mais de 1 milhão dos 3,4 milhões de produtores em 2022 são agricultores iniciantes, definidos como aqueles que operam uma fazenda há não mais de 10 anos consecutivos. A idade média desses agricultores iniciantes é de 47,1 anos, 11 anos mais jovem que a média nacional.
Além disso, houve um aumento de 7% em agricultores com menos de 44 anos, com o maior salto entre os produtores mais jovens, aqueles com menos de 25 anos.
Mas esses números ainda são insuficientes para compensar o êxodo de jovens das áreas rurais e a aposentadoria iminente de centenas de milhares de agricultores idosos.
O que está em jogo
De volta a Iowa, John Miller ainda acorda antes do amanhecer, ainda verifica o clima obsessivamente, ainda preocupa-se com os preços do milho. Mas agora também se preocupa com algo que seu avô nunca imaginou: quem vai cuidar dessa terra quando ele não puder mais?
“Essa terra alimentou minha família por 130 anos”, diz ele, olhando para os campos que logo estarão prontos para o plantio. “Ela alimentou o país. Mas não sei se alimentará meus netos.”
A questão não é apenas quem herdará as fazendas americanas. É se haverá alguém para herdá-las e o que acontecerá com a segurança alimentar de uma nação quando a resposta for “não”.

