Após o deslizamento que matou 116 pessoas no lixão de Koshe, em Addis Abeba, Kidus Asfaw deixou carreira internacional em tecnologia para enfrentar o problema estrutural da gestão de resíduos urbanos na Etiópia.
Após o deslizamento que matou 116 pessoas no lixão de Koshe, em Addis Abeba, Kidus Asfaw deixou a carreira internacional em tecnologia para enfrentar o problema estrutural da gestão de resíduos urbanos e reciclagem de plástico na Etiópia. Em 11 de março de 2017, um sábado à noite, uma montanha de lixo desabou sobre um bairro inteiro em Addis Abeba. O deslizamento no lixão de Koshe, um depósito a céu aberto com 50 anos de uso, onde centenas de famílias moravam e 500 catadores trabalhavam todos os dias — matou 116 pessoas. A maioria era composta por mulheres e crianças. Casas de alvenaria e barracos foram soterrados juntos. O governo etíope decretou três dias de luto nacional.
Naquele momento, Kidus Asfaw trabalhava para a UNICEF em Uganda, a seis países de distância de onde havia nascido. Tinha passado os últimos anos desenhando soluções tecnológicas aplicadas a crises humanitárias — drones que entregavam vacinas em regiões remotas, modelos de dados que rastreavam o avanço do Ebola. Era exatamente o tipo de trabalho que parecia fazer sentido: tecnologia aplicada a problemas reais, em escala.

Mas o colapso de Koshe revelou algo que nenhum drone resolve: quando a gestão de resíduos urbanos falha, o lixo acumulado nas cidades atinge primeiro as populações mais vulneráveis.
-
Google transformou uma fábrica de papel fechada na Finlândia em data center usando túneis antigos, água do Golfo da Finlândia e uma estrutura feita para outra indústria
-
Governo Trump entrou na briga para defender a xAI de Elon Musk em processo sobre turbinas de data centers, emissões no ar, comunidades afetadas e segurança nacional nos Estados Unidos
-
SpaceX recebe grau de investimento pela primeira vez, vê Starlink virar motor de caixa e alcança avaliação superior a 2 trilhões de dólares
-
Mundo entra em alerta: Alemanha e Japão voltam a se rearmar 80 anos após a Segunda Guerra, com gastos militares recordes, orçamento japonês de US$ 58 bilhões, mísseis capazes de alcançar a China e nova cooperação em drones e armamentos.
“Cresci em Addis Abeba”, ele contaria mais tarde. “Viver fora me fez enxergar o que eu não via antes. O que significa ser pobre numa cidade? A que você está exposto? Como resolver ao menos um pedaço disso?” A resposta, ele encontrou no lixo.
Formação internacional: de Duke e Princeton à economia circular na África
Poucos empreendedores sociais têm um currículo tão improvável quanto o de Kidus. Nascido na capital etíope, saiu do país após o ensino médio com a intenção de se tornar engenheiro hidrelétrico. Formou-se em engenharia biomédica e elétrica pela Duke University, em 2008.
Depois, concluiu mestrado em Economia do Desenvolvimento e Relações Internacionais em Princeton, em 2014.
Entre Duke e Princeton, passou dois anos na Accenture como gerente de tecnologia. Após o mestrado, atuou como consultor de inovação no Banco Mundial. Em seguida, foi recrutado pela UNICEF, onde permaneceu por sete anos, primeiro como gerente global de produtos no Centro de Inovação em Uganda e depois como chefe de parcerias tecnológicas.
Ao longo da carreira, trabalhou em mais de 40 países e teve passagem pelo Google. Era o tipo de trajetória que abre portas em qualquer mercado global.
Por isso, quando decidiu largar tudo para voltar à Etiópia e montar uma fábrica de tijolos feitos com plástico reciclado, muitos demoraram a entender.
O projeto de tijolos plásticos que nasceu na UNICEF
Em 2018, durante uma conferência em Praga, Kidus recebeu um telefonema de Aboubacar Kampo, chefe da UNICEF na Costa do Marfim. Em Abidjan, a organização apoiava um projeto que transformava resíduo plástico em tijolos interlocking para construção de salas de aula em comunidades de baixa renda.
O material funcionava. O modelo era replicável. Mas precisava de estrutura para escalar. Kidus foi até lá. Ajudou a montar a fábrica, estruturou processos e garantiu apoio governamental para construir mais de 500 salas de aula com o material reciclado.
Foi ali que conheceu Penda Marre, que se tornaria sua cofundadora. Mas uma pergunta começou a incomodá-lo: por que esse tipo de solução não escala?
A resposta era simples e desconfortável: dependia de doações.
“Só uma empresa com fins lucrativos consegue levar isso aonde precisa chegar”, concluiu. “A questão não é o material. É o modelo de negócio.”
Kubik: reciclagem de plástico transformada em material de construção sustentável – tijolo de plástico
Em 2021, Kidus e Penda fundaram a Kubik, com sede no Quênia e operações industriais na Etiópia. A proposta: transformar plásticos de difícil reciclagem — polietileno, polipropileno e poliestireno — em materiais de construção mais baratos e mais rápidos de instalar que o cimento tradicional.
A Kubik não cria sua própria rede de coleta. Ela gera mercado para quem já coleta resíduos urbanos. Compra justamente os plásticos que recicladoras convencionais recusam por não terem valor comercial — os mesmos que normalmente terminam em lixões.

Na fábrica no Parque Industrial de Adama, nos arredores de Addis Abeba, o plástico é separado, lavado, convertido em pellets e extrudado em blocos, vigas, colunas e batentes interlocking.
A produção atual remove 45 toneladas de plástico por dia dos lixões da capital etíope.
O produto final:
- Custa pelo menos 40% menos por metro quadrado
- É duas a três vezes mais rápido de instalar
- Emite cinco vezes menos gases de efeito estufa
- Possui certificação da Intertek para resistência estrutural e segurança
Curiosamente, o argumento ambiental raramente é o principal fator de venda.
“O fato de ser feito de plástico reciclado é o último detalhe que menciono”, disse ele à African Arguments.
O que fecha negócio é preço, velocidade e resistência do nosso tijolo de plástico.
Rodadas de investimento e reconhecimento internacional
A Kubik nasceu num cenário difícil para manufatura pesada. Venture capital historicamente prefere software. Fábricas exigem capital intensivo antes de gerar receita.
Mesmo assim, em abril de 2023, a empresa venceu o Global Startup Award como Startup do Ano. Dois meses depois, captou US$ 3,34 milhões em rodada seed com Plug & Play, Bestseller Foundation, Satgana e Savannah Fund.
No mesmo período, Emmanuel Macron visitou pessoalmente a Kubik durante viagem à África. Em2023, a revista Time nomeou Kidus um dos 100 Líderes Climáticos Mais Influentes do mundo.
Em abril de 2024, a empresa captou mais US$ 5,2 milhões, tornando-se a primeira empresa etíope a levantar investimento multimilionário em soluções climáticas.
Déficit habitacional na Etiópia e o impacto da construção com tijolo de plástico
A Etiópia precisa de 381 mil novas moradias por ano. Produz apenas 165 mil. O déficit em Addis Abeba já ultrapassa 1,2 milhão de unidades. O cimento convencional representa até 40% do custo total de uma obra. Reduzir esse custo em 40% altera completamente a equação da acessibilidade habitacional.
A fábrica de Adama pode produzir material suficiente para erguer mais de 10 mil casas por ano, além de 250 mil metros quadrados de superfície de parede.
O plano estratégico da Kubik não é multiplicar fábricas próprias, mas licenciar a tecnologia para fabricantes locais. O mercado global de habitação acessível ultrapassa US$ 2,2 trilhões. E tudo começa com o plástico que ninguém quer.
O mesmo que, no lixão de Koshe, matou 116 pessoas numa noite de sábado e que agora, a 45 toneladas por dia, está sendo transformado em paredes que podem reduzir o déficit habitacional de uma das capitais que mais crescem na África.


-
-
2 pessoas reagiram a isso.