A corrida tecnológica entre Estados Unidos e China chegou aos laboratórios vivos, onde DNA, inteligência artificial e biomanufatura começam a influenciar defesa, indústria e segurança nacional em uma disputa ainda pouco visível ao público.
A disputa tecnológica entre Estados Unidos e China passou a incluir uma área menos exposta no debate público do que chips, drones e inteligência artificial: a biotecnologia.
Relatórios analisados por autoridades e especialistas nos Estados Unidos apontam que a capacidade de programar organismos vivos, produzir materiais por biomanufatura e combinar IA com dados biológicos se tornou um tema de segurança nacional.
A biotecnologia envolve o desenho e a engenharia de sistemas biológicos para criar produtos, processos e materiais.
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Na prática, esse campo abrange vacinas, terapias genéticas, sensores biológicos, químicos industriais, alimentos e soluções de manufatura baseadas em organismos vivos.
Segundo a comissão americana responsável por estudar o tema, a área deixou de ser tratada apenas como uma questão de saúde ou defesa biológica e passou a integrar discussões sobre economia, indústria e defesa.
O alerta mais direto partiu da National Security Commission on Emerging Biotechnology, comissão criada pelo Congresso americano para avaliar como tecnologias biológicas emergentes podem afetar a segurança dos Estados Unidos.
Em relatório final divulgado em abril de 2025, o grupo afirmou que a China avança rapidamente em áreas estratégicas e recomendou que Washington adote medidas nos próximos anos para preservar sua competitividade.
Biotecnologia entra na disputa militar entre EUA e China
A preocupação dos Estados Unidos não se limita a laboratórios farmacêuticos, patentes médicas ou pesquisa acadêmica.
O relatório da comissão afirma ter “todas as razões para acreditar” que o Partido Comunista Chinês poderá usar biotecnologia como ferramenta militar.
O documento também cita a estratégia chinesa de fusão militar-civil e diz que Pequim busca incorporar tecnologias biológicas e sistemas homem-máquina ao Exército de Libertação Popular até 2049, ano associado à meta chinesa de desenvolver uma força militar de padrão mundial.
Entre os trechos mais citados do documento está a comparação com o uso recente de drones em conflitos armados.
De acordo com a comissão, “a guerra de drones parecerá pitoresca” caso os Estados Unidos tenham de enfrentar soldados chineses geneticamente aprimorados e integrados a inteligência artificial.
A frase aparece como alerta estratégico no relatório e não como comprovação de que essa capacidade já exista em operação militar.
Mike Gallagher, pesquisador do Hudson Institute e chefe de defesa da Palantir Technologies, também relacionou o avanço chinês em biotecnologia a riscos de segurança.
Em debate promovido pelo instituto, ele citou coleta forçada de DNA, vigilância genética e discussões sobre aprimoramento de militares como exemplos de usos sensíveis atribuídos à China.
Gallagher afirmou ainda que “armas geneticamente ajustadas” já aparecem como tema em círculos militares chineses.
Da edição genética ao uso industrial da biologia
A mudança de escala ocorre em um momento de convergência entre biologia, automação, computação avançada e edição genética.
Ferramentas como CRISPR permitem modificar trechos específicos do DNA de organismos vivos, enquanto sistemas de inteligência artificial ajudam a analisar grandes volumes de dados e a identificar padrões úteis para pesquisa biológica.
Alexander Titus, integrante da comissão americana, disse que, em biotecnologia, “é mais fácil dizer o que não é possível do que o que é possível”.
Segundo ele, a área permaneceu por mais tempo fora do centro do debate público porque era associada principalmente à saúde e à biodefesa.
Com o avanço da engenharia biológica, no entanto, organismos vivos passaram a ser vistos também como plataformas de produção e desenvolvimento tecnológico.
Essa interpretação aparece em uma comparação recorrente entre pesquisadores: DNA como código.
Jason Kelly, cofundador e CEO da Ginkgo Bioworks e ex-presidente da comissão americana, afirma que cientistas desenvolvem ferramentas para alterar esse “código” e fazer células executarem novas funções.
Ainda assim, o próprio Kelly ressalta que sistemas vivos são menos previsíveis do que computadores convencionais, porque bactérias e outros organismos não foram projetados por humanos.
Biomanufatura e materiais produzidos com organismos vivos
Uma das aplicações militares em estudo nos Estados Unidos envolve a produção de superfícies endurecidas com ajuda de bactérias.
A Força Aérea americana e a DARPA, agência de pesquisa do Departamento de Defesa, vêm pesquisando formas de usar microrganismos para estabilizar solos e criar áreas de pouso em locais remotos ou de difícil acesso.
O processo usa biocimento.
Em vez de transportar grandes volumes de concreto, máquinas pesadas e equipes numerosas, a técnica aplica bactérias ao solo e adiciona compostos que estimulam a formação de uma superfície rígida.
Em 2019, a Força Aérea descreveu a iniciativa como uma tentativa de desenvolver pistas em áreas austeras.
Em testes ligados ao Projeto Medusa, a DARPA buscou transformar bactérias em material semelhante a pedra para uso em pistas, estradas e áreas de pouso.
A aplicação se relaciona a um problema recorrente em operações militares: cadeias de suprimento longas podem ser interrompidas em crises ou conflitos.
Por esse motivo, órgãos de defesa estudam formas de produzir materiais, medicamentos, combustíveis, alimentos ou revestimentos mais perto do local de uso.
O relatório da comissão cita sensores biológicos, camuflagem dinâmica, logística e biomanufatura de itens críticos como áreas que podem ser afetadas pela biotecnologia.
Dados biológicos ganham peso estratégico
A competição entre as duas potências não se restringe a laboratórios, equipamentos ou fábricas.
Dados biológicos passaram a ser tratados como ativo estratégico por especialistas e autoridades americanas.
O relatório recomenda que o Departamento de Energia dos Estados Unidos ajude a organizar bases de dados biológicos de alta qualidade para uso em modelos de inteligência artificial.
Outra proposta citada pela comissão envolve a coleta de informações biológicas em terras públicas americanas, por meio de um projeto de sequenciamento associado ao Departamento do Interior.
A justificativa é que a biodiversidade dos Estados Unidos pode gerar dados úteis para medicina, agricultura, materiais e indústria, desde que armazenados e acessados com regras claras.
A mesma valorização dos dados, porém, cria preocupações sobre segurança, espionagem e uso indevido.
O documento defende maior controle sobre o acesso a informações biológicas sensíveis e recomenda medidas para reduzir riscos de transferência de dados estratégicos a adversários dos Estados Unidos.
China reduz distância em biotecnologia
O Belfer Center for Science and International Affairs, da Universidade Harvard, avaliou capacidades nacionais em tecnologias críticas e emergentes, incluindo inteligência artificial, biotecnologia, semicondutores, espaço e computação quântica.
No índice publicado em junho de 2025, Estados Unidos e China aparecem com desempenho semelhante em biotecnologia, embora os americanos ainda mantenham vantagem geral.
Segundo o centro, entre as áreas analisadas, a biotecnologia é aquela em que a China tem a oportunidade mais imediata de ultrapassar os Estados Unidos.
A avaliação atribui a proximidade entre os dois países a diferenças de força: os americanos se destacam em segurança, engenharia genética, pesquisa de vacinas e tecnologia agrícola, enquanto a China avança com base em capital humano, produção farmacêutica e capacidade de manufatura.
Governo dos EUA tenta coordenar resposta
A principal recomendação da comissão americana é que o governo destine pelo menos US$ 15 bilhões em cinco anos para estimular investimento privado e fortalecer o setor nacional de biotecnologia.
O plano inclui coordenação federal, apoio à produção em escala, uso em defesa, formação de mão de obra, proteção de dados e cooperação com aliados.
Parte dessas recomendações já apareceu em propostas legislativas.
O National Biotechnology Initiative Act of 2025 foi apresentado em 9 de abril de 2025 na Câmara e no Senado, com o objetivo de criar uma abordagem coordenada de governo para biotecnologia.
Os textos H.R. 2756 e S. 1387 propõem autorizar uma iniciativa nacional e ampliar a coordenação federal sobre o tema.
No Congresso americano, o assunto também ganhou um grupo específico de articulação.
Em 26 de junho de 2025, as deputadas Chrissy Houlahan, democrata da Pensilvânia, e Stephanie Bice, republicana de Oklahoma, anunciaram a criação do BIOTech Caucus na Câmara dos Representantes.
O grupo afirma ter como objetivo ampliar o conhecimento sobre biotecnologia no Congresso e discutir políticas bipartidárias para manter a liderança americana no setor.
A biotecnologia reúne aplicações de uso civil e militar, o que torna mais complexa a definição de limites regulatórios.
As mesmas ferramentas que podem acelerar tratamentos, reduzir dependência industrial e produzir materiais também podem gerar riscos de vigilância genética, uso coercitivo de dados e novas formas de armamento, segundo relatórios e especialistas citados no debate americano.

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