Os Estados Unidos escavaram 8 quilômetros de túneis dentro de uma montanha vulcânica no deserto de Nevada para criar o depósito de lixo nuclear mais seguro do mundo — e depois abandonaram tudo por motivos políticos
Entre 1987 e 2008, o governo americano investiu o equivalente a US$ 15 bilhões (em valores atualizados) para construir o Yucca Mountain Nuclear Waste Repository — um complexo subterrâneo projetado para armazenar lixo nuclear por pelo menos 1 milhão de anos. Segundo o Departamento de Energia dos Estados Unidos, o projeto previa guardar 70 mil toneladas de combustível nuclear usado em túneis escavados a 300 metros de profundidade dentro de uma montanha no deserto de Nevada.
Contudo, apesar de duas décadas de obra e bilhões investidos, o depósito de lixo nuclear nunca recebeu um único barril de resíduo radioativo.
Em 2010, o presidente Barack Obama cortou o financiamento do projeto por pressão política do estado de Nevada — e desde então, 90 mil toneladas de lixo nuclear continuam espalhadas em 75 usinas desativadas pelo país.
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Por que o mundo precisa de um lugar para guardar lixo nuclear
Além disso, o lixo nuclear é um dos materiais mais perigosos já produzidos pela humanidade. Combustível usado em reatores nucleares permanece radioativo e letal por centenas de milhares de anos.
Na prática, isso significa que qualquer solução de armazenamento precisa funcionar por mais tempo do que toda a história da civilização humana.
Para entender a escala, as pirâmides do Egito existem há 4.500 anos. O lixo nuclear precisa de armazenamento seguro por pelo menos 200 mil anos — 44 vezes mais. Portanto, enterrar o material em rocha estável, seca e isolada parecia a solução mais segura.
De fato, Yucca Mountain atende a esses critérios. A montanha é composta por tufa vulcânica — uma rocha porosa formada por cinzas de erupções que ocorreram há milhões de anos.
A montanha fica a 130 quilômetros a noroeste de Las Vegas, em terreno federal adjacente ao antigo Nevada Test Site — onde os EUA testaram centenas de bombas nucleares durante a Guerra Fria.
Além do mais, a região é uma das mais secas dos Estados Unidos, com menos de 15 centímetros de chuva por ano. Consequentemente, o risco de infiltração de água — o maior inimigo do armazenamento de lixo nuclear — é mínimo.
A engenharia por trás dos túneis: 8 km escavados dentro da montanha

Segundo a Bechtel, que liderou a construção, os engenheiros escavaram um túnel principal de 8 quilômetros de extensão através da montanha, a 300 metros abaixo do topo.
Da mesma forma, câmaras laterais foram planejadas para receber os contêineres de lixo nuclear, cada um selado em cilindros de aço inoxidável projetados para resistir à corrosão por 10 mil anos.
Em comparação, a usina nuclear de Angra 3 no Brasil — que está em construção há quase 40 anos — custou R$ 26 bilhões e também nunca gerou um único watt de energia.
Nesse sentido, tanto Yucca Mountain quanto Angra 3 são exemplos de megaprojetos nucleares que consumiram bilhões sem entregar o que prometeram.
O túnel de exploração sozinho custou US$ 9 bilhões em valores da época — e serviu apenas para comprovar que o local era geologicamente adequado.
Sem Yucca, o lixo nuclear está espalhado em 75 locais pelo país

Igualmente preocupante é o que aconteceu depois que o projeto foi abandonado. Sem um repositório central, os Estados Unidos mantêm seu lixo nuclear em armazenamento temporário — espalhado em mais de 75 usinas nucleares desativadas ou ativas em 35 estados.
Cada usina guarda seu próprio lixo em piscinas de resfriamento temporárias que nunca deveriam ser permanentes.
Para ter uma ideia, são aproximadamente 90 mil toneladas de combustível nuclear usado guardadas em piscinas de resfriamento e contêineres de concreto ao ar livre.
Sobretudo em estados como Illinois, Carolina do Sul e Nova York, comunidades locais convivem com toneladas de material radioativo que deveria estar enterrado a 300 metros de profundidade no deserto.
Apesar disso, o GAO (Escritório de Prestação de Contas do governo americano) concluiu que o governo cancelou o projeto por razões políticas, não técnicas ou de segurança.
Por que Nevada disse não — e o que isso custou ao país
Segundo a Procuradoria Geral de Nevada, o estado se opôs ao projeto desde o início, citando riscos de atividade vulcânica, terremotos, infiltração de água e transporte de material radioativo pelas rodovias do estado.
No entanto, o senador Harry Reid, de Nevada — que se tornou líder da maioria no Senado — transformou a oposição em prioridade legislativa. Por sua vez, Obama cumpriu uma promessa de campanha e cortou o financiamento.
Em outras palavras, US$ 15 bilhões de investimento e 20 anos de engenharia desapareceram por causa de uma decisão que o próprio GAO classificou como política.
Ainda assim, defensores do cancelamento argumentam que nenhuma comunidade deveria ser forçada a aceitar lixo nuclear de todo o país.
O resultado é um impasse que dura mais de 15 anos: o lixo nuclear existe, precisa ir para algum lugar, mas nenhum estado quer recebê-lo.
O mundo inteiro enfrenta o mesmo problema — e quase ninguém resolveu

A questão transcende os Estados Unidos.
Em todo o planeta, apenas a Finlândia conseguiu avançar com um repositório permanente de lixo nuclear. O projeto Onkalo, escavado em rocha granítica a 430 metros de profundidade, deve começar a receber resíduos em 2025.
Em comparação, países como França, Suécia e Canadá ainda estão em fase de planejamento para seus depósitos. Dessa forma, os Estados Unidos não estão sozinhos no dilema.
Conforme relatório da CBS News, a fusão nuclear — que promete energia sem resíduos de longa duração — poderia tornar o problema obsoleto no futuro. No entanto, essa tecnologia ainda está a décadas de viabilidade comercial.
O mundo continuará produzindo lixo nuclear por muito tempo. Portanto, a pergunta permanece: se não em Yucca Mountain, onde?
Por fim, Yucca Mountain é um monumento ao paradoxo da energia nuclear: capaz de gerar eletricidade limpa por décadas, mas incapaz de resolver o que fazer com o lixo que sobra — um problema que vai durar mais do que qualquer governo, qualquer constituição e possivelmente qualquer idioma que falamos hoje — mesmo gastando US$ 15 bilhões tentando.

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