Pesquisa sugere que uma condição obstétrica associada à placenta e à pressão arterial elevada pode ter afetado a fertilidade dos neandertais, mas especialistas alertam para limites das evidências disponíveis
A misteriosa extinção dos neandertais, nossos parentes evolutivos mais próximos, continua a intrigar cientistas e o público há décadas. Agora, uma nova hipótese adiciona um elemento inesperado a esse debate: a possibilidade de que a pré-eclâmpsia, uma complicação grave da gravidez caracterizada por pressão arterial perigosamente elevada, tenha contribuído para o colapso reprodutivo dessa população humana extinta. A proposta, no entanto, divide opiniões e levanta questionamentos importantes sobre até onde a ciência pode ir ao reconstruir eventos ocorridos há dezenas de milhares de anos.
A informação foi divulgada por Live Science, com base em um artigo científico publicado em 30 de janeiro de 2026 no Journal of Reproductive Immunology. O estudo foi assinado por um grupo internacional de neonatologistas e obstetras, que defendem que distúrbios como pré-eclâmpsia e eclâmpsia nunca haviam sido seriamente considerados nas hipóteses sobre a biologia reprodutiva dos neandertais e seu eventual desaparecimento.
Como a pré-eclâmpsia pode afetar a sobrevivência de uma espécie

A pré-eclâmpsia é uma condição médica grave que envolve elevação perigosa da pressão arterial durante a gravidez ou no período pós-parto. Além disso, pode sobrecarregar órgãos vitais da gestante, como coração, rins e fígado. Atualmente, estima-se que a condição afete até 8% das gestações humanas, podendo evoluir para eclâmpsia, um quadro ainda mais severo que inclui convulsões e, em alguns casos, danos cerebrais.
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Do ponto de vista evolutivo, os pesquisadores destacam que a pré-eclâmpsia pode estar relacionada a uma característica singular da placenta humana. Em espécies com cérebros grandes, como os humanos modernos — e possivelmente os neandertais —, o feto apresenta demandas metabólicas excepcionais, especialmente durante o terceiro trimestre da gestação, quando o cérebro cresce de forma acelerada. Para suprir essas necessidades, ocorre uma implantação profunda da placenta no útero, garantindo maior transferência de nutrientes entre mãe e feto.
Entretanto, quando essa implantação é inadequada ou superficial, a placenta tenta compensar a deficiência aumentando a pressão arterial materna. Como resultado, surgem quadros de pré-eclâmpsia, restrição do crescimento fetal e maior risco de mortalidade materna e neonatal. Segundo os autores do estudo, esse mecanismo poderia ter sido particularmente prejudicial para populações neandertais pequenas e dispersas.
Hipótese evolutiva divide especialistas em paleoantropologia
Com base nesses argumentos, os pesquisadores sugerem que a pré-eclâmpsia pode ter representado uma pressão seletiva adicional e subestimada sobre os neandertais, contribuindo para sua extinção. Eles levantam a hipótese de que os neandertais talvez não possuíssem um mecanismo protetor materno contra a pré-eclâmpsia — um sistema que, segundo estudos anteriores dos próprios autores, pode ter evoluído nos humanos modernos.
Caso essa proteção realmente estivesse ausente, o impacto seria significativo: maior mortalidade materna, perdas reprodutivas frequentes e redução gradual da fertilidade, fatores que poderiam acelerar o declínio populacional ao longo do tempo. Ainda assim, os próprios autores reconhecem que essa ideia permanece altamente especulativa, já que nenhum mecanismo genético específico foi identificado até o momento.
Essa interpretação, no entanto, encontra resistência entre especialistas em arqueologia e genética neandertal. Patrick Eppenberger, co-líder do Grupo de Patofisiologia Evolutiva e Estudos de Múmias do Instituto de Medicina Evolutiva de Zurique, afirmou que o enquadramento de que “a pré-eclâmpsia condenou os neandertais” vai muito além das evidências disponíveis.
Embora Eppenberger concorde que a pré-eclâmpsia seja uma condição singularmente humana e ligada à evolução da placenta, ele ressalta que é extremamente difícil sustentar que a doença tenha sido mais frequente ou mais letal em neandertais do que em populações iniciais de Homo sapiens. Isso se torna ainda mais problemático quando se considera que os neandertais persistiram por mais de 300 mil anos em ambientes hostis e altamente variados.
Extinção dos neandertais segue sendo um quebra-cabeça complexo
Outros pesquisadores compartilham dessa cautela. April Nowell, arqueóloga do Paleolítico da Universidade de Victoria, no Canadá, destacou que a extinção dos neandertais é um tema que desperta fascínio justamente porque não existe uma causa única ou um “tiro de misericórdia” claramente identificável. Segundo ela, muitos cientistas buscam um fator decisivo, mas a realidade provavelmente envolve uma combinação de variáveis ambientais, demográficas, genéticas e culturais.
Nowell reconhece que, se os humanos modernos realmente desenvolveram um mecanismo capaz de mitigar os efeitos da pré-eclâmpsia, isso poderia ter dado uma vantagem reprodutiva importante. No entanto, ela lembra que há ampla evidência de troca genética entre neandertais, denisovanos e Homo sapiens. Portanto, é igualmente plausível que esses grupos tenham compartilhado mecanismos biológicos semelhantes para lidar com desafios reprodutivos.
Eppenberger acrescenta que o estudo funciona melhor como um experimento teórico da medicina evolutiva do que como uma explicação definitiva. Ele aponta que futuras pesquisas poderiam investigar genes relacionados à interação imunológica materno-fetal e à regulação do crescimento placentário e fetal. Ainda assim, mesmo com avanços genéticos, dificilmente será possível confirmar a presença de pré-eclâmpsia em neandertais da mesma forma que dados clínicos modernos permitem.
Os autores do estudo, intitulado Why reproduction has probably been very problematic in Neanderthals: The fabulous history of (pre)eclampsia, não responderam aos pedidos de comentário até o momento da publicação.
Fonte científica
Robillard, P.-Y., S. Saito & G. Dekker. (2026). Why reproduction has probably been very problematic in Neanderthals: The fabulous history of (pre)eclampsia. Journal of Reproductive Immunology, volume 174. DOI: 10.1016/j.jri.2026.104852.

