Nova técnica permite estimar densidade do solo e teor de carbono ao mesmo tempo, com menos coleta, menor custo e aplicação direta em larga escala
O estoque de carbono no solo passou a ser estimado de forma mais simples quando pesquisadores brasileiros desenvolveram um método que usa laser e inteligência artificial para medir, em uma única análise, a densidade do solo e a quantidade de carbono orgânico. A técnica foi criada recentemente em São Carlos, interior de São Paulo, utiliza espectroscopia a laser combinada com aprendizado de máquina e surgiu para resolver um problema antigo da ciência do solo: medições caras, lentas e difíceis de aplicar em grandes áreas, justamente onde o controle do carbono é mais necessário.
A novidade muda a forma como se calcula o estoque de carbono no solo porque elimina etapas complexas de coleta e laboratório. Isso abre espaço para medições mais rápidas em áreas agrícolas, florestais e ambientais, algo essencial para agricultura de precisão, monitoramento ambiental e programas de crédito de carbono.
Por que medir o estoque de carbono no solo é tão importante
O estoque de carbono no solo indica quanto carbono está armazenado abaixo da superfície da terra. Esse dado é fundamental para entender o papel do solo no combate às mudanças climáticas. Quanto mais carbono fica retido no solo, menor é a quantidade liberada para a atmosfera na forma de gases que intensificam o aquecimento global.
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Esse cálculo depende de dois fatores ao mesmo tempo. Um deles é a concentração de carbono orgânico. O outro é a densidade do solo, que mostra quanto material existe em determinado volume. O desafio é que a densidade do solo é difícil de medir com precisão, especialmente em campo, e qualquer erro compromete todo o cálculo do estoque de carbono no solo.
Como funciona o método que usa laser e inteligência artificial

A nova técnica combina uma ferramenta chamada espectroscopia de emissão por plasma induzido por laser, conhecida como LIBS, com modelos de inteligência artificial. O laser é disparado sobre a amostra de solo e gera um microplasma extremamente quente. Esse plasma emite uma luz própria, que funciona como uma impressão digital do material analisado.
Cada elemento químico presente no solo emite luz em comprimentos de onda específicos. Carbono, ferro, cálcio, silício e outros elementos aparecem nesse espectro. Esses sinais são analisados por algoritmos de aprendizado de máquina treinados para reconhecer padrões ligados à densidade do solo e à concentração de carbono.
O grande avanço é que tudo isso acontece em uma única leitura, sem a necessidade de amostras intactas ou processos demorados de secagem e pesagem.
Amostras deformadas e aplicação em larga escala
Um dos pontos mais relevantes do método é permitir o uso de amostras deformadas. Isso significa que o solo pode sofrer alterações durante a coleta sem comprometer o resultado final. Na prática, isso reduz drasticamente o tempo em campo e o custo das análises.
O modelo foi treinado com 880 amostras de solos brasileiros coletadas em áreas agrícolas, florestas nativas e experimentos de longa duração, com destaque para Cerrado e Mata Atlântica. As coletas chegaram a até 100 centímetros de profundidade, captando diferenças entre superfície e subsolo, algo essencial para estimar corretamente o estoque de carbono no solo.
A fonte principal deste avanço é a Embrapa Instrumentação, que desenvolveu a pesquisa com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo, a FAPESP, e publicou os resultados no European Journal of Soil Science. O método também teve pedido de patente depositado no Instituto Nacional da Propriedade Industrial INPI.
Por que o método tradicional limita o cálculo do carbono
Os métodos tradicionais exigem a abertura de trincheiras profundas, muitas vezes com uso de máquinas pesadas. Além disso, é necessário cravar anéis volumétricos no solo, retirar a amostra sem perdas, secar o material em estufa e pesar em balança analítica.
Esse processo é lento, caro e sujeito a erros, especialmente em solos arenosos ou muito secos. Isso torna inviável o monitoramento frequente e em grandes áreas, justamente onde o controle do estoque de carbono no solo seria mais estratégico.
Com a nova abordagem, o cálculo se torna mais acessível para produtores rurais, laboratórios de solos, pesquisadores e certificadoras de crédito de carbono, criando condições reais para ampliar o uso desses dados no dia a dia.
Impacto direto no crédito de carbono e na agricultura
Ao simplificar a medição do estoque de carbono no solo, a tecnologia pode acelerar projetos de sequestro de carbono, certificações ambientais e políticas públicas voltadas à sustentabilidade. Quanto mais rápido e confiável for o dado, maior é a segurança para investidores, produtores e governos.
Isso transforma o solo em uma ferramenta concreta de mitigação climática e não apenas em um conceito técnico restrito aos laboratórios.
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