Andy Campbell tem 82 anos, mora em Wyses Corner, na Nova Escócia, e dirige o mesmo Toyota Tercel 1985 como carro do dia a dia há mais de três décadas. O odômetro trava nos seis dígitos, não comporta o “1” do milhão, e ele guarda fotos para provar o que o painel não consegue mostrar.
Se Andy Campbell cruzar com você na estrada, você provavelmente não vai notar nada de especial. Um Toyota pequeno, quadrado, com cara de anos 80, numa época em que fitas cassete eram o estado da arte e câmera de ré era ficção científica. Mas se você chegar mais perto e olhar para o painel, vai precisar de um segundo para entender o que está vendo.
O odômetro marca 253.070 km. O número está correto, só que está faltando um algarismo na frente. Um “1”. Como em um milhão. O Toyota Tercel 1985 de Campbell já rodou 1.253.070 quilômetros e ainda está contando. O painel simplesmente não foi projetado para comportar sete dígitos. Campbell carrega consigo as fotos que tirou quando o marcador virou um milhão, porque sabe que sem prova ninguém acredita.
US$ 2.500, 125 mil quilômetros no relógio e uma decisão que durou 35 anos

Desde então, usou o carro como transporte diário. Na época em que ainda trabalhava, rodava pelo menos 120 quilômetros por dia entre sua casa em Wyses Corner e Halifax. Aposentado, continua usando o mesmo carro para fazer compras, visitar vizinhos e percorrer as províncias marítimas canadenses.
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O Toyota já cruzou a Nova Escócia, o Novo Brunswick e a Ilha do Príncipe Eduardo diversas vezes, e chegou a Newfoundland em algumas ocasiões. Nunca saiu do Atlântico canadense. Campbell não tem interesse em placa de antiguidade, que restringiria o uso do veículo para fins cotidianos. Esse Toyota não é relíquia. É o carro que ele usa para ir ao mercado.
A garagem que virou depósito de peças que a Toyota não fabrica mais

Campbell foi acumulando ao longo dos anos um estoque considerável de componentes, a maioria já indisponível nas concessionárias Toyota. No fundo da propriedade, três Toyota Tercel adicionais estão sobre blocos, servindo como fonte de peças sobressalentes.
No galpão, há motores de aquecimento, radiadores, ventiladores, blocos de motor completos e praticamente tudo que um Tercel pode precisar. Campbell diz que a maioria das peças está ali esperando uma emergência que espera nunca acontecer. Mas se acontecer, ele não vai precisar ir a lugar nenhum. “Parece lixo e para a maioria das pessoas provavelmente é”, diz ele. “Para mim, é ouro.”
Toda manutenção feita por ele mesmo, menos uma coisa
Com exceção do alinhamento da direção, Campbell faz toda a manutenção do carro por conta própria. Praticamente tudo no veículo já foi substituído ou reparado em algum momento ao longo de três décadas. A carroceria é provavelmente a única parte original que ainda está no carro, e mesmo ela já passou por reparos.
O segredo que ele revela para quem pergunta é direto: troca de óleo regular, lubrificação constante, anticorrosivo aplicado nos pontos certos e uma garagem aquecida para o inverno canadense. Campbell reconhece que o Tercel tem reputação de enferrujar facilmente, mas diz que o truque é preencher todas as frestas com graxa antes que a corrosão comece. Resultado: um carro de 40 anos que ainda funciona perfeitamente e está praticamente em condições de zero quilômetro por fora.
A foto tirada na beira da estrada quando o marcador virou um milhão
Campbell contou que parou o carro na beira da estrada quando o odômetro estava prestes a virar um milhão. Estava a caminho da Ilha do Príncipe Eduardo e ficou de olho nos números enquanto dirigia. Quando os noves começaram a aparecer em sequência, parou, pegou a câmera e fotografou antes que o marcador girasse.
A cautela fez sentido. Sem a foto, seria difícil convencer qualquer pessoa de que aquele Toyota pequeno e quadrado acumulou mais de um milhão de quilômetros sem parar. Campbell carrega as imagens consigo aonde quer que vá: o registro de cada série de noves e zeros antes da virada, a prova física do que o painel não consegue mais mostrar.
O carro reserva é outro Tercel do ano seguinte, da mesma cor
Quando perguntado se tem um veículo reserva para usar enquanto o Toyota está em manutenção, Campbell respondeu que sim e convidou a repórter da CBC para ver. O carro reserva é um Toyota Tercel 1986. Mesma cor. Mesmo modelo. Um ano mais novo. Campbell apresentou o veículo com a seriedade de quem está mostrando uma aquisição recente: “Quer ver meu carro novo? É o 86. Gostou?”
Campbell diz que não é fã de carros em geral. Não é fã da Toyota nem do modelo Tercel. É fã deste Tercel específico, porque é prático, bom na neve, fácil de manter e barato de operar. A frase que ele repete com satisfação resume a relação: “Todo mundo me ultrapassa na estrada, mas eu os ultrapasso no posto de gasolina.” Quanto a vender, a resposta é definitiva. “Pode ir a Halifax e escolher o melhor carro de lá, Cadillac, Lincoln, Rolls Royce, trazer aqui e eu não troco. Não quero.”
A meta dos dois milhões e a dúvida sobre o tempo
Campbell tem 82 anos e já superou 1,2 milhão de quilômetros. A próxima meta declarada é dois milhões. Ele acrescenta, com humor seco, que não sabe se vai viver o suficiente para chegar lá. O Toyota, pelo histórico dos últimos 35 anos, provavelmente chegaria sem dificuldade.
Campbell não é o único proprietário de Tercel de alto quilômetro na Nova Escócia. Jim George, de Kentville, também tem um Tercel 85, mas com apenas 534 mil quilômetros, um iniciante na comparação. Os dois conhecem ainda um terceiro proprietário na província com mais de um milhão de quilômetros no mesmo modelo. Parece que na Nova Escócia existe uma cultura não declarada de fazer o simples durar para sempre, e o Toyota Tercel se tornou o símbolo involuntário dessa filosofia.
A reportagem foi publicada pela CBC News em agosto de 2025, com texto e vídeo de Frances Willick.
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