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Esta ilha japonesa parece coisa de filme, cidade inteira abandonada, prédios caindo no mar, passado de mineração e guerra, trabalho forçado escondido por décadas, virou atração turística polêmica e até hoje causa briga diplomática pesada na Ásia

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Escrito por Bruno Teles Publicado em 13/01/2026 às 23:02
Assista o vídeoIlha japonesa Hashima, perto de Nagasaki, virou ruína turística ligada à Mitsubishi e à mineração de carvão; a candidatura e o selo da UNESCO ampliaram a polêmica histórica que ainda divide países asiáticos.
Ilha japonesa Hashima, perto de Nagasaki, virou ruína turística ligada à Mitsubishi e à mineração de carvão; a candidatura e o selo da UNESCO ampliaram a polêmica histórica que ainda divide países asiáticos.
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Na costa sul do Japão, a ilha japonesa Hashima, chamada Gunkanjima, guarda ruínas de uma cidade cercada por muro contra tufões. Comprada pela Mitsubishi no século XIX, atingiu 5.259 moradores em 1959, fechou em 1974 e reabriu ao turismo em 2009, com acusações de trabalho forçado, briga diplomática na Ásia.

A ilha japonesa Hashima fica perto da cidade de Nagasaki, no sul do Japão, e chama atenção até em imagens de satélite por parecer uma cidade inteira encalhada no mar. As ruas vazias e prédios abandonados podem ser vistos até por ferramentas como o Street View, reforçando a impressão de cenário de filme, mas com uma história real de industrialização, carvão e guerra.

O que hoje é ruína turística começou como peça estratégica de energia. A ilha foi comprada pela Mitsubishi após a descoberta de carvão no fundo do mar ainda no século XIX, cresceu com expansão artificial de terreno e virou símbolo da virada industrial japonesa, mas também ficou marcada por acusações de trabalho forçado e por uma disputa regional que atravessa décadas.

Hashima, perto de Nagasaki, e o carvão que empurrou a industrialização

Ilha japonesa Hashima, perto de Nagasaki, virou ruína turística ligada à Mitsubishi e à mineração de carvão; a candidatura e o selo da UNESCO ampliaram a polêmica histórica que ainda divide países asiáticos.

No fim do século XIX, o Japão passou por uma revolução industrial que exigiu energia em escala crescente.

Nesse contexto, carvão foi descoberto sob Hashima, e a Mitsubishi Corporation comprou a ilha inteira para extrair o recurso e abastecer uma frota de navios a vapor em expansão.

A escalada aparece nos próprios números da produção nacional: em 1874, o Japão extraiu 208.000 toneladas de carvão; em 1890, o total subiu para 3 milhões; e em 1919 alcançou 31 milhões de toneladas. Hashima entrou nesse ciclo como uma ilha construída para produzir, não para ser bonita.

A ilha ampliada no mar e o muro contra tufões

Ilha japonesa Hashima, perto de Nagasaki, virou ruína turística ligada à Mitsubishi e à mineração de carvão; a candidatura e o selo da UNESCO ampliaram a polêmica histórica que ainda divide países asiáticos.

Com a mina crescendo no início dos anos 1900, faltavam trabalhadores e espaço.

A Mitsubishi ampliou artificialmente a ilha usando a escória gerada pela mineração, criando novos terrenos e protegendo as áreas mais frágeis com um muro de concreto ao redor, projetado para segurar ondas violentas e tufões.

Para ganhar eficiência, o norte rochoso concentrou a moradia, enquanto áreas recuperadas viraram suporte da mineração.

Como não havia terra “sobrando” para agricultura, alimentos e água potável eram levados por via marítima do Japão continental, mantendo cada centímetro voltado à operação industrial.

A “Ilha do Encouraçado” e a vida comprimida em concreto

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À medida que Hashima cresceu, sua silhueta passou a lembrar um grande navio cinza. Daí o apelido Gunkanjima, “Ilha do Encouraçado”.

Com a mineração em alta, a ilha acumulou infraestrutura de cidade completa: escola, hospital, lojas, cinema e até um salão de pachinko para lazer dos trabalhadores.

O auge populacional veio em 1959, quando Hashima chegou a 5.259 pessoas em alojamentos extremamente apertados, tornando-se o lugar mais densamente povoado da história japonesa à época.

A ilha funcionava como um corpo compacto, com moradia, serviços e trabalho encaixados no limite físico do terreno.

Guerra, Nagasaki e o peso histórico do entorno

Na década de 1930, enquanto a ilha ganhava aparência de navio de guerra, o Japão se envolvia em conflitos que se ampliariam para a Segunda Guerra Mundial.

A demanda por carvão atingiu níveis recordes e Hashima chegou ao pico de produção em 1941, com 410.000 toneladas naquele ano.

Em 6 de agosto de 1945, Hiroshima foi alvo do primeiro bombardeio atômico. Três dias depois, a segunda bomba atingiu Nagasaki, muito perto de Hashima.

Após o bombardeio, trabalhadores da ilha foram transportados para ajudar na limpeza dos escombros, conectando Hashima diretamente a um dos marcos mais dramáticos da história mundial.

O fechamento em 1974 e a cidade fantasma que apodreceu no mar

O carvão é limitado, e na década de 1970 a mina começou a se esgotar, ao mesmo tempo em que o petróleo passou a substituir o carvão como combustível de referência.

A Mitsubishi anunciou em janeiro de 1974 o fechamento da mina e determinou que os moradores saíssem em três meses.

O último barco levou os habitantes restantes em abril de 1974.

A partir dali, a ilha ficou fechada por décadas, com entrada proibida, sem incentivo para manutenção das estruturas.

O que era comunidade virou cidade fantasma: concreto trincado, paredes corroídas e prédios abandonados se desfazendo lentamente diante do mar.

Reabertura em 2009, turismo e a tentativa de selo da UNESCO

Em 2009, o governo japonês mudou de rumo e reabriu Hashima para turismo, autorizando grupos oficiais a pisar na ilha.

Para isso, foi criada uma nova área de atracação e passarelas fortificadas, concentrando a visitação em um trecho controlado do local.

No mesmo movimento, o Japão apresentou a candidatura de Hashima para se tornar Patrimônio Mundial, buscando proteção legal e reconhecimento.

Foi aí que a ilha deixou de ser apenas ruína e passou a virar disputa diplomática em escala regional.

O ponto mais sensível: trabalho forçado e a disputa na Ásia

A resistência veio de Coreia do Sul, Coreia do Norte e China, que se opuseram à candidatura.

A contestação se baseia na história que, segundo sobreviventes e críticos, foi omitida por décadas: Hashima teria funcionado também como um sistema de confinamento, com coreanos recrutados à força e prisioneiros de guerra chineses usados como mão de obra.

Um sobrevivente citado, Suh Jung-woo, contou ter sido levado ainda com 14 anos, vendo o muro de concreto como “muro de prisão”.

Ele descreveu quartos com seis ou sete trabalhadores forçados, turnos de 12 horas dentro da mina, calor chegando a 37°C com alta umidade, espaço reduzido que obrigava a agachar e rastejar, além de acidentes frequentes e risco diário de deslizamentos de rochas.

O acordo de 2015, a reação posterior e o impasse em 2023

Após anos de debate, houve um avanço em 2015: o Japão chegou a um acordo com a Coreia do Sul que incluía o compromisso de exibir informações sobre a história do trabalho forçado para turistas.

Com esse apoio, Hashima foi oficialmente designada Patrimônio Mundial.

Pouco depois, o governo japonês recuou e divulgou uma declaração controversa dizendo que trabalhadores coreanos e chineses teriam sido “redigidos legalmente” para o trabalho, assim como homens japoneses foram recrutados para o serviço militar.

Somente em 2023, após forte reação negativa, surgiram pequenas medidas de contexto adicional, como uma exposição no Centro de Informações sobre Patrimônio Industrial do Japão com um QR code que leva a um vídeo da discussão da UNESCO de 2015, em inglês e sem legendas em japonês.

No fim, a ilha japonesa Hashima segue como ruína, atração e ferida aberta ao mesmo tempo.

Se você fosse turista, visitaria essa ilha japonesa mesmo sabendo que ela ainda provoca briga diplomática e disputa sobre memória histórica na Ásia?

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Bruno Teles

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