Escassez de trabalhadores pressiona produtividade da construção civil e acelera adoção de modelos industriais no Brasil, com empresas incorporando conceitos da indústria automotiva para padronizar obras, reduzir desperdícios e diminuir a dependência de mão de obra especializada em canteiros tradicionais.
A falta de trabalhadores qualificados voltou ao centro das preocupações da construção civil brasileira e já mobiliza entidades do setor em iniciativas de capacitação para tentar atender à demanda projetada para os próximos anos.
Nesse ambiente de pressão sobre produtividade, custo e prazo, empresas que dependem menos de processos artesanais ganham vantagem operacional.
Na Tenda, incorporadora voltada à habitação popular, a resposta foi consolidar um modelo produtivo inspirado no sistema Toyota, com a adaptação de princípios da indústria automotiva para o canteiro de obras.
-
Cidade dá salto impressionante, sai da 354ª posição e vira a 4ª mais rica do país, superando grandes capitais com PIB de R$ 134,1 bilhões
-
Alvo de intensa controvérsia, desde sua ampla divulgação, a eliminação da escala 6 x 1 – sob o argumento inconsistente de que ela implicaria ‘ganhos de produtividade’ e até ‘de renda’ à classe trabalhadora – não resiste ao mais elementar princípio econômico. Isso porque, sem ganhos de produtividade efetivos, haverá custo extra a ser suportado pelas empresas, ‘regiamente’ repassado ao consumidor final, sempre ele.
-
Empresa de Monte Mor começou vendendo sabonete em troca de cestas básicas, hoje fabrica 30 milhões de unidades por mês, desafia gigantes globais e fatura R$ 500 milhões enquanto tenta sair do produto de R$ 1 para cosméticos mais caros
-
Petrobras, bilhões em investimentos e milhares de empregos: o novo anúncio da Engeko chama atenção do mercado
A empresa afirma ter estruturado esse formato desde 2011, com foco em sequenciamento, padronização e modularidade, características comuns em linhas industriais.
Em vez de concentrar várias funções em equipes generalistas, a companhia passou a dividir a obra em macroetapas conduzidas por times dedicados, cada um responsável por uma atividade específica ao longo do empreendimento.
Com isso, a execução deixa de seguir a lógica mais artesanal da construção convencional e se aproxima de uma rotina industrial estruturada.
“O que fizemos foi separar o processo construtivo em macroetapas. Cada uma dessas etapas trabalha com times dedicados. Então, por exemplo, temos um time que faz apenas a estrutura do prédio com formas de alumínio. Depois, temos outro que instala a cerâmica, outro que cuida da parte hidráulica”, afirmou Luiz Mauricio de Garcia Paula, diretor financeiro e de relações com investidores da Tenda.
Esse arranjo permite que as equipes repitam a mesma tarefa em diferentes unidades, reduzindo a variabilidade da execução e aumentando a familiaridade com cada etapa.
O efeito prático, segundo a empresa, é uma combinação de maior produtividade, menos erros operacionais e redução de retrabalho ao longo das obras.
Padronização transforma rotina dos canteiros de obras
Outro eixo do modelo está nos kits pré-fabricados, descritos pela companhia como sistemas plug and play, que chegam prontos ao canteiro para instalação em medidas definidas para cada unidade.
É o caso de componentes elétricos e hidráulicos, que deixam de ser preparados integralmente no local da obra.
Num canteiro tradicional, parte relevante desse trabalho exige corte, ajuste, colagem e organização manual de peças, o que consome tempo e amplia a margem para desperdício de material.
No sistema padronizado, o operário instala componentes já dimensionados, encurtando etapas e reduzindo a necessidade de improviso durante a execução.
A mudança interfere diretamente no perfil da mão de obra exigida para a operação.
Embora a construção continue demandando treinamento e coordenação, o modelo tende a diminuir a dependência de profissionais altamente especializados em tarefas específicas que antes exigiam maior adaptação no próprio canteiro.
Redução do peso da mão de obra no custo da construção
A Tenda sustenta que a padronização traz reflexo direto para a estrutura de custos do negócio, ponto sensível em projetos voltados à baixa renda, onde os preços de venda são mais comprimidos.
De acordo com a companhia, o peso da mão de obra no custo de construção fica entre 5 e 10 pontos percentuais abaixo da média do setor.
“O nosso modelo construtivo sofre menos nesse cenário de escassez de mão de obra que estamos vendo no país. Isso faz com que o peso da mão de obra no nosso custo de construção seja de 5 a 10 pontos percentuais abaixo da média do setor”, disse o executivo.
Num segmento em que margem e escala costumam caminhar juntas, reduzir a exposição ao custo do trabalho pode significar maior capacidade de absorver pressões inflacionárias sem desorganizar o orçamento do empreendimento.
Ainda que o setor siga intensivo em mão de obra, modelos mais padronizados tendem a reduzir o peso relativo desse componente na estrutura de custos.
Quando o modelo produtivo não é seguido
A experiência da Alea, operação do grupo voltada à construção off-site, também serviu como teste dos limites desse sistema quando a execução foge ao padrão desenhado pela companhia.
Segundo a empresa, o uso de empreiteiros externos sem familiaridade com o processo reduziu a produtividade e elevou custos.
Nesse episódio, os custos de construção chegaram a ficar até 30% acima do previsto, de acordo com a própria Tenda.
O dado foi usado pela companhia como evidência de que a eficiência do modelo depende não apenas da tecnologia empregada, mas da aderência rigorosa aos procedimentos e à cadência operacional planejada.
O caso ajuda a explicar por que a industrialização na construção não se resume à adoção de peças prontas ou equipamentos modernos.
Sem treinamento, repetição e integração entre etapas, a padronização perde força e os ganhos de produtividade podem ser neutralizados por falhas de execução.
Industrialização da construção avança para dentro das fábricas
No braço industrializado do grupo, a lógica vai além da reorganização das equipes em campo.
A Alea foi criada para operar na construção off-site, em que parte relevante das unidades habitacionais é produzida em ambiente fabril e depois levada ao local apenas para montagem e acabamento.
Segundo informações institucionais da operação, a fábrica fica em Jaguariúna, no interior paulista, foi inaugurada em 2021 e tem capacidade para produzir até 10 mil casas por ano.
A unidade é apresentada pela empresa como uma das maiores e mais produtivas estruturas industriais da América Latina dedicadas à construção de moradias.
As casas da Alea são padronizadas e produzidas com tecnologia wood frame, modelo em que painéis e estruturas saem da fábrica para posterior montagem no empreendimento.
Ao concentrar etapas num ambiente controlado, a companhia busca reduzir a dependência de mão de obra pesada no canteiro e ampliar o controle sobre prazo, qualidade e escala.
Esse movimento dialoga com um problema mais amplo do setor, que tenta responder à escassez de profissionais com ganhos de produtividade, industrialização e reorganização do processo construtivo.

