Movimento no varejo reacende debate sobre jornada de trabalho, enquanto rede mineira testa novo modelo com dois dias de descanso e Senado discute proposta que pode alterar regras em todo o país.
O Grupo Supernosso anunciou nesta terça-feira (26) que vai adotar a escala 5×2 para colaboradores das áreas operacionais, em um projeto piloto que começa em março, com três unidades, e que pode ser ampliado para outras lojas ao longo de 2026.
A mudança ocorre enquanto avança no Senado uma proposta de emenda à Constituição que discute o descanso semanal e a redução gradual da jornada máxima, mas o texto ainda não concluiu a tramitação e não muda, por si só, as escalas em vigor no país.
No comunicado sobre o piloto, a rede afirma que a reorganização da semana de trabalho pretende reduzir o desgaste do dia a dia, citando a diminuição da “carga emocional e física” e o fato de o trabalhador precisar se deslocar ao serviço um dia a menos.
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Embora parte do debate público trate o tema como “fim da 6×1”, a iniciativa do Supernosso se apresenta, por enquanto, como um teste operacional, concentrado em unidades específicas, com avaliação interna antes de uma eventual expansão para toda a rede.
Escala 5×2 no Supernosso e manutenção das 44 horas semanais
Diferentemente de modelos que combinam menos dias trabalhados com corte de horas, o Supernosso diz que manterá a carga semanal de 44 horas prevista na legislação, alterando apenas a distribuição dessa jornada ao longo da semana.
Com dois dias de descanso, a escala exigirá uma rotina diária mais longa: a empresa informa que o expediente passará a ser de 8h48, em vez das 7h20 praticadas no formato 6×1 citado no anúncio sobre a experiência nas lojas.

A expectativa de expansão foi registrada pela própria companhia ao detalhar o cronograma do piloto e o objetivo de levar o arranjo a mais unidades, sem indicar, por ora, quais lojas serão as próximas a adotar o formato.
“A expectativa do grupo é ampliar o novo modelo de trabalho ainda este ano para as demais unidades”, afirmou o Grupo Supernosso ao apresentar o início do projeto e as metas internas para a reorganização da jornada.
PEC 148/2015 e o debate sobre o fim da escala 6×1
A discussão ganhou força no Congresso e avançou na Comissão de Constituição e Justiça do Senado, que aprovou, em 10 de dezembro de 2025, a PEC 148/2015, proposta que prevê dois dias de descanso remunerado e redução progressiva da jornada máxima.
Depois dessa etapa, o texto segue para votação no plenário do Senado em dois turnos e, se aprovado, precisará tramitar também na Câmara dos Deputados, antes de qualquer promulgação, o que mantém o tema em aberto no curto prazo.
Integrantes do governo federal têm defendido que mudanças para ampliar o descanso não devem significar perda salarial, e o debate público passou a incluir a promessa de manter a remuneração, mesmo em cenários de redução gradual do limite semanal.
Ainda assim, o conteúdo da proposta e seus prazos de transição permanecem no centro das negociações políticas, e o setor produtivo acompanha com atenção porque, dependendo do desenho final, podem ser exigidos ajustes em escalas e contratação.
Impacto econômico e possíveis efeitos no emprego formal
Enquanto redes testam alternativas e o Congresso discute mudanças estruturais, entidades e estudos técnicos têm sinalizado riscos ligados ao aumento de custos operacionais, especialmente em segmentos com grande presença de trabalho presencial e horários estendidos.
Uma nota técnica do Centro de Liderança Pública (CLP) estima que o eventual fim da 6×1, se aprovado nos termos analisados, pode resultar na eliminação de mais de 600 mil empregos formais, além de apontar queda de produtividade em setores específicos.
O mesmo diagnóstico associa o impacto maior a áreas como comércio, agro e construção, por serem atividades com rotinas que dependem de turnos, plantões e atendimento contínuo, o que pode exigir reorganização completa de equipes para manter o funcionamento.
Do outro lado, empresas que defendem testes com mais dias de descanso argumentam que a previsibilidade de folgas pode ajudar a reduzir faltas, rotatividade e desgaste, elementos que também pesam no custo real da operação, ainda que essa conta varie caso a caso.
Trabalho aos domingos e preferências dos funcionários no varejo
No varejo de supermercados, o tema do descanso costuma esbarrar no funcionamento aos fins de semana, quando a demanda aumenta e parte das redes mantém as portas abertas por estratégia comercial e por hábito de consumo.
Nesse contexto, o fundador dos Supermercados BH, Pedro Lourenço de Oliveira, já declarou ser contrário ao trabalho aos domingos, embora mantenha as lojas abertas, em uma postura que reflete a tensão entre preferência pessoal, operação e expectativa do cliente.
Segundo o relato do empresário, uma pesquisa interna apontou que 55% dos funcionários preferem trabalhar aos domingos, em parte porque o expediente costuma ser reduzido e pode garantir uma folga extra durante a semana para resolver pendências.
Ao anunciar o piloto do 5×2, o Supernosso coloca a discussão em termos de rotina e bem-estar, mas o resultado prático dependerá de como a escala será aplicada em cada função, dos intervalos, do transporte e da cobertura necessária para manter o atendimento.
Se redes conseguirem conciliar dois dias de descanso com qualidade no serviço, sem perda de eficiência e sem repassar custos, a experiência pode virar referência no setor, mas a adoção em larga escala tende a exigir ajustes finos e negociação permanente com equipes.
Com o Senado analisando a PEC e empresas iniciando projetos próprios, que tipo de escala você considera mais viável para o varejo alimentar funcionar bem e, ao mesmo tempo, preservar descanso e renda de quem trabalha nas lojas?

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