Campos naturais, savanas e áreas abertas sustentam bilhões de pessoas, armazenam carbono no solo e entram no centro do debate global contra a seca e a desertificação
A ONU acendeu um alerta no Dia Mundial de Combate à Desertificação e à Seca, celebrado em 17 de junho, ao chamar atenção para um grupo de ecossistemas frequentemente deixado em segundo plano: os campos naturais, savanas, áreas arbustivas e pastagens naturais. Essas paisagens abertas, conhecidas internacionalmente como rangelands, cobrem cerca de metade da superfície terrestre e sustentam diretamente a vida de bilhões de pessoas.
O problema é que até metade dessas áreas já está degradada ou sob risco de degradação, em um processo silencioso que ameaça alimentos, água, biodiversidade e modos de vida rurais. Embora a discussão ambiental costume se concentrar nas florestas, cientistas e organismos internacionais vêm reforçando que a perda de campos naturais pode trazer consequências igualmente graves.
Segundo a mensagem do secretário-geral da ONU, António Guterres, divulgada em 17 de junho de 2026, proteger o futuro exige proteger a terra. A fala foi feita em um contexto de preocupação crescente com áreas que armazenam carbono no solo, regulam ciclos de água e funcionam como base para atividades como pecuária, agricultura familiar e pastoreio tradicional.
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A campanha global deste ano tem como tema “Reconhecer, respeitar e restaurar”, com foco nas pastagens naturais e nos povos que dependem delas. A observação internacional foi realizada no Quênia, país onde sistemas pastoris têm forte peso econômico, social e cultural.
O alerta global sobre terras abertas que sustentam bilhões de pessoas
De acordo com a Convenção das Nações Unidas de Combate à Desertificação, os rangelands englobam savanas, campos naturais, áreas arbustivas, desertos, zonas úmidas e regiões de montanha usadas por animais selvagens ou rebanhos. São ecossistemas muito diferentes entre si, mas unidos por uma característica comum: dependem do equilíbrio entre solo, água, vegetação e manejo humano.
Essas áreas fornecem carne, leite, fibras, recursos naturais e serviços ambientais essenciais. Ao mesmo tempo, servem de habitat para inúmeras espécies e ajudam a manter carbono armazenado no solo, um ponto decisivo na discussão sobre mudanças climáticas.
O alerta da ONU é direto porque a degradação dessas paisagens não afeta apenas comunidades rurais. Quando o solo perde cobertura vegetal, fertilidade e capacidade de reter água, a consequência aparece também na inflação dos alimentos, no abastecimento hídrico e no aumento da vulnerabilidade a secas prolongadas.
Por que desertificação não significa apenas areia avançando
A imagem mais comum associada à desertificação é a de dunas engolindo plantações ou vilarejos. Na prática, o fenômeno é mais amplo e ocorre quando a terra perde sua capacidade produtiva em regiões áridas, semiáridas e subúmidas secas.
Esse processo pode ser provocado por mudanças climáticas, desmatamento, uso excessivo do solo, sobrepastoreio, irrigação mal planejada e exploração inadequada da vegetação nativa. O resultado é uma perda gradual de fertilidade, redução da infiltração de água e aumento da erosão.
O impacto costuma ser lento, o que torna o problema mais difícil de perceber. Uma área degradada pode continuar parecendo “verde” em certos períodos do ano, mas já não consegue sustentar a mesma biodiversidade, produtividade agrícola ou capacidade de armazenar água.
A desertificação também não significa que todo território afetado virará um deserto de areia. Em muitos casos, o que ocorre é a formação de solos empobrecidos, compactados e vulneráveis a secas, com menor produção de alimentos e maior dependência de ajuda externa ou migração rural.
Brasil entra no debate com Cerrado Pampa Caatinga e Pantanal sob pressão
No Brasil, a discussão sobre campos naturais e savanas passa diretamente por biomas como Cerrado, Pampa e Caatinga, além de áreas abertas associadas ao Pantanal. Esses ambientes são essenciais para a biodiversidade nacional, mas muitas vezes recebem menos atenção pública do que a Amazônia.
Segundo informações do Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima, o Plano de Ação Brasileiro de Combate à Desertificação e Mitigação dos Efeitos da Seca, divulgado em dezembro de 2025, prevê 38 objetivos estratégicos e 175 ações até 2045. A iniciativa mira áreas suscetíveis à desertificação e deve alcançar cerca de 39 milhões de pessoas em mais de 1,6 mil municípios.
A Caatinga aparece como um dos territórios mais sensíveis, por reunir clima semiárido, histórico de uso intensivo da vegetação e comunidades altamente dependentes dos recursos naturais locais. Em junho de 2026, o governo federal também anunciou o Programa Recaatingar, com meta de recuperar 10 milhões de hectares degradados até 2045.
O Cerrado, por sua vez, é uma savana tropical estratégica para a produção de água no país. Suas raízes profundas ajudam na infiltração da chuva e na manutenção de nascentes, mas a conversão acelerada de vegetação nativa para uso agropecuário tem pressionado solos, rios e espécies endêmicas.
No Pampa, os campos naturais sustentam uma paisagem única no Sul do país, com forte relação entre pecuária, biodiversidade e cultura regional. A substituição dessas áreas por lavouras, silvicultura e uso intensivo do solo preocupa especialistas porque reduz a diversidade de plantas nativas e altera a dinâmica hídrica.
A crise da água reforça o risco de ignorar paisagens abertas
O debate sobre campos naturais e savanas ganha força em um momento de alerta para a água no Brasil. De acordo com dados recentes do MapBiomas Água, a Amazônia recuperou parte da superfície hídrica em 2025 após dois anos de seca severa, mas o país ainda mostra uma tendência de redução ao longo das últimas quatro décadas.
O Pantanal, um dos biomas mais dependentes da alternância natural entre cheias e secas, ficou 56% abaixo da média histórica de superfície de água em 2025. Mesmo com aumento em relação a 2024, o dado mostra que a recuperação ainda está distante do padrão observado entre 1985 e 2025.
Essa mudança preocupa porque campos, savanas e áreas úmidas funcionam como estruturas naturais de regulação. Quando a vegetação é degradada, o solo retém menos água, os rios recebem mais sedimentos e os períodos secos tendem a provocar prejuízos mais intensos.
A perda de água não depende apenas da chuva. Ela também está ligada ao modo como a terra é ocupada, à preservação da vegetação nativa e à capacidade do solo de absorver e liberar água lentamente ao longo do ano.
Restaurar campos e savanas também virou discussão econômica
A restauração dessas paisagens não é apenas uma pauta ambiental. Segundo a UNCCD, investimentos em recuperação de rangelands podem gerar retorno de até US$ 35 para cada US$ 1 aplicado, considerando ganhos em produtividade, retenção de água, carbono no solo e redução de prejuízos causados pela degradação.
Na prática, restaurar não significa simplesmente “plantar árvores” em qualquer lugar. Em campos naturais e savanas, a recuperação precisa respeitar a vegetação típica desses ambientes, que muitas vezes depende de gramíneas nativas, arbustos, raízes profundas e manejo adequado do fogo e do pastoreio.
Esse ponto é importante porque transformar toda área aberta em floresta pode gerar erro ecológico. Em muitos casos, o que precisa ser protegido é justamente a paisagem aberta original, com sua biodiversidade própria e sua função no equilíbrio do clima e da água.
Povos tradicionais e pastores entram no centro da solução
A ONU também tenta dar visibilidade a povos indígenas, comunidades tradicionais, agricultores familiares e pastores que manejam essas paisagens há gerações. Em várias regiões do mundo, o conhecimento local ajuda a evitar a sobrecarga do solo e a manter a vegetação em condições de se regenerar.
Segundo a FAO, 2026 foi declarado Ano Internacional das Pastagens Naturais e dos Pastores para destacar a importância desses grupos na segurança alimentar, na conservação dos ecossistemas e na adaptação climática. A proposta é mostrar que o manejo tradicional, quando apoiado por políticas públicas e ciência, pode ser parte da solução.
O desafio é equilibrar produção e conservação sem transformar comunidades rurais em culpadas por um problema que também envolve mercado, políticas de uso da terra, expansão urbana, mudanças climáticas e modelos de produção pouco adaptados aos limites ambientais.
No Brasil, essa discussão se conecta diretamente ao semiárido, aos campos sulinos, ao Cerrado e a territórios onde a permanência das famílias depende de assistência técnica, segurança hídrica, crédito adequado e valorização da vegetação nativa.
O que muda quando essas áreas deixam de funcionar como proteção natural
Campos naturais e savanas saudáveis funcionam como amortecedores contra extremos climáticos. Eles ajudam a reter água, reduzem erosão, sustentam polinizadores, abrigam fauna silvestre e mantêm atividades econômicas ligadas ao campo.
Quando essas áreas se degradam, o efeito aparece em cadeia. A produtividade cai, os custos de produção aumentam, comunidades ficam mais vulneráveis à seca e governos passam a gastar mais com medidas emergenciais.
A degradação também afeta a biodiversidade. Muitas espécies dependem de paisagens abertas e não sobrevivem em áreas convertidas para monoculturas, pastagens mal manejadas ou solos expostos.
Por isso, o recado da ONU em 2026 é claro: olhar apenas para as florestas não basta. A proteção do clima, da água e da segurança alimentar também depende de reconhecer o valor de campos naturais e savanas que, apesar de discretos, sustentam parte essencial da vida no planeta.
A grande polêmica é que muitas dessas áreas ainda são tratadas como “vazios” prontos para virar lavoura, pasto intensivo ou empreendimento. Você acha que o Brasil protege pouco o Cerrado, o Pampa e a Caatinga em comparação com a Amazônia, ou a produção econômica deve continuar sendo prioridade nesses territórios? Deixe sua opinião nos comentários.

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