A Lilac Solutions concluiu testes de extração direta de lítio (DLE) no Great Salt Lake com 87% de recuperação e 99,97% de pureza em salmoura de apenas 70 ppm, e planeja inaugurar em 2027 primeira planta comercial de DLE dos EUA com 5 mil toneladas por ano, dobrando a produção americana.
Enquanto montadoras do mundo todo dependem de minas que evaporam milhões de litros de água por tonelada de lítio extraído em desertos como o Atacama chileno, a startup americana Lilac Solutions desenvolveu tecnologia de extração direta de lítio (DLE) que nos testes concluídos em agosto no Great Salt Lake, em Utah, recuperou 87% do lítio disponível com pureza de 99,97% usando contas cerâmicas proprietárias que atraem íons de lítio da água e que, segundo a empresa, consomem um décimo da água exigida pela tecnologia de sorvente de alumina que domina a indústria de DLE. A empresa planeja construir no mesmo local sua primeira planta comercial permanente de lítio, com previsão de início de produção na segunda metade de 2027, capacidade de 5 mil toneladas por ano que dobraria a produção anual dos Estados Unidos, e já garantiu cerca de dois terços do financiamento necessário para o projeto que pode se tornar a primeira instalação comercial de DLE da história. O CEO da Lilac, Raef Sully, afirmou que a empresa escolheu o Great Salt Lake justamente pela dificuldade: com apenas 70 partes por milhão de lítio na água, o sucesso ali demonstra que a tecnologia funciona em condições muito piores do que as encontradas nos principais depósitos de lítio do mundo.
A estratégia da Lilac se diferencia da maioria das concorrentes de lítio por um aspecto fundamental: a empresa não quer ser mineradora. Em vez de extrair e vender lítio, a Lilac pretende vender sua tecnologia de DLE para empresas que já atuam no setor, como Exxon Mobil, Chevron, Rio Tinto e Occidental Petroleum, que competem para desenvolver reservas de lítio em locais como a região de Smackover no Arkansas, onde o Serviço Geológico dos EUA identificou até 19 milhões de toneladas métricas de lítio inexplorado em águas subterrâneas. “Acreditamos que nossa tecnologia é a próxima geração. Se acabarmos trabalhando com uma Exxon, uma Chevron ou uma Rio Tinto, queremos ser o provedor de tecnologia de DLE no projeto de lítio deles”, declarou Sully, posicionamento que Kwasi Ampofo, chefe de minerais e metais na BloombergNEF, considera incomum e potencialmente mais inteligente do que a integração vertical que a maioria das empresas de lítio persegue.
Como funciona a extração direta de lítio e por que consome menos água

A extração direta de lítio elimina as duas etapas mais problemáticas dos métodos tradicionais: a mineração de rocha dura (usada na Austrália, maior produtora mundial) e a evaporação em lagoas (usada no Chile, segunda maior fonte). No método de evaporação tradicional usado no Deserto do Atacama, água rica em lítio é bombeada para lagoas enormes e deixada secar por meses ao sol, processo que consome milhões de litros de água por tonelada de lítio produzido e que ocupa vastas áreas de terreno em um dos desertos mais secos do planeta, enquanto a DLE filtra o lítio da salmoura por processos químicos ou físicos e devolve a água ao ambiente em questão de horas. A tecnologia da Lilac usa contas cerâmicas patenteadas fabricadas na planta da empresa em Nevada, com cadeia de suprimentos inteiramente americana, que atraem seletivamente íons de lítio da água. Uma vez saturadas, as contas passam por lavagem ácida para separar o lítio, que é então processado em carbonato de lítio de grau bateria.
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O processo que a Lilac desenvolveu resolve dois problemas simultâneos: reduz o consumo de água e funciona em salmouras com baixa concentração de lítio. Enquanto o Salton Sea na Califórnia tem cerca de 200 partes por milhão de lítio e depósitos na Argentina superam 700 ppm, o Great Salt Lake onde a Lilac testou sua tecnologia tem apenas 70 ppm, concentração tão baixa que Sully compara a “três pessoas em um estádio de 45 mil lugares”, e mesmo assim o equipamento recuperou 87% do lítio disponível com pureza de 99,97%, números que Milo McBride, pesquisador do Carnegie Endowment for International Peace, classifica como demonstração convincente da versatilidade da tecnologia. A capacidade de extrair lítio de fontes diluídas abre possibilidades que os métodos tradicionais não alcançam e que podem expandir significativamente a base de recursos de lítio explorável no mundo.
Por que os Estados Unidos precisam de lítio doméstico e o que a China tem a ver com isso
A corrida pela extração de lítio nos EUA é inseparável da disputa geopolítica com a China pelo controle da cadeia de baterias. A China processa mais de dois terços de todo o lítio extraído no mundo e está desenvolvendo suas próprias tecnologias de DLE para ampliar a produção doméstica, posição que dá ao país controle sobre insumo essencial para veículos elétricos e armazenamento de energia que os Estados Unidos consideram questão de segurança nacional. As 5 mil toneladas anuais que a planta da Lilac em Utah produziria dobrariam a oferta americana de lítio, mas uma planta em escala total usando a mesma tecnologia renderia entre três e cinco vezes esse volume, salto que começaria a reduzir a dependência dos EUA em relação ao processamento chinês.
O maior projeto de lítio proposto nos Estados Unidos, a controversa mina de rocha dura Thacker Pass em Nevada, enfrenta incertezas que reforçam a importância de alternativas como a DLE. Ambientalistas, fazendeiros e tribos nativas norte-americanas se opõem ao projeto Thacker Pass argumentando que a mineração destruiria reservatórios subterrâneos de água doce, e o governo Trump renegociou em outubro de 2025 um empréstimo federal de mais de US$ 2 bilhões para garantir participação acionária de 5% na operação, cenário de instabilidade que torna a DLE da Lilac atraente por prometer produção de lítio com impacto ambiental e político muito menor. Gigantes de energia como Exxon Mobil, Chevron e Occidental Petroleum já competem para desenvolver reservas de lítio na região de Smackover no Arkansas, e a Lilac pretende ser a fornecedora de tecnologia DLE preferencial desses projetos.
Quais obstáculos a Lilac enfrenta para transformar teste em operação comercial de lítio

A distância entre resultados de teste e produção comercial de lítio em escala é o desafio que determinará o futuro da Lilac e da indústria de DLE como um todo. Reguladores de Utah estão restringindo empresas que bombeiam água do Great Salt Lake, que continua encolhendo por causa das secas, embora a Lilac afirme estar protegida das restrições por devolver a água ao lago após a extração do lítio. Ashley Zumwalt-Forbes, engenheira de mineração que atuou como vice-diretora de minerais para baterias no Departamento de Energia dos EUA, reconhece que “o Great Salt Lake provavelmente é o pior lugar possível para fazer isso por causa dos desafios reais relacionados a retirar água do lago”, mas concorda que “se está sendo usado apenas como teste para a tecnologia, faz sentido”.
A planta comercial que a Lilac construirá no local de testes em Utah será erguida sob sociedade de responsabilidade limitada separada, estrutura que facilita eventual venda caso a operação seja bem-sucedida. A empresa já garantiu dois terços do financiamento necessário e precisa completar o restante antes de iniciar a construção que visa produção comercial de lítio na segunda metade de 2027, cronograma que se cumprido faria da instalação a primeira nova fonte comercial de lítio nos EUA em anos e a primeira planta de DLE da história a operar em escala comercial. O modelo de negócio da Lilac como vendedora de tecnologia, não produtora de lítio, é aposta de que o mercado de DLE crescerá a ponto de justificar empresa dedicada exclusivamente a fornecer hardware para mineradoras, caminho que a BloombergNEF considera promissor mas que ainda precisa provar viabilidade financeira numa indústria onde a integração vertical é a norma.
O que o sucesso da DLE significaria para o mercado global de lítio e baterias
Se a extração direta de lítio escalar conforme as projeções, o impacto no mercado global do metal pode ser estrutural. A DLE promete abrir fontes de lítio que os métodos tradicionais não conseguem explorar economicamente, desde salmouras diluídas como o Great Salt Lake até águas subterrâneas como as de Smackover no Arkansas, expansão da base de recursos que poderia reduzir a concentração geográfica da produção e diminuir o poder de mercado que Chile, Austrália e China exercem atualmente sobre a cadeia do lítio. A demanda pelo metal continua crescendo à medida que veículos elétricos ganham participação de mercado e baterias cada vez maiores passam a ser usadas para dar suporte a redes de energia renovável, contexto que torna qualquer tecnologia capaz de aumentar a oferta com menos impacto ambiental relevante para fabricantes de automóveis, governos e investidores.
Para o setor de energia, a convergência entre empresas de petróleo e a indústria de lítio é tendência que a DLE acelera. Exxon Mobil, Chevron e Occidental Petroleum já possuem experiência em perfuração, gestão de fluidos subterrâneos e operação em ambientes remotos, competências que se transferem diretamente para a extração de lítio de salmouras, e a tecnologia da Lilac foi desenhada para ser o equipamento que essas empresas instalariam em seus projetos de lítio da mesma forma que compram turbinas ou equipamentos de perfuração de fornecedores especializados. O lítio que essas plantas produziriam alimentaria fábricas de baterias e montadoras que hoje dependem de cadeias de suprimento que passam pela China, fechando ciclo que começa na salmoura americana e termina no veículo elétrico estacionado na garagem do consumidor.
E você, acha que a extração direta pode mudar o jogo do lítio e das baterias? Deixe sua opinião nos comentários.


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