O investimento de R$ 5,5 milhões em um portal interativo em Barra Grande, no litoral do Piauí, abriu debate sobre prioridades do gasto público em uma região onde município próximo registra apenas 0,3% de cobertura de esgoto e cerca de 17,5 mil moradores sem água encanada
A inauguração de um portal tecnológico interativo em Barra Grande, no litoral do Piauí, colocou em evidência uma escolha de prioridades que vem provocando questionamentos da população.
Com investimento total de R$ 5,5 milhões, o equipamento foi apresentado pelo governo estadual como ferramenta para ampliar a visibilidade internacional do destino, atrair turistas e gerar novas oportunidades econômicas.
O problema é que a aposta em um símbolo de projeção global acontece ao lado de uma realidade marcada por falta de água encanada, ausência quase total de rede de esgoto e deficiências graves na coleta de lixo em municípios próximos, como Luís Correia.
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Um litoral vendido ao mundo, mas sem o básico para todos
Os dados de saneamento mostram um cenário de precariedade estrutural difícil de conciliar com a imagem de modernidade que o governo tenta projetar para a região.
Em Luís Correia, apenas 43,4% da população tem acesso aos serviços públicos de abastecimento de água. Isso significa que mais da metade dos moradores vive sem acesso regular à rede. Em números absolutos, cerca de 17,5 mil pessoas não têm água encanada em casa.
Mesmo entre os que contam com algum tipo de acesso, a cobertura não é uniforme. Somente 51,1% da população recebe água por rede geral de distribuição.
O restante depende de soluções alternativas, como poços ou outras formas consideradas precárias de abastecimento. Em qualquer debate sério sobre qualidade de vida e desenvolvimento regional, esse tipo de dado deveria ocupar o centro das decisões.
Esgoto quase inexistente revela dimensão do atraso
Se o abastecimento de água já mostra um quadro preocupante, o esgotamento sanitário expõe uma situação ainda mais crítica.
Apenas 0,3% da população de Luís Correia tem acesso à rede de esgoto. Na prática, isso significa que só 88 habitantes contam com serviço regular, enquanto cerca de 30,8 mil pessoas vivem sem coleta adequada.
A maior parte dos domicílios utiliza fossas rudimentares ou buracos, realidade que atinge mais de 65% da população.
Além disso, milhares de moradores sequer possuem banheiro ou sanitário. O retrato é de um município que permanece muito abaixo das médias estadual e nacional, quase fora do mapa do saneamento. Enquanto o Piauí tem cerca de 36% de cobertura de esgoto e o Brasil chega a quase 60%, Luís Correia praticamente inexiste nesse indicador.
Esse dado, por si só, já seria suficiente para cobrar cautela e rigor na definição de prioridades orçamentárias. Afinal, quando a cobertura de esgoto é quase nula, não se trata de uma carência secundária. Trata-se de uma falha elementar do poder público em garantir condições mínimas de saúde e dignidade.
Coleta de lixo incompleta amplia a sensação de abandono
O cenário dos resíduos sólidos também ajuda a compreender o tamanho do problema. Embora 54% da população tenha o lixo coletado, uma parcela significativa ainda recorre a práticas inadequadas, como a queima de resíduos.
Essa realidade atinge 12.524 pessoas. Há ainda casos de descarte por enterramento ou outras formas irregulares, enquanto o município não declara a existência de coleta seletiva.
Isso revela mais do que uma deficiência operacional. Mostra ausência de planejamento mais avançado e reforça a distância entre o discurso de desenvolvimento e a vida real da população. Em uma região onde parte dos moradores ainda precisa improvisar até o destino do lixo doméstico, ver milhões de reais direcionados a um equipamento de forte apelo visual gera uma reação previsível.
O portal de R$ 5,5 milhões e a lógica da vitrine
Foi nesse contexto que o governo do Piauí inaugurou, em Barra Grande, o primeiro portal tecnológico e interativo da América Latina, conforme divulgado oficialmente.
O equipamento integra o projeto internacional Portals – Bridge to a United Planet, que conecta cidades por meio de grandes estruturas circulares com transmissão ao vivo. O portal instalado no litoral piauiense já está ligado a Vilnius, Lublin, Dublin, Filadélfia e Ipswich.
O investimento total chega a R$ 5,5 milhões. Desse valor, R$ 3.791.291,73 foram aplicados na construção do Parque Reserva do Portal, por meio da Secretaria de Turismo. Outros R$ 1.830.400,00 foram destinados à aquisição do equipamento tecnológico, contratada pela Investe Piauí junto a uma empresa estrangeira.
A crítica mais evidente não está no fato de o estado investir em turismo ou tentar criar novos atrativos. O ponto sensível é outro: quando faltam respostas para necessidades elementares, um gasto dessa magnitude em uma obra de visibilidade internacional passa a parecer menos uma estratégia equilibrada e mais uma tentativa de produzir imagem, repercussão e marketing institucional.

Governo aposta em retorno econômico e promoção internacional
O governador Rafael Fonteles afirmou que o portal deve impulsionar o turismo no litoral ao promover internacionalmente os destinos de Cajueiro da Praia e Barra Grande. A avaliação do governo é que a inovação ajudará a divulgar o litoral piauiense, potencializando oportunidades de trabalho, emprego e renda.
O secretário de Turismo, Daniel Oliveira, disse que o turismo no Piauí cresce em média 20% ao ano e afirmou que o novo atrativo pode elevar o tempo de permanência dos visitantes na Rota das Emoções. Segundo os estudos mencionados pelo gestor, a expectativa é de aumento de 10% a 15% no fluxo turístico do litoral, com impacto econômico entre R$ 20 milhões e R$ 40 milhões nos próximos três anos.
Já o presidente da Investe Piauí, Victor Hugo Almeida, declarou que o projeto surgiu após uma missão internacional do governador em 2023 e foi visto como oportunidade para reposicionar o litoral do Piauí no cenário global, com potencial de promoção turística, cultural e educacional, além de reforçar atividades como o kitesurf.
Esses argumentos mostram a lógica do governo: apostar em um símbolo moderno, chamativo e internacionalizado para fortalecer a imagem da região. O problema é que imagem não substitui estrutura, e promoção não resolve deficiência básica.
A banalidade do símbolo diante da gravidade da carência
É nesse ponto que a discussão sobre dinheiro público se torna inevitável. Um portal interativo pode chamar atenção, render fotos, vídeos e curiosidade de visitantes.
Pode até servir como atração complementar em uma área turística. Mas, diante de um território onde milhares ainda convivem com ausência de água tratada, esgoto e manejo adequado de resíduos, a iniciativa ganha contornos de banalidade administrativa.
O Estado escolheu investir milhões em um objeto de forte impacto visual enquanto parte da população segue sem acesso pleno ao que deveria ser elementar.
A decisão pode até ser defendida no campo da promoção turística, mas ela cobra um preço político alto: a exposição de uma prioridade invertida. O governo busca conectar o Piauí a cidades da Europa e dos Estados Unidos, mas ainda não conseguiu conectar plenamente parte da sua população ao básico.
Discurso de desenvolvimento esbarra na realidade local
O material oficial afirma que o portal integra uma série de ações do governo para impulsionar o turismo piauiense, incluindo melhorias em infraestrutura básica, abastecimento de água, saneamento, urbanização e novos atrativos em Cajueiro da Praia e na Praça Central de Barra Grande.
Ainda assim, os indicadores apresentados para a região mostram que, se essas melhorias estão em curso, elas ainda não alteraram de forma decisiva a realidade mais dura. E é justamente isso que torna a obra tão simbólica. Não por representar um avanço estrutural, mas por expor com clareza a distância entre aquilo que aparece e aquilo que falta.
No fim, a questão central não é ser contra turismo, inovação ou divulgação internacional. A questão é saber se faz sentido transformar um portal interativo em prioridade política e financeira quando o entorno ainda convive com carências tão graves.
Em um cenário assim, o portal deixa de ser apenas um atrativo moderno. Ele se torna o retrato de uma gestão que decidiu investir primeiro no que impressiona, e não no que resolve.

Quero ver se esse portal vai resolver problemas na saúde e na educação. Obra inútil para um estado tão necessitado. Seria muito mais digno investir um dinheiro desse no que realmente o povo precisa.
Só pode ser do partido das **** pra fazer uma obra dessa, enquanto os piauienses na pobreza, mas o povo tem o politico que merece
Pior que o PT já tem 24 anos que governa essa **** de “estado”