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3 comentários 6 min de leitura

Enquanto milhares seguem sem água e esgoto no litoral do Piauí, governo inaugura portal internacional de R$ 5,5 milhões em Barra Grande e aposta em visibilidade global

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Escrito por Fabio Lucas Carvalho Publicado em 31/03/2026 às 13:23 Atualizado em 31/03/2026 às 22:55
Portal de R$ 5,5 milhões em Barra Grande contrasta com falta de água, esgoto e coleta de lixo no litoral do Piauí.
Portal de R$ 5,5 milhões em Barra Grande contrasta com falta de água, esgoto e coleta de lixo no litoral do Piauí.
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O investimento de R$ 5,5 milhões em um portal interativo em Barra Grande, no litoral do Piauí, abriu debate sobre prioridades do gasto público em uma região onde município próximo registra apenas 0,3% de cobertura de esgoto e cerca de 17,5 mil moradores sem água encanada

A inauguração de um portal tecnológico interativo em Barra Grande, no litoral do Piauí, colocou em evidência uma escolha de prioridades que vem provocando questionamentos da população.

Com investimento total de R$ 5,5 milhões, o equipamento foi apresentado pelo governo estadual como ferramenta para ampliar a visibilidade internacional do destino, atrair turistas e gerar novas oportunidades econômicas.

O problema é que a aposta em um símbolo de projeção global acontece ao lado de uma realidade marcada por falta de água encanada, ausência quase total de rede de esgoto e deficiências graves na coleta de lixo em municípios próximos, como Luís Correia.

 Foto: Governo do Piauí/Divulgação

Um litoral vendido ao mundo, mas sem o básico para todos

Os dados de saneamento mostram um cenário de precariedade estrutural difícil de conciliar com a imagem de modernidade que o governo tenta projetar para a região.

Em Luís Correia, apenas 43,4% da população tem acesso aos serviços públicos de abastecimento de água. Isso significa que mais da metade dos moradores vive sem acesso regular à rede. Em números absolutos, cerca de 17,5 mil pessoas não têm água encanada em casa.

Mesmo entre os que contam com algum tipo de acesso, a cobertura não é uniforme. Somente 51,1% da população recebe água por rede geral de distribuição.

O restante depende de soluções alternativas, como poços ou outras formas consideradas precárias de abastecimento. Em qualquer debate sério sobre qualidade de vida e desenvolvimento regional, esse tipo de dado deveria ocupar o centro das decisões.

Esgoto quase inexistente revela dimensão do atraso

Se o abastecimento de água já mostra um quadro preocupante, o esgotamento sanitário expõe uma situação ainda mais crítica.

Apenas 0,3% da população de Luís Correia tem acesso à rede de esgoto. Na prática, isso significa que só 88 habitantes contam com serviço regular, enquanto cerca de 30,8 mil pessoas vivem sem coleta adequada.

A maior parte dos domicílios utiliza fossas rudimentares ou buracos, realidade que atinge mais de 65% da população.

Além disso, milhares de moradores sequer possuem banheiro ou sanitário. O retrato é de um município que permanece muito abaixo das médias estadual e nacional, quase fora do mapa do saneamento. Enquanto o Piauí tem cerca de 36% de cobertura de esgoto e o Brasil chega a quase 60%, Luís Correia praticamente inexiste nesse indicador.

Esse dado, por si só, já seria suficiente para cobrar cautela e rigor na definição de prioridades orçamentárias. Afinal, quando a cobertura de esgoto é quase nula, não se trata de uma carência secundária. Trata-se de uma falha elementar do poder público em garantir condições mínimas de saúde e dignidade.

Coleta de lixo incompleta amplia a sensação de abandono

O cenário dos resíduos sólidos também ajuda a compreender o tamanho do problema. Embora 54% da população tenha o lixo coletado, uma parcela significativa ainda recorre a práticas inadequadas, como a queima de resíduos.

Essa realidade atinge 12.524 pessoas. Há ainda casos de descarte por enterramento ou outras formas irregulares, enquanto o município não declara a existência de coleta seletiva.

Isso revela mais do que uma deficiência operacional. Mostra ausência de planejamento mais avançado e reforça a distância entre o discurso de desenvolvimento e a vida real da população. Em uma região onde parte dos moradores ainda precisa improvisar até o destino do lixo doméstico, ver milhões de reais direcionados a um equipamento de forte apelo visual gera uma reação previsível.

O portal de R$ 5,5 milhões e a lógica da vitrine

Foi nesse contexto que o governo do Piauí inaugurou, em Barra Grande, o primeiro portal tecnológico e interativo da América Latina, conforme divulgado oficialmente.

O equipamento integra o projeto internacional Portals – Bridge to a United Planet, que conecta cidades por meio de grandes estruturas circulares com transmissão ao vivo. O portal instalado no litoral piauiense já está ligado a Vilnius, Lublin, Dublin, Filadélfia e Ipswich.

O investimento total chega a R$ 5,5 milhões. Desse valor, R$ 3.791.291,73 foram aplicados na construção do Parque Reserva do Portal, por meio da Secretaria de Turismo. Outros R$ 1.830.400,00 foram destinados à aquisição do equipamento tecnológico, contratada pela Investe Piauí junto a uma empresa estrangeira.

A crítica mais evidente não está no fato de o estado investir em turismo ou tentar criar novos atrativos. O ponto sensível é outro: quando faltam respostas para necessidades elementares, um gasto dessa magnitude em uma obra de visibilidade internacional passa a parecer menos uma estratégia equilibrada e mais uma tentativa de produzir imagem, repercussão e marketing institucional.

Governo aposta em retorno econômico e promoção internacional

O governador Rafael Fonteles afirmou que o portal deve impulsionar o turismo no litoral ao promover internacionalmente os destinos de Cajueiro da Praia e Barra Grande. A avaliação do governo é que a inovação ajudará a divulgar o litoral piauiense, potencializando oportunidades de trabalho, emprego e renda.

O secretário de Turismo, Daniel Oliveira, disse que o turismo no Piauí cresce em média 20% ao ano e afirmou que o novo atrativo pode elevar o tempo de permanência dos visitantes na Rota das Emoções. Segundo os estudos mencionados pelo gestor, a expectativa é de aumento de 10% a 15% no fluxo turístico do litoral, com impacto econômico entre R$ 20 milhões e R$ 40 milhões nos próximos três anos.

Já o presidente da Investe Piauí, Victor Hugo Almeida, declarou que o projeto surgiu após uma missão internacional do governador em 2023 e foi visto como oportunidade para reposicionar o litoral do Piauí no cenário global, com potencial de promoção turística, cultural e educacional, além de reforçar atividades como o kitesurf.

Esses argumentos mostram a lógica do governo: apostar em um símbolo moderno, chamativo e internacionalizado para fortalecer a imagem da região. O problema é que imagem não substitui estrutura, e promoção não resolve deficiência básica.

A banalidade do símbolo diante da gravidade da carência

É nesse ponto que a discussão sobre dinheiro público se torna inevitável. Um portal interativo pode chamar atenção, render fotos, vídeos e curiosidade de visitantes.

Pode até servir como atração complementar em uma área turística. Mas, diante de um território onde milhares ainda convivem com ausência de água tratada, esgoto e manejo adequado de resíduos, a iniciativa ganha contornos de banalidade administrativa.

O Estado escolheu investir milhões em um objeto de forte impacto visual enquanto parte da população segue sem acesso pleno ao que deveria ser elementar.

A decisão pode até ser defendida no campo da promoção turística, mas ela cobra um preço político alto: a exposição de uma prioridade invertida. O governo busca conectar o Piauí a cidades da Europa e dos Estados Unidos, mas ainda não conseguiu conectar plenamente parte da sua população ao básico.

Discurso de desenvolvimento esbarra na realidade local

O material oficial afirma que o portal integra uma série de ações do governo para impulsionar o turismo piauiense, incluindo melhorias em infraestrutura básica, abastecimento de água, saneamento, urbanização e novos atrativos em Cajueiro da Praia e na Praça Central de Barra Grande.

Ainda assim, os indicadores apresentados para a região mostram que, se essas melhorias estão em curso, elas ainda não alteraram de forma decisiva a realidade mais dura. E é justamente isso que torna a obra tão simbólica. Não por representar um avanço estrutural, mas por expor com clareza a distância entre aquilo que aparece e aquilo que falta.

No fim, a questão central não é ser contra turismo, inovação ou divulgação internacional. A questão é saber se faz sentido transformar um portal interativo em prioridade política e financeira quando o entorno ainda convive com carências tão graves.

Em um cenário assim, o portal deixa de ser apenas um atrativo moderno. Ele se torna o retrato de uma gestão que decidiu investir primeiro no que impressiona, e não no que resolve.

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Célia Maria Lima Barros
Célia Maria Lima Barros
02/04/2026 15:21

Quero ver se esse portal vai resolver problemas na saúde e na educação. Obra inútil para um estado tão necessitado. Seria muito mais digno investir um dinheiro desse no que realmente o povo precisa.

Leocampos
Leocampos(@leonocane)
31/03/2026 13:56

Só pode ser do partido das **** pra fazer uma obra dessa, enquanto os piauienses na pobreza, mas o povo tem o politico que merece

Pablo
Pablo
Em resposta a  Leocampos
02/04/2026 09:59

Pior que o PT já tem 24 anos que governa essa **** de “estado”

Fabio Lucas Carvalho

Jornalista especializado em uma ampla variedade de temas, como carros, tecnologia, política, indústria naval, geopolítica, energia renovável e economia. Atuo desde 2015 com publicações de destaque em grandes portais de notícias. Minha formação em Gestão em Tecnologia da Informação pela Faculdade de Petrolina (Facape) agrega uma perspectiva técnica única às minhas análises e reportagens. Com mais de 10 mil artigos publicados em veículos de renome, busco sempre trazer informações detalhadas e percepções relevantes para o leitor.

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