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Enquanto devolve navios de soja e bloqueia carne brasileira, China foca no Brasil e se preocupa em quem será o próximo presidente do país

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Escrito por Alisson Ficher Publicado em 25/06/2026 às 12:01 Atualizado em 25/06/2026 às 12:08
China adia reunião com o Brasil em meio à eleição, terras raras e pressão dos EUA, enquanto Pequim busca reduzir exposição diplomática.
China adia reunião com o Brasil em meio à eleição, terras raras e pressão dos EUA, enquanto Pequim busca reduzir exposição diplomática.
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Disputa presidencial, minerais críticos e pressão dos Estados Unidos colocam a relação entre Brasil e China em fase de maior cautela diplomática, enquanto Pequim reduz a exposição pública em Brasília e tenta preservar canais técnicos construídos ao longo de décadas.

A China adotou uma postura mais cautelosa em relação ao Brasil no avanço da disputa presidencial de 2026, ao adiar uma reunião bilateral de alto nível e reduzir a exposição pública de sua relação com o governo de Luiz Inácio Lula da Silva.

De acordo com o jornal O Globo, a movimentação ocorre em meio à aproximação do senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato do PL, com autoridades dos Estados Unidos e ao aumento da disputa internacional por minerais críticos.

O encontro adiado estava previsto no âmbito da Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação, a Cosban, mecanismo criado em maio de 2004 para coordenar a agenda estratégica entre Brasília e Pequim.

O órgão é considerado pelo governo brasileiro o principal canal regular de diálogo bilateral com a China e reúne temas como política, comércio, agricultura, energia, mineração, ciência, tecnologia, cultura e meio ambiente.

A decisão não significa rompimento de canais diplomáticos nem suspensão da parceria entre os dois países.

Ainda assim, reduz o peso simbólico de uma agenda pública em Brasília em um momento em que a relação com a China passou a ser usada no debate eleitoral e em disputas de influência entre Pequim e Washington.

China evita ruído político na eleição brasileira

A cautela chinesa aparece em um cenário no qual a eleição brasileira passou a interessar não apenas aos partidos nacionais, mas também a governos estrangeiros atentos à orientação futura da política externa do país.

Uma eventual mudança de comando no Planalto poderia alterar o equilíbrio diplomático entre China e Estados Unidos, especialmente em áreas sensíveis como tecnologia, segurança, comércio e minerais estratégicos.

Segundo reportagem do jornal O Globo, Pequim avaliou que uma reunião de alto nível da Cosban poderia ser explorada por adversários de Lula como sinal de proximidade política entre o governo brasileiro e a China.

A diplomacia chinesa costuma evitar manifestações públicas sobre disputas internas de outros países, mas acompanha com atenção movimentos que possam afetar parcerias de longo prazo.

O cálculo ficou mais delicado depois da viagem de Flávio Bolsonaro aos Estados Unidos.

Em 26 de maio de 2026, o senador se reuniu com Donald Trump na Casa Branca, em encontro fechado no Salão Oval, e tratou de temas como crime organizado, tarifas comerciais, terras raras e minerais críticos.

Além de Trump, Flávio também incluiu na agenda contatos com o vice-presidente JD Vance e o secretário de Estado Marco Rubio, segundo a Reuters.

As conversas ampliaram a dimensão internacional da pré-campanha do senador e aproximaram sua plataforma de pautas caras à política externa americana, como segurança regional e redução da dependência chinesa em cadeias produtivas estratégicas.

Terras raras aumentam disputa entre China e Estados Unidos

Os minerais críticos ganharam centralidade nessa disputa porque são usados em setores como defesa, baterias, telecomunicações, semicondutores, energia e tecnologias de ponta.

O Brasil aparece nesse debate por suas reservas minerais e por sua capacidade de atrair investimentos em cadeias produtivas que hoje são acompanhadas de perto por Washington e Pequim.

Durante a passagem pelos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro defendeu que o Brasil poderia contribuir para reduzir a dependência americana da China em minerais críticos.

A declaração reforçou a leitura de que parte da direita brasileira busca apresentar o país como parceiro estratégico dos Estados Unidos nesse setor.

China adia reunião com o Brasil em meio à eleição, terras raras e pressão dos EUA, enquanto Pequim busca reduzir exposição diplomática.
China adia reunião com o Brasil em meio à eleição, terras raras e pressão dos EUA, enquanto Pequim busca reduzir exposição diplomática.

Para a China, esse tipo de sinal político eleva o risco de uma agenda diplomática tradicional ser reinterpretada como gesto eleitoral.

Uma reunião de alto nível em Brasília poderia deixar de ser vista apenas como compromisso institucional e passar a alimentar narrativas de alinhamento entre Lula e Pequim.

O tema também se conecta às tarifas comerciais em discussão nos Estados Unidos.

Em junho de 2026, a Reuters informou que Flávio Bolsonaro se registrou para falar em uma audiência pública sobre uma proposta americana de tarifa de 25% sobre produtos brasileiros, medida que afetaria a relação comercial entre os dois países.

Cosban mantém peso estratégico na relação Brasil-China

A Cosban ganhou destaque em 2024, quando Brasil e China celebraram 50 anos de relações diplomáticas e 20 anos de criação da comissão.

Naquele ano, o vice-presidente Geraldo Alckmin viajou à China entre 4 e 7 de junho e presidiu, ao lado do vice-presidente chinês Han Zheng, a sétima sessão plenária do mecanismo em Pequim.

Na reunião de 6 de junho de 2024, foram firmados instrumentos intergovernamentais e anunciados resultados em áreas como agricultura, finanças, meio ambiente, comércio, indústria, comunicação, saúde, educação, cultura, energia, desenvolvimento rural, ciência e tecnologia.

O encontro consolidou a Cosban como uma das estruturas mais amplas da política externa brasileira com um parceiro internacional.

A China também mantém peso econômico central para o Brasil.

De acordo com o governo brasileiro, o país asiático era o principal parceiro comercial do Brasil havia 15 anos em 2024, enquanto o comércio bilateral alcançou US$ 157 bilhões naquele ano, em recorde histórico.

Esse histórico ajuda a explicar por que Pequim tende a evitar movimentos que possam transformar uma relação de Estado em alvo direto da campanha eleitoral.

A cooperação envolve exportações, investimentos, financiamento, tecnologia, infraestrutura, agricultura, energia e atuação em fóruns multilaterais, áreas que dependem de previsibilidade diplomática.

Parceria continua ativa com menor exposição pública

Mesmo com o adiamento da reunião de alto nível, a agenda bilateral não foi interrompida.

Subcomissões e contatos técnicos continuam a funcionar como canais de trabalho entre ministérios, órgãos especializados e representantes dos dois governos, preservando temas que não dependem necessariamente de cerimônias públicas.

A postura chinesa indica uma tentativa de manter a parceria com o Brasil sem ampliar a exposição política da relação no período eleitoral.

Em um ambiente de disputa entre Estados Unidos e China, gestos diplomáticos antes tratados como rotina institucional passaram a carregar custo simbólico maior.

Para Brasília, o desafio é preservar uma relação comercial e estratégica construída ao longo de cinco décadas sem transformar a China em peça de disputa doméstica.

Para Pequim, a prioridade parece ser atravessar a eleição brasileira com canais abertos, menor ruído público e margem para dialogar com qualquer governo eleito.

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Alisson Ficher

Jornalista formado desde 2017 e atuante na área desde 2015, com seis anos de experiência em revista impressa, passagens por canais de TV aberta e mais de 12 mil publicações online. Especialista em política, empregos, economia, cursos, entre outros temas e também editor do portal CPG. Registro profissional: 0087134/SP. Se você tiver alguma dúvida, quiser reportar um erro ou sugerir uma pauta sobre os temas tratados no site, entre em contato pelo e-mail: alisson.hficher@outlook.com. Não aceitamos currículos!

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