Criado a partir de uma técnica para localizar náufragos, o SOSUS virou uma rede secreta de escuta submarina, rastreou embarcações soviéticas, foi comprometido por espionagem e depois ganhou aplicações científicas nos oceanos
O SOSUS nasceu de uma técnica criada para localizar náufragos, mas foi transformado pela Marinha dos Estados Unidos em uma rede secreta capaz de detectar submarinos soviéticos a centenas de quilômetros. Espalhado pelo Atlântico e pelo Pacífico, o sistema chegou a mobilizar milhares de militares antes de ser revelado a Moscou por uma rede de espionagem.
SOSUS aproveitou um canal natural que leva sons por grandes distâncias
A origem do SOund SUrveillance System está no canal SOFAR, uma camada oceânica na qual sons de baixa frequência conseguem percorrer centenas de quilômetros, como se estivessem dentro de um tubo.
Perto do fim da Segunda Guerra Mundial, a Marinha americana planejou usar esse fenômeno para salvar sobreviventes de aviões abatidos ou navios afundados. O náufrago lançaria uma carga explosiva calibrada para detonar dentro do canal.
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O sinal seria captado por estações costeiras. Ao comparar os horários em que o som chegava a diferentes pontos, as equipes poderiam triangular a posição de quem precisava ser resgatado.
No início da Guerra Fria, o cientista Frederick Hunt propôs inverter a lógica. Em vez de localizar alguém que desejava ser encontrado, o canal poderia revelar submarinos que tentavam permanecer escondidos.
Em 1950, o Escritório de Pesquisa Naval contratou a AT&T e a Western Electric para desenvolver a tecnologia.
O esforço recebeu inicialmente o codinome Projeto Jezebel. O sistema secreto foi chamado de SOSUS e, publicamente, de Projeto Caesar.

Rede secreta de hidrofones passou a vigiar o fundo do oceano
O primeiro protótipo em tamanho real foi instalado em janeiro de 1952, perto da ilha de Eleuthera, nas Bahamas. O arranjo tinha cerca de 300 metros, reunia 40 hidrofones e ficava aproximadamente 440 metros abaixo da superfície.
Após detectar um submarino americano usado em testes, a tecnologia foi expandida pela costa leste dos Estados Unidos. Dois anos depois, a rede também chegou à costa oeste e ao Havaí.
Os hidrofones eram ligados por cabos a Instalações Navais, conhecidas como NAVFACs. Como os primeiros cabos alcançavam aproximadamente 240 quilômetros, as bases precisavam ficar próximas às áreas onde a plataforma continental terminava.

Para interpretar os ruídos captados, a AT&T adaptou um equipamento criado para analisar a fala humana. Surgiram os instrumentos LOFAR, capazes de decompor os sons graves do oceano e apresentar as frequências registradas.
Máquinas e hélices produziam uma assinatura acústica própria. Ela aparecia nos chamados LOFAR-gramas, acompanhados continuamente por operadores que tentavam identificar e seguir o movimento de submarinos sob as águas.
A sensibilidade também revelou sons naturais. Um ruído inicialmente apelidado de “Monstro Jezebel” foi identificado mais tarde como vocalizações de baleias-azuis e baleias-comuns captadas a grandes distâncias.

Sistema chegou a reunir 20 instalações e 3.500 militares
Com o aumento da movimentação soviética no Atlântico Norte, o SOSUS avançou para a Islândia e o País de Gales.
Em meados da década de 1970, reunia 20 NAVFACs, dois comandos de Sistemas Oceânicos e aproximadamente 3.500 militares.
Na década de 1980, cabos mais avançados permitiram instalar sensores mais distantes das bases costeiras. Parte das operações do Atlântico e do Caribe foi concentrada em uma Instalação Naval de Processamento Oceânico, em Dam Neck.
A rede fixa passou a trabalhar com navios equipados com o SURTASS, um sistema de sensores rebocados com mais de 2.400 metros de comprimento. O conjunto foi denominado Sistema Integrado de Vigilância Submarina, o IUSS.
No fim dos anos 1980, o IUSS contava com 11 NAVFACs ou centros de processamento, 14 navios SURTASS, dois comandos oceânicos e cerca de 4.000 pessoas.

Espionagem soviética reduziu vantagem acústica dos Estados Unidos
O principal diferencial do SOSUS era o sigilo. Essa vantagem foi comprometida pelas informações vendidas à União Soviética pela rede de espionagem Walker-Whitworth.
John Walker, suboficial da Marinha americana especializado em comunicações de submarinos, entregou mensagens navais a Moscou entre 1968 e sua prisão, em 1985. Jerry Whitworth, também especialista em comunicações, foi recrutado para ajudá-lo.
Depois de conhecer a capacidade americana de rastreamento, a Marinha soviética intensificou os esforços para tornar seus submarinos mais silenciosos.
No fim da Guerra Fria, a detecção passiva de embarcações nucleares soviéticas havia perdido parte importante de sua eficiência.
Com o encerramento do conflito e os avanços tecnológicos, a estrutura diminuiu. Em 2010, restavam duas instalações de processamento, cinco navios SURTASS, um comando e cerca de mil militares.
A rede, porém, passou a atender também à ciência. Seus sensores foram usados no estudo de correntes oceânicas, terremotos e erupções submarinas, vocalizações de mamíferos marinhos e variações de temperatura nos oceanos.
Esta matéria foi elaborada com base nas informações do material fornecido sobre o SOSUS, com dados, números e declarações preservados conforme o conteúdo consultado.

