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Energia solar entra em fase de desaceleração inédita após duas décadas de expansão

Escrito por Paulo H. S. Nogueira
Publicado em 18/12/2025 às 08:33
Atualizado em 18/12/2025 às 10:37
Energia solar entra em fase de desaceleração inédita após duas décadas de expansão
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A energia solar viveu, nas últimas duas décadas, uma trajetória marcada por crescimento contínuo e acelerado.

Desde o início dos anos 2000, a tecnologia fotovoltaica avançou de forma consistente, impulsionada pela queda de custos, por políticas de incentivo e pela necessidade global de reduzir emissões de carbono. Agora, no entanto, o setor se aproxima de um ponto de inflexão histórico.

Segundo o relatório Global PV Market Outlook, da BloombergNEF, o mundo deve adicionar cerca de 649 gigawatts de capacidade de energia solar em 2026, número ligeiramente inferior ao registrado em 2025. Embora o volume absoluto continue elevado, a redução representa um marco simbólico. Será a primeira retração desde o início dos registros globais, em 2000.

Além disso, de acordo com a BNEF, o crescimento observado em 2025 já se configura como o mais fraco dos últimos sete anos. Esse movimento sinaliza que a energia solar entra em uma nova fase, menos marcada pela expansão acelerada e mais condicionada por fatores estruturais e políticos.

Energia solar e o ciclo histórico de expansão global

Para compreender a relevância desse momento, é necessário observar o histórico do setor. No início dos anos 2000, a energia solar ainda ocupava um espaço marginal na matriz energética global. Segundo a Agência Internacional de Energia, naquela época os custos elevados e a baixa eficiência limitavam a adoção da tecnologia.

Entretanto, ao longo dos anos, avanços tecnológicos, economia de escala e políticas públicas transformaram o cenário. Entre 2010 e 2020, a queda expressiva no preço dos módulos fotovoltaicos acelerou a expansão em praticamente todas as regiões do mundo. Países como China, Estados Unidos e membros da União Europeia lideraram essa transformação.

Com o tempo, a energia solar deixou de depender exclusivamente de subsídios. Em muitos mercados, ela se tornou competitiva mesmo sem incentivos diretos. Esse amadurecimento, embora positivo, também trouxe novos desafios. O crescimento exponencial deu lugar a um ritmo mais próximo da estabilidade, especialmente em mercados já amplamente atendidos.

Mudanças de política pública e impacto na demanda

Um dos principais fatores por trás da desaceleração projetada envolve mudanças nas políticas públicas. Segundo a BloombergNEF, diversos países revisaram programas de incentivo à energia solar nos últimos anos. Em alguns casos, governos reduziram subsídios. Em outros, ajustaram regras de compensação da geração distribuída.

Essas mudanças afetam diretamente a decisão de investimento. Quando os incentivos diminuem, projetos marginais deixam de ser viáveis, especialmente em mercados onde a maior parte do potencial já foi explorada. Como resultado, a taxa de novas instalações perde força.

Além disso, o cenário macroeconômico global também influencia. Taxas de juros mais elevadas aumentam o custo do financiamento, fator relevante para projetos de energia solar, que dependem de investimento inicial elevado e retorno de longo prazo. Segundo análises da própria BNEF, esse ambiente financeiro mais restritivo contribui para a moderação do crescimento.

Saturação em mercados maduros de energia solar

Outro elemento central da desaceleração está na saturação de mercados importantes. Países que lideraram a expansão da energia solar nas últimas décadas agora enfrentam limites naturais de crescimento. Telhados já ocupados, redes elétricas sobrecarregadas e desafios de integração reduzem o ritmo de novas conexões.

Segundo a Agência Internacional de Energia, regiões com alta penetração de energia solar precisam investir em armazenamento, modernização das redes e gestão da intermitência. Sem esses investimentos, a expansão perde velocidade, mesmo quando a tecnologia permanece competitiva.

Nesse contexto, a desaceleração não indica perda de relevância da energia solar. Pelo contrário. Ela reflete a transição de um modelo de crescimento acelerado para um modelo de consolidação e otimização.

Energia solar e o novo estágio do setor

Embora a retração projetada para 2026 seja inédita, ela ocorre a partir de uma base extremamente elevada. Adicionar 649 gigawatts em um único ano ainda representa um volume expressivo. Segundo a BNEF, esse número supera, isoladamente, toda a capacidade instalada global de energia solar no início da década passada.

Portanto, o setor não entra em declínio, mas em uma fase de maturidade. A energia solar passa a crescer de forma mais seletiva, concentrando investimentos em mercados emergentes, em projetos híbridos e em soluções integradas com armazenamento.

Além disso, a desaceleração pode incentivar maior eficiência. Empresas e governos tendem a priorizar qualidade, integração ao sistema elétrico e estabilidade de longo prazo, em vez de expansão acelerada a qualquer custo.

O papel da energia solar na transição energética global

Mesmo com crescimento mais moderado, a energia solar continua sendo um dos pilares da transição energética. Segundo a Organização das Nações Unidas, a expansão das fontes renováveis segue essencial para o cumprimento das metas climáticas globais.

A diferença é que, agora, o desafio não está apenas em instalar mais capacidade, mas em integrar a energia solar de forma inteligente aos sistemas elétricos, garantindo segurança, confiabilidade e equilíbrio entre oferta e demanda.

Nesse sentido, o relatório da BloombergNEF funciona como um alerta estratégico. Ele indica que o setor precisa evoluir em governança, planejamento e infraestrutura para sustentar seu papel no longo prazo.

Assim, a desaceleração prevista para 2026 não representa o fim do ciclo da energia solar. Ela marca, na verdade, o início de uma nova etapa. Uma fase em que maturidade, integração e eficiência passam a ser tão importantes quanto o crescimento em si, redefinindo a trajetória da principal fonte renovável das últimas duas décadas.

Paulo H. S. Nogueira

Sou Paulo Nogueira, formado em Eletrotécnica pelo Instituto Federal Fluminense (IFF), com experiência prática no setor offshore, atuando em plataformas de petróleo, FPSOs e embarcações de apoio. Hoje, dedico-me exclusivamente à divulgação de notícias, análises e tendências do setor energético brasileiro, levando informações confiáveis e atualizadas sobre petróleo, gás, energias renováveis e transição energética.

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