Empresas de energia renovável suspenderam quase R$ 40 bilhões em investimentos entre 2025 e 2026 e, além disso, já avaliam reduzir sua presença no Nordeste — região que concentra a maior parte dos projetos eólicos e solares do país. Esse movimento ocorre, sobretudo, em um contexto de aumento de custos, perda de incentivos fiscais e avanço do chamado curtailment, que limita a geração de energia.
Atualmente, o cenário combina fatores antigos com mudanças recentes que, por sua vez, elevaram significativamente o risco dos projetos. Por um lado, a demanda por energia cresce em ritmo mais lento do que o esperado. Por outro, novas regras e encargos passaram a pressionar a rentabilidade das usinas. Como resultado, esse conjunto de fatores criou um ambiente de incerteza, levando empresas a rever seus planos e, em alguns casos, até considerar a migração para outras regiões do Brasil.
De acordo com associações do setor, o volume afetado chega a R$ 38,8 bilhões, incluindo projetos cancelados, investimentos frustrados e aportes suspensos. Consequentemente, o impacto já começa a ser sentido na cadeia produtiva, com relatos de fábricas reduzindo suas operações e, em situações mais críticas, encerrando atividades no Nordeste.
-
Cientistas brasileiros avançam simultaneamente em duas pesquisas sobre hidrogênio limpo e impulsionam soluções que podem transformar a matriz energética, ampliar a competitividade industrial e acelerar metas de redução de emissões em larga escala
-
Avanço em energia renovável: Projeto de R$ 150 milhões lançado por Petrobras e Finep busca criar eletrolisadores de última geração para hidrogênio verde, fortalecendo pesquisa nacional e preparando o Brasil para disputar espaço em um mercado energético bilionário
-
Avós analfabetas ou semialfabetizadas foram treinadas para consertar sistemas solares, abrir oficinas rurais e iluminar casas que ainda dependiam de querosene
-
O mundo apostou no hidrogênio verde como combustível do futuro, mas agora encara o efeito colateral: produzir 1 quilo exige cerca de 9 litros de água ultrapura, e os maiores projetos do planeta ficam justamente nas regiões mais secas da Terra, onde a água já falta para as pessoas
Por que empresas de energia renovável estão suspendendo investimentos
A decisão de segurar investimentos, na verdade, não está relacionada a um único fator. Pelo contrário, trata-se de um conjunto de condições que, somadas, alteraram a lógica econômica dos projetos. Entre os principais pontos citados pelo setor, destacam-se:
- Crescimento lento da demanda por energia
- Curtailment (corte forçado na geração)
- Perda de incentivos fiscais
- Aumento de exigências regulatórias
- Elevação do custo de uso da rede elétrica
Dessa forma, esse cenário reduz a previsibilidade e, ao mesmo tempo, dificulta a viabilidade financeira de novos empreendimentos. Considerando que se trata de um setor que exige alto investimento inicial, qualquer mudança nas regras impacta diretamente a decisão de seguir — ou não — com os projetos.
O que é curtailment e por que virou problema central
O curtailment ocorre quando usinas renováveis precisam interromper a geração, mesmo em condições favoráveis de sol ou vento. Isso acontece, principalmente, para evitar sobrecarga no sistema elétrico nacional.
Na prática, o país produz mais energia do que consegue consumir ou escoar em determinados momentos. Assim, para evitar um colapso da rede, parte dessa geração é, inevitavelmente, cortada.
O problema é que, como consequência:
- a energia deixa de ser vendida
- o investimento não retorna como previsto
- o prejuízo recai sobre o gerador
Atualmente, o volume de energia desperdiçada já é comparável à geração de uma usina de grande porte, o que, por sua vez, intensifica a pressão sobre o setor.
Diante disso, uma das soluções discutidas envolve o uso de baterias para armazenar o excedente. No entanto, apesar do potencial, a implementação ainda não avançou no ritmo esperado.

Perda de incentivos e novas regras aumentam pressão sobre o setor
Além dos desafios operacionais, mudanças recentes na política energética também contribuíram para o cenário atual. Nesse contexto, a Medida Provisória 1304 trouxe novas condições para acesso ao Reidi, regime que concede benefícios fiscais a projetos de infraestrutura.
A partir dessas novas regras, usinas solares e eólicas passaram a acessar o incentivo apenas se estiverem integradas a sistemas de armazenamento. Como resultado, criou-se uma barreira adicional, especialmente porque nem todos os projetos estavam estruturados com esse tipo de tecnologia.
Outro ponto crítico diz respeito ao repasse de custos da chamada reserva de capacidade — mecanismo utilizado para garantir energia em momentos de baixa geração renovável. Com a mudança, esse custo passou a ser transferido para novos empreendimentos, elevando, consequentemente, o preço final dos projetos.
Dessa maneira, o efeito direto é a redução da atratividade econômica, sobretudo em regiões mais afastadas dos grandes centros consumidores.
Nordeste concentra investimentos e é o mais afetado pela crise
O Nordeste responde por mais de 95% dos investimentos em energia eólica e solar no Brasil, principalmente devido à combinação de vento constante e alta incidência solar.
Entretanto, aquilo que antes era uma vantagem competitiva passou a representar um fator de risco diante das novas regras. Entre os impactos já identificados, destacam-se:
- devolução de 141 outorgas, somando R$ 18,9 bilhões
- cerca de R$ 5,9 bilhões em investimentos frustrados
- mais de R$ 14 bilhões em aportes suspensos
Além disso, há relatos consistentes de fechamento de fábricas, demissões no setor industrial e paralisação de novos projetos. Nesse sentido, o cenário levanta um alerta importante sobre a sustentabilidade do modelo atual, fortemente baseado na concentração geográfica da geração.
Empresas começam a avaliar migração para outras regiões
Diante da pressão de custos e, simultaneamente, da dificuldade de escoamento da energia, algumas empresas já analisam redirecionar seus investimentos para estados mais próximos dos centros consumidores.
Entre as alternativas citadas estão Mato Grosso do Sul, Rio Grande do Sul e Mato Grosso. Embora essas regiões apresentem condições naturais menos favoráveis em comparação ao Nordeste, elas oferecem uma vantagem logística relevante: menor custo de transmissão e maior proximidade da demanda.
Custo de transmissão e distância dos centros consumidores pesam na conta
Outro fator que passou a ter peso significativo foi o aumento das tarifas de uso da rede elétrica, definido por resoluções da Aneel.
Com isso, as novas regras elevaram o custo para usinas localizadas longe dos grandes polos consumidores, especialmente nas regiões Norte e Nordeste. Em termos práticos: quanto maior a distância do projeto, maior o custo de transmissão. Consequentemente, o preço final da energia sobe e a competitividade da usina diminui.
Governo defende revisão de incentivos e reequilíbrio do setor
Por parte do governo federal, a avaliação é de que os incentivos concedidos no passado já cumpriram seu papel ao consolidar as energias renováveis na matriz brasileira. Assim, a proposta atual é revisar esses benefícios, com o objetivo de evitar distorções no sistema elétrico e impactos na conta de luz do consumidor.
Entretanto, esse posicionamento entra em conflito com o setor, que argumenta que a retirada de incentivos ocorreu antes da solução de problemas estruturais, como o curtailment e a ausência de sistemas de armazenamento.
Leilão de baterias é visto como peça-chave para destravar o setor
Nesse contexto, uma das principais demandas das empresas é a realização de leilões voltados para sistemas de armazenamento de energia. Isso porque as baterias são consideradas uma solução direta para o curtailment, já que permitem armazenar o excesso gerado e liberá-lo posteriormente, quando a demanda aumenta.
Sem essa estrutura, o desperdício persiste, o prejuízo continua e, consequentemente, novos projetos se tornam menos atrativos.
Data centers aparecem como possível saída para aumentar demanda
Paralelamente, há expectativa de que a chegada de grandes data centers ao Brasil possa impulsionar a demanda por energia elétrica, criando espaço para absorver a produção das usinas renováveis.
No entanto, como ainda não há um programa nacional estruturado para esse setor, a incerteza permanece, limitando o avanço dessa possível solução.
Setor alerta para risco de perda de investimentos na transição energética
De forma geral, associações do setor avaliam que o Brasil corre o risco de perder uma janela estratégica na transição energética. Apesar das condições naturais favoráveis e do histórico recente de atração de investimentos, o conjunto de regras, custos e incertezas pode desacelerar esse avanço.
Sem ajustes, o cenário pode evoluir para a redução de novos projetos, a migração de investimentos para outras regiões ou países e, além disso, o enfraquecimento da cadeia industrial ligada às energias renováveis.
O que está em jogo para o futuro da energia renovável no Brasil
A suspensão de quase R$ 40 bilhões, portanto, não é um movimento isolado. Pelo contrário, ela sinaliza uma mudança relevante na percepção de risco e retorno dentro do setor.
Embora o Nordeste continue sendo referência em potencial de geração, o ambiente regulatório e econômico passou a ter um peso ainda maior nas decisões de investimento.
Dessa forma, os próximos passos dependerão de decisões estratégicas envolvendo armazenamento de energia, modelo de incentivos, custo de transmissão e planejamento da expansão do sistema. Caso contrário, o país pode ver um setor que cresceu rapidamente nos últimos anos entrar, gradualmente, em uma fase mais profunda de desaceleração.


Seria viavel a Petrobras investir no mercado para fazer essa transmissão e distribuição?