Com 84,63% da matriz elétrica vinda de fontes renováveis e a adição de 9.142 MW previstos para 2026, o Brasil se consolida entre os líderes globais em energia limpa — mas termelétricas fósseis ainda respondem por 30% das novas adições e lembram que a transição não acabou
O número impressiona pela escala absoluta: US$ 629 bilhões acumulados em mais de 1.900 projetos de energia renovável no Brasil.
Esse volume inclui usinas solares de grande escala no Cerrado e Nordeste, parques eólicos que transformaram paisagens do Rio Grande do Norte ao sul da Bahia, sistemas de armazenamento por baterias que começam a aparecer e toda a infraestrutura de transmissão que conecta essas fontes distantes aos centros de consumo.
É um investimento que posiciona o país ao lado de China, Estados Unidos e Índia na corrida global pela energia limpa.
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Contudo, os números escondem nuances importantes que merecem análise detalhada.

215,9 GW instalados — e crescendo a 9 GW por ano
Em 1º de janeiro de 2026, a capacidade total instalada do Brasil atingiu 215.936 MW (215,9 GW), segundo o SIGA da ANEEL.
Desse total, 84,63% provêm de fontes renováveis — hidrelétrica, solar, eólica e biomassa combinadas.
Para comparação, a média global de renováveis na matriz elétrica fica em torno de 40%.
O Brasil está mais que o dobro acima dessa média mundial.
É uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta entre economias de grande porte.
A ANEEL projeta a adição de 9.142 MW em 2026, dos quais 4.560 MW serão de energia solar fotovoltaica — um crescimento de 61,7% sobre o ano anterior que confirma a virada solar da matriz brasileira.
Solar fotovoltaica — a protagonista silenciosa
A energia solar ultrapassou marcos históricos nos últimos dois anos.
Impulsionada tanto por grandes usinas centralizadas quanto pela geração distribuída em telhados de residências, comércios e indústrias, a solar cresce a taxas superiores a 60% ao ano em novas instalações.
No primeiro trimestre de 2026, 25 das 27 usinas inauguradas no Brasil eram solares.
Os estados que mais recebem são Ceará, Goiás, Bahia e Pernambuco — regiões com alta incidência solar que se transformaram em verdadeiros polos energéticos.
Portanto, o Brasil está vivendo uma revolução fotovoltaica que é ao mesmo tempo silenciosa, descentralizada e irreversível.
Eólica offshore — o potencial de 697 GW no horizonte
O potencial eólico offshore do Brasil é estimado em 697 GW — mais de 3 vezes toda a capacidade instalada atual do país somada.
O primeiro leilão de áreas no oceano está previsto para 2027, após regulamentação no primeiro semestre de 2026 com base na Lei nº 15.097/2025.
Se explorado ao longo das próximas décadas, esse recurso pode transformar o Nordeste em um polo global de energia eólica marítima.
Os ventos constantes da costa nordestina brasileira são uma vantagem natural que poucos concorrentes no mundo conseguem replicar.

Baterias — a peça que faltava no quebra-cabeça energético
Um dos maiores gargalos das renováveis é a intermitência: o sol não brilha à noite e o vento nem sempre sopra quando a demanda elétrica é maior.
Sistemas de armazenamento por baterias (BESS) estão sendo instalados junto a usinas para resolver esse problema fundamental.
O Brasil realizou em 2026 o primeiro leilão exclusivo de baterias da sua história, com impressionantes 18 GW de projetos inscritos.
A próxima fronteira da transição energética brasileira não é mais gerar energia limpa — é armazená-la de forma eficiente para usar quando e onde for necessário.
Países como os Estados Unidos já adicionam mais de 24 GW de baterias por ano, demonstrando que o caminho é viável e escalável.
O elefante na sala: 2.770 MW fósseis em 2026
Apesar de todos os avanços, a expansão de 2026 inclui 2.770 MW em termelétricas fósseis.
Isso representa quase 30% da nova capacidade projetada.
A razão é técnica: o sistema elétrico precisa de usinas despacháveis — que podem ser ligadas rapidamente quando falta água nos reservatórios ou vento nos parques.
Sem armazenamento por baterias em escala suficiente ainda, as termelétricas a gás natural são a válvula de segurança do sistema elétrico brasileiro.
Contudo, essa dependência contradiz parcialmente a narrativa de transição limpa e mostra que ainda há um caminho longo a percorrer.
Como o Brasil se compara ao mundo
Os 9,1 GW de novas adições em 2026 são impressionantes na América Latina, mas modestos no contexto global:
- China: mais de 100 GW/ano — mais de 10 vezes o Brasil
- Estados Unidos: 86 GW projetados para 2026, 99% renováveis
- Índia: expansão acelerada em solar e nuclear
Contudo, o Brasil tem uma vantagem estrutural que nenhum desses países replica facilmente: 84,63% da matriz já é renovável, enquanto a maioria luta para chegar a 40%.
Os 1.900 projetos mapeados abrangem desde pequenas usinas solares comunitárias no semiárido nordestino até megaparques eólicos no litoral e sistemas de armazenamento em São Paulo, mostrando que a transição é geograficamente diversificada e economicamente descentralizada.

Ressalvas
O valor de US$ 629 bilhões é um acumulado histórico de várias décadas, não investimento de um único ano.
Parte significativa vem de hidrelétricas construídas no século passado, antes da era das renováveis modernas como solar e eólica.
A eólica onshore desacelerou de 1.825 MW em 2025 para 1.430 MW previstos em 2026, e a offshore ainda depende de regulamentação para sair do papel.
A série histórica mostra volatilidade considerável: 2024 teve 10,9 GW de expansão, 2025 caiu para 7,4 GW.
Ainda assim, com quase 85% de renováveis, expansão acelerada em solar, primeiro leilão de baterias e 697 GW de potencial eólico offshore no horizonte, o Brasil segue entre os líderes mundiais na corrida pela energia limpa — com uma base que muitos invejam e um futuro que depende de regulamentação ágil e investimento contínuo para se concretizar.

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