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Com US$ 629 bilhões investidos em 1.900 projetos de energia limpa, o Brasil se consolida como potência renovável — mas ainda depende de termelétricas fósseis para 15% da matriz

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 19/04/2026 às 11:30
Parque solar e eólico no Nordeste do Brasil com milhares de painéis e turbinas em escala industrial
Com US$ 629 bilhões investidos em 1.900 projetos, o Brasil consolida posição como potência renovável
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Com 84,63% da matriz elétrica vinda de fontes renováveis e a adição de 9.142 MW previstos para 2026, o Brasil se consolida entre os líderes globais em energia limpa — mas termelétricas fósseis ainda respondem por 30% das novas adições e lembram que a transição não acabou

O número impressiona pela escala absoluta: US$ 629 bilhões acumulados em mais de 1.900 projetos de energia renovável no Brasil.

Esse volume inclui usinas solares de grande escala no Cerrado e Nordeste, parques eólicos que transformaram paisagens do Rio Grande do Norte ao sul da Bahia, sistemas de armazenamento por baterias que começam a aparecer e toda a infraestrutura de transmissão que conecta essas fontes distantes aos centros de consumo.

É um investimento que posiciona o país ao lado de China, Estados Unidos e Índia na corrida global pela energia limpa.

Contudo, os números escondem nuances importantes que merecem análise detalhada.

Sala de controle do sistema elétrico brasileiro
O Brasil consolidou 84,63% de sua matriz elétrica em fontes renováveis em janeiro de 2026 — mais que o dobro da média global de aproximadamente 40%

215,9 GW instalados — e crescendo a 9 GW por ano

Em 1º de janeiro de 2026, a capacidade total instalada do Brasil atingiu 215.936 MW (215,9 GW), segundo o SIGA da ANEEL.

Desse total, 84,63% provêm de fontes renováveis — hidrelétrica, solar, eólica e biomassa combinadas.

Para comparação, a média global de renováveis na matriz elétrica fica em torno de 40%.

O Brasil está mais que o dobro acima dessa média mundial.

É uma das matrizes elétricas mais limpas do planeta entre economias de grande porte.

A ANEEL projeta a adição de 9.142 MW em 2026, dos quais 4.560 MW serão de energia solar fotovoltaica — um crescimento de 61,7% sobre o ano anterior que confirma a virada solar da matriz brasileira.

Solar fotovoltaica — a protagonista silenciosa

A energia solar ultrapassou marcos históricos nos últimos dois anos.

Impulsionada tanto por grandes usinas centralizadas quanto pela geração distribuída em telhados de residências, comércios e indústrias, a solar cresce a taxas superiores a 60% ao ano em novas instalações.

No primeiro trimestre de 2026, 25 das 27 usinas inauguradas no Brasil eram solares.

Os estados que mais recebem são Ceará, Goiás, Bahia e Pernambuco — regiões com alta incidência solar que se transformaram em verdadeiros polos energéticos.

Portanto, o Brasil está vivendo uma revolução fotovoltaica que é ao mesmo tempo silenciosa, descentralizada e irreversível.

Eólica offshore — o potencial de 697 GW no horizonte

O potencial eólico offshore do Brasil é estimado em 697 GW — mais de 3 vezes toda a capacidade instalada atual do país somada.

O primeiro leilão de áreas no oceano está previsto para 2027, após regulamentação no primeiro semestre de 2026 com base na Lei nº 15.097/2025.

Se explorado ao longo das próximas décadas, esse recurso pode transformar o Nordeste em um polo global de energia eólica marítima.

Os ventos constantes da costa nordestina brasileira são uma vantagem natural que poucos concorrentes no mundo conseguem replicar.

Vista panorâmica de infraestrutura mista renovável no Brasil
A combinação de solar, eólica e hidrelétrica dá ao Brasil uma diversificação renovável que poucos países conseguem replicar em escala continental

Baterias — a peça que faltava no quebra-cabeça energético

Um dos maiores gargalos das renováveis é a intermitência: o sol não brilha à noite e o vento nem sempre sopra quando a demanda elétrica é maior.

Sistemas de armazenamento por baterias (BESS) estão sendo instalados junto a usinas para resolver esse problema fundamental.

O Brasil realizou em 2026 o primeiro leilão exclusivo de baterias da sua história, com impressionantes 18 GW de projetos inscritos.

A próxima fronteira da transição energética brasileira não é mais gerar energia limpa — é armazená-la de forma eficiente para usar quando e onde for necessário.

Países como os Estados Unidos já adicionam mais de 24 GW de baterias por ano, demonstrando que o caminho é viável e escalável.

O elefante na sala: 2.770 MW fósseis em 2026

Apesar de todos os avanços, a expansão de 2026 inclui 2.770 MW em termelétricas fósseis.

Isso representa quase 30% da nova capacidade projetada.

A razão é técnica: o sistema elétrico precisa de usinas despacháveis — que podem ser ligadas rapidamente quando falta água nos reservatórios ou vento nos parques.

Sem armazenamento por baterias em escala suficiente ainda, as termelétricas a gás natural são a válvula de segurança do sistema elétrico brasileiro.

Contudo, essa dependência contradiz parcialmente a narrativa de transição limpa e mostra que ainda há um caminho longo a percorrer.

Como o Brasil se compara ao mundo

Os 9,1 GW de novas adições em 2026 são impressionantes na América Latina, mas modestos no contexto global:

  • China: mais de 100 GW/ano — mais de 10 vezes o Brasil
  • Estados Unidos: 86 GW projetados para 2026, 99% renováveis
  • Índia: expansão acelerada em solar e nuclear

Contudo, o Brasil tem uma vantagem estrutural que nenhum desses países replica facilmente: 84,63% da matriz já é renovável, enquanto a maioria luta para chegar a 40%.

Os 1.900 projetos mapeados abrangem desde pequenas usinas solares comunitárias no semiárido nordestino até megaparques eólicos no litoral e sistemas de armazenamento em São Paulo, mostrando que a transição é geograficamente diversificada e economicamente descentralizada.

Trabalhadores instalando painéis solares de grande escala
Com 9.142 MW previstos para 2026, solar crescendo 61,7% e primeiro leilão de baterias da história, o Brasil acelera a transição energética

Ressalvas

O valor de US$ 629 bilhões é um acumulado histórico de várias décadas, não investimento de um único ano.

Parte significativa vem de hidrelétricas construídas no século passado, antes da era das renováveis modernas como solar e eólica.

A eólica onshore desacelerou de 1.825 MW em 2025 para 1.430 MW previstos em 2026, e a offshore ainda depende de regulamentação para sair do papel.

A série histórica mostra volatilidade considerável: 2024 teve 10,9 GW de expansão, 2025 caiu para 7,4 GW.

Ainda assim, com quase 85% de renováveis, expansão acelerada em solar, primeiro leilão de baterias e 697 GW de potencial eólico offshore no horizonte, o Brasil segue entre os líderes mundiais na corrida pela energia limpa — com uma base que muitos invejam e um futuro que depende de regulamentação ágil e investimento contínuo para se concretizar.

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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