A EIA projetou que os EUA vão adicionar 86 GW de nova capacidade em 2026 — o maior aumento anual em mais de duas décadas — e apenas 7% será de gás natural, com solar dominando 51% e baterias ultrapassando eólica pela primeira vez na história americana
Há uma revolução silenciosa acontecendo nos Estados Unidos.
De toda a nova capacidade elétrica que será instalada em 2026, 99% virá de fontes renováveis e baterias.
São 86 gigawatts (GW) de nova geração num único ano.
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É o maior aumento anual desde 2002 — há mais de duas décadas.
E o gás natural — que durante décadas dominou as adições de capacidade americana — ficou com apenas 7% do total, equivalente a 6,3 GW.
Os dados foram publicados pela EIA (US Energy Information Administration) em 20 de fevereiro de 2026.
Para ter uma ideia da escala, 86 GW num único ano é o suficiente para abastecer toda a Espanha — um país de 47 milhões de habitantes.
Essa projeção marca o momento em que a transição energética americana deixou de ser promessa e se tornou fato consumado nos números.

Como os 86 GW se dividem entre as fontes
A distribuição mostra uma mudança estrutural no setor elétrico americano que poucos previam há 10 anos:
- Solar fotovoltaica: 43,4 GW (51% do total) — aumento de 60% sobre os 27,2 GW de 2025
- Baterias (BESS): 24,3 GW (28%) — recorde absoluto, superando os 15 GW de 2025
- Eólica: 11,8 GW (14%) — mais que o dobro de 2025, incluindo projetos offshore inéditos
- Gás natural: 6,3 GW (7%) — sendo 3,3 GW ciclo combinado e 2,8 GW turbinas simples
Pela primeira vez na história dos Estados Unidos, baterias ultrapassaram a eólica em adições anuais de capacidade.
Isso sinaliza que o armazenamento de energia deixou de ser acessório e se tornou protagonista absoluto da transição energética americana.
Além disso, a capacidade total de baterias nos EUA agora supera 40 GW, após cinco anos consecutivos de crescimento exponencial.
Texas lidera com 40% do solar e 53% das baterias
O estado que mais recebe energia nova não é a ensolarada Califórnia — é o Texas.
Ele concentra 40% de toda a capacidade solar e impressionantes 53% de todas as baterias instaladas no país em 2026.
O Texas tem duas vantagens: terreno abundante e barato com sol intenso, além de regulação que facilita a conexão rápida de novos projetos à rede elétrica.
O maior projeto solar dos EUA em 2026 fica justamente no Texas: o Tehuacana Creek 1, em Navarro County, com 837 MW solares + 418 MW de baterias, desenvolvido pela Solar Proponent.
Só esse projeto sozinho equivale a uma usina nuclear de médio porte.
Outros destaques incluem o Lunis Creek BESS em Jackson, Texas (621 MW de baterias puras), e o Clear Fork Creek Solar + BESS em Wilson County (600 MW combinados).
Junto com Califórnia (14% das baterias, 3,4 GW) e Arizona (13%, 3,2 GW), esses três estados concentram 80% de toda a capacidade de baterias dos EUA.

Eólica offshore finalmente sai do papel nos EUA
Dois mega projetos eólicos offshore que sofreram anos de atrasos finalmente devem entrar em operação em 2026:
- Vineyard Wind 1 (Massachusetts): 800 MW — será o primeiro parque eólico de grande escala dos EUA
- Revolution Wind (Rhode Island): 715 MW — segundo maior projeto offshore do país
Juntos, representam 1.515 MW de energia eólica marítima.
É o início de uma indústria que a Europa já domina há mais de uma década, com países como Reino Unido, Dinamarca e Alemanha liderando.
Além disso, o SunZia Wind no Novo México, com 3.650 MW, será o maior parque eólico onshore dos Estados Unidos quando estiver completo — superando qualquer instalação existente no país.
De menos de 1% para 17% em 20 anos
Nos últimos 20 anos, a participação de solar e eólica na geração elétrica americana saiu de menos de 1% para 17%.
Em números absolutos, solar e eólica juntas geraram 760.000 GWh de eletricidade em 2025.
Em janeiro de 2026, as renováveis já representavam mais de 25% de toda a eletricidade gerada e 36% de toda a capacidade instalada nos Estados Unidos.
É uma transformação que aconteceu mais rápido do que a maioria dos analistas previa no início dos anos 2010.
A projeção de 86 GW em 2026 não é um salto isolado — é a aceleração de uma tendência estrutural de duas décadas.
Por que 99% renovável nos EUA importa para o Brasil
Os Estados Unidos são o segundo maior consumidor de energia do planeta, atrás apenas da China.
Quando o segundo maior mercado do mundo decide que 99% da nova capacidade será limpa, isso envia um sinal inequívoco para investidores e fabricantes globais.
A escala americana pressiona os custos para baixo em todo o mundo.
Quanto mais painéis solares e baterias os EUA compram, mais barato fica para o Brasil, a Índia e outros países em desenvolvimento adotarem a mesma tecnologia.
Além disso, as empresas americanas de baterias e solar estabelecem cadeias de suprimento que depois são replicadas globalmente.

Ressalvas
As projeções da EIA são estimativas condicionais — “if realized”, como a própria agência destaca em seus relatórios oficiais.
Projetos de eólica offshore já sofreram atrasos significativos antes, e não há garantia de que Vineyard Wind e Revolution Wind cumpram o cronograma em 2026.
Além disso, gás natural ainda adiciona 6,3 GW, e a rede como um todo ainda depende fortemente de fósseis para a geração existente.
Carvão e gás natural juntos ainda representam a maioria da eletricidade efetivamente consumida pelos americanos.
Incertezas políticas também podem afetar o ritmo de novas instalações em anos futuros.
Contudo, análises recentes mostram que 60% mais renováveis estão sendo adicionadas em 2026 em comparação ao ano anterior — sugerindo que a tendência é econômica e estrutural, não apenas política.
Ainda assim, 86 GW num único ano — com 99% limpos — é uma mudança que nenhuma política consegue reverter facilmente, porque a economia das renováveis já venceu a dos combustíveis fósseis em custo por megawatt-hora na maioria dos mercados americanos.

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