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Cientistas bombearam água do mar para a superfície do Ártico durante o terceiro inverno mais quente já registrado na região e engrossaram o gelo em até 32 centímetros nas áreas testadas, ganho comparável à espessura perdida em 50 anos

Publicado em 18/06/2026 às 16:48
Atualizado em 18/06/2026 às 16:52
Cientistas bombearam água do mar e aumentaram a espessura do gelo do Ártico em até 32 cm, em teste contra o derretimento, mas os impactos seguem desconhecidos.
Cientistas bombearam água do mar e aumentaram a espessura do gelo do Ártico em até 32 cm, em teste contra o derretimento, mas os impactos seguem desconhecidos.
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O teste, feito em Cambridge Bay, no Canadá, pelas equipes da Real Ice e do Centre for Climate Repair, é a primeira evidência em campo de que a técnica pode mudar o ciclo do gelo. Mas é um experimento pequeno, e os impactos ambientais no Ártico ainda são desconhecidos.

Cientistas bombearam água do mar para a superfície do Ártico durante o inverno e conseguiram engrossar o gelo em até 32 centímetros nas áreas testadas, um ganho que eles descrevem como comparável à espessura perdida ao longo dos últimos 50 anos. O experimento foi conduzido pelas equipes da Real Ice e do Centre for Climate Repair, no território de Nunavut, no norte do Canadá, diante do derretimento acelerado da região.

A ideia é tão simples quanto ousada, mas ainda está em fase inicial. Segundo as equipes envolvidas, no inverno de 2024 e 2025, quando as temperaturas ficam abaixo de zero, a água do mar que está sob a camada de gelo foi bombeada para a superfície, onde congelou rapidamente e formou uma nova camada. As áreas tratadas também ficaram de 20% a 40% mais claras, o que pode ter ajudado a frear o degelo, embora seja um teste pequeno e os impactos ambientais ainda sejam desconhecidos. Dados da NOAA, a agência oceânica e atmosférica dos Estados Unidos, mostram que o gelo de verão do Ártico encolhe desde 1979.

Como funciona o bombeamento de água do mar

Recolhendo o equipamento no final do dia. Imagem: Real Ice.
Recolhendo o equipamento no final do dia. Imagem: Real Ice.

A técnica testada no Ártico parte de um gesto direto. No inverno, quando as temperaturas da região ficam abaixo de zero, cientistas da Real Ice e do Centre for Climate Repair bombearam a água do mar que fica embaixo da camada de gelo para a superfície, onde, em contato com o ar extremamente frio, ela congela rápido e forma uma nova camada de gelo.

(a) Projeto do local de teste em Cambridge Bay, (b) Esquema do sistema de bombeamento. A escala vertical é de aproximadamente 2–3 m; a saída da bomba fica a aproximadamente 50 cm acima da superfície. (c) Bombeamento de água do mar sobre o gelo.
(a) Projeto do local de teste em Cambridge Bay, (b) Esquema do sistema de bombeamento. A escala vertical é de aproximadamente 2–3 m; a saída da bomba fica a aproximadamente 50 cm acima da superfície. (c) Bombeamento de água do mar sobre o gelo.

Os números do teste impressionam, mas pedem leitura cuidadosa. O experimento ocorreu durante o inverno de 2024 e 2025 em Cambridge Bay, no território de Nunavut, no norte do Canadá, e, nas áreas tratadas, o gelo ficou até 32 centímetros mais espesso do que nas que não foram tocadas. Esse ganho, segundo os pesquisadores, equivale à espessura perdida ao longo dos últimos 50 anos, ou seja, é uma marca comparável à perda de décadas, e não uma reversão de todo o gelo do Ártico.

O gelo ficou mais grosso e mais claro

imagem: Real Ice
Cientistas testaram no norte do Canadá uma técnica para aumentar a espessura do gelo no Ártico
imagem: Real Ice
Cientistas testaram no norte do Canadá uma técnica para aumentar a espessura do gelo no Ártico

Além de mais espessas, as áreas tratadas mudaram de aparência. Elas ficaram de 20% a 40% mais claras durante o período de degelo, algo que pode ter ajudado a diminuir a velocidade do derretimento, já que um gelo mais claro reflete mais luz solar de volta para o espaço.

Centre for Climate Repair
Local da pesquisa da Real Ice em Cambridge Bay
Centre for Climate Repair
Local da pesquisa da Real Ice em Cambridge Bay

O efeito, porém, ainda não tem explicação fechada. Os pesquisadores não sabem ao certo por que o gelo tratado ficou mais claro, e entender isso, além de medir melhor a sua capacidade de refletir a luz, é um dos próximos passos. Por enquanto, esse clareamento é uma observação promissora, mas ainda sem causa definida, dentro do experimento no Ártico.

A primeira evidência em campo, mas ainda com ressalvas

O que torna o resultado relevante é o tipo de teste por trás dele. Foi o primeiro feito em condições reais ao longo de todo o ciclo anual do gelo, do crescimento no inverno ao derretimento no verão, e por isso virou a primeira evidência em campo de que a técnica pode alterar o ciclo do gelo ao longo das estações, efeito que antes só havia aparecido em simulações de computador.

Ainda assim, os cientistas tratam tudo como ponto de partida, não como solução. Eles agora querem saber se o reforço pode de fato diminuir a perda de gelo das últimas décadas, se o método funcionaria em outras regiões do Ártico e em áreas muito maiores e, principalmente, se a técnica causa impactos ambientais, algo que segue sem resposta. São justamente essas dúvidas que separam um experimento promissor de uma ferramenta confiável.

Um dos invernos mais quentes e o desafio de aumentar a escala

O contexto torna o resultado ainda mais chamativo. O inverno de 2024 e 2025 foi o terceiro mais quente já registrado na região de Cambridge Bay, cerca de 4°C acima da média histórica, o que torna os achados ainda mais relevantes para entender como o ciclo do gelo se comporta em um cenário de aquecimento.

A escala, no entanto, é a grande pergunta em aberto. O teste cobriu áreas pequenas, e os próximos trechos podem chegar a até um quilômetro quadrado, uma fração mínima de um Ártico que se estende por milhões de quilômetros quadrados, razão pela qual a equipe também quer descobrir se a técnica funcionaria em regiões muito maiores. Sem essa resposta, o método continua restrito a manchas isoladas de gelo.

Novos testes até 2028 e o projeto RASI

A pesquisa faz parte de uma iniciativa maior voltada ao Ártico. O trabalho integra o projeto RASI, voltado a reespessar o gelo marinho da região e ligado à Universidade de Cambridge, que recebeu financiamento de R$ 67,4 milhões, o equivalente a 9,9 milhões de libras esterlinas.

O calendário já está traçado para os próximos anos. Os novos testes devem acontecer entre 2026 e 2028 em duas regiões de Nunavut, e, caso as análises mostrem que a técnica não causa impactos ambientais, as áreas de teste poderão chegar a um quilômetro quadrado. Os pesquisadores também querem usar simulações de computador para avaliar o método em pontos estratégicos, como o Estreito de Nares, uma passagem natural por onde grandes blocos de gelo seguem em direção ao Oceano Atlântico.

A urgência por trás do experimento aparece nos dados: segundo a NOAA, a área de gelo marinho do Ártico ao fim do verão encolheu, em média, 12,1% por década entre 1979 e 2024, e os 18 menores registros para setembro ocorreram todos entre 2007 e 2024.

Diante desse quadro, bombear água do mar para engrossar o gelo é uma ideia promissora, mas ainda preliminar e de pequena escala, cuja viabilidade em larga escala e segurança ambiental seguem desconhecidas, e que não substitui o corte das emissões que provocam o aquecimento. As áreas tratadas ganharam até 32 centímetros de espessura, marca comparável à perda de décadas, mas transformar um teste de campo em uma ferramenta para todo o Ártico continua sendo uma questão em aberto.

E você, o que acha dessa tentativa de recongelar o Ártico bombeando água do mar? É uma ferramenta promissora contra o derretimento ou um risco que pode desviar a atenção do corte de emissões? Comente a sua opinião e troque ideias com outros leitores sobre clima e meio ambiente, com respeito às diferentes visões.

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Maria Heloisa Barbosa Borges

Falo sobre construção, mineração, minas brasileiras, petróleo e grandes projetos ferroviários e de engenharia civil. Diariamente escrevo sobre curiosidades do mercado brasileiro.

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