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Empresa que perfurava petróleo furou 4,8 quilômetros de rocha em Utah e encontrou calor de 290 graus que nunca acaba — agora constrói a primeira usina geotérmica comercial de nova geração do mundo, com 100 MW ligados à rede em junho de 2026

Escrito por Douglas Avila
Publicado em 22/04/2026 às 18:45
Atualizado em 22/04/2026 às 23:08
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Uma empresa que usava técnicas de fraturamento de petróleo furou mais de 4 quilômetros de rocha no deserto de Utah e encontrou calor de 290 graus Celsius — agora está construindo a primeira usina geotérmica comercial de nova geração do mundo

A Fervo Energy, uma startup americana fundada por engenheiros de petróleo, acaba de atingir o poço mais quente de sua história: 555°F (291°C) a aproximadamente 3.400 metros de profundidade no deserto de Utah.

Segundo a Fervo Energy, o poço exploratório no Projeto Blanford, em Millard County, Utah, foi perfurado em menos de 11 dias — recorde da empresa.

Mas o marco mais importante não é a profundidade. É o que vem depois: a Fervo está construindo no mesmo estado a Cape Station, que será a primeira usina geotérmica de sistema aprimorado (EGS) em escala comercial do mundo, com 100 MW de capacidade conectados à rede em junho de 2026.

É a prova de que o calor infinito da Terra pode competir com solar, eólica e gás natural — 24 horas por dia, sem depender de sol ou vento.

O que é geotermia aprimorada — e por que é diferente de tudo que existia

A geotermia tradicional depende de reservatórios naturais de água quente subterrânea. São raros. Existem apenas em locais como Islândia, Quênia ou norte da Califórnia, onde o calor da Terra está próximo da superfície.

A geotermia aprimorada (EGS — Enhanced Geothermal Systems) resolve essa limitação. Em vez de procurar água quente, os engenheiros criam o reservatório.

Perfuram até rocha quente e seca a quilômetros de profundidade. Injetam água sob pressão para abrir fraturas na rocha. A água circula pelas fraturas, absorve o calor e volta à superfície como vapor, que gira uma turbina.

É a mesma técnica de fraturamento hidráulico usada no petróleo — mas em vez de extrair óleo, extrai calor.

A diferença crucial: o calor da Terra não acaba. Enquanto houver planeta, haverá calor a poucos quilômetros de profundidade. É energia renovável no sentido mais literal.

Usina geotérmica com vapor saindo de poços no deserto de Utah
A Cape Station da Fervo Energy em Utah será a primeira usina geotérmica EGS comercial do mundo — 100 MW de energia limpa, 24 horas por dia, sem depender de sol ou vento.

De 365°F a 555°F: como a Fervo está esquentando cada vez mais rápido

A trajetória da Fervo mostra uma escalada impressionante de temperaturas:

  • Projeto Red (Nevada): 365°F (185°C) — primeiro teste comercial
  • Cape Station (Utah): 400°F (204°C) — usina de 100 MW em construção
  • Projeto Blanford (Utah): 555°F (291°C) — recorde da empresa, fevereiro 2026

O poço mais profundo da Fervo até agora atingiu 15.765 pés (4.806 metros) na Cape Station, com temperatura projetada de 500°F (260°C).

Cada avanço em profundidade e temperatura aumenta a eficiência da geração. Quanto mais quente a rocha, mais vapor, mais energia por poço perfurado.

Cape Station: 100 MW em junho de 2026 — e 400 MW até 2028

A primeira fase da Cape Station, em Beaver County, Utah, está programada para conectar 100 MW à rede em junho de 2026. Será o primeiro EGS comercial do mundo em escala de utilidade.

A expansão para 400 MW está prevista para 2028. Quando completa, a Cape Station gerará energia suficiente para centenas de milhares de residências — sem emissões, sem combustível, sem intermitência.

A usina opera 24 horas por dia, 365 dias por ano. Diferente de solar e eólica, não depende de condições climáticas. Diferente de nuclear, não produz resíduos radioativos.

Trabalhadores de perfuração operando equipamento de geotermia, transição do petróleo para energia limpa
Engenheiros que perfuravam poços de petróleo agora usam as mesmas técnicas para extrair calor infinito da Terra — a Fervo é liderada por veteranos da indústria de O&G.

US$ 421 milhões e status de unicórnio: Wall Street aposta na geotermia

A Fervo Energy levantou US$ 421 milhões em empréstimo não recursivo para a Cape Station — o maior financiamento já obtido por uma empresa de geotermia aprimorada.

A empresa atingiu avaliação de unicórnio (acima de US$ 1 bilhão) após rodadas de investimento lideradas por Google e Breakthrough Energy Ventures (fundo de Bill Gates).

Os ímãs supercondutores da empresa parceira Commonwealth Fusion Systems, que operam a 20 Tesla — 40 vezes mais fortes que uma ressonância magnética de hospital — também estão sendo testados para futuras aplicações geotérmicas de ultra-profundidade.

De petróleo para calor: a transição que faz sentido

A Fervo foi fundada por pessoas que passaram a carreira perfurando poços de petróleo. Eles levaram para a geotermia tudo que a indústria de O&G aprendeu em 100 anos: perfuração direcional, fraturamento hidráulico, sensores de fundo de poço e logística de campo.

A ironia é poderosa. As mesmas técnicas que extraíram bilhões de barris de petróleo — e contribuíram para as mudanças climáticas — agora estão sendo usadas para gerar energia limpa infinita.

Para trabalhadores do setor de petróleo que enfrentam o declínio dos combustíveis fósseis, a geotermia aprimorada oferece uma transição natural: mesmas habilidades, mesmo equipamento, propósito diferente.

Rocha quente brilhando com calor geotérmico em profundidade extrema
A 4,8 km de profundidade, a rocha atinge 260°C — calor suficiente para gerar vapor e eletricidade continuamente, sem combustível e sem emissões.

Os desafios que a geotermia aprimorada ainda precisa superar

Apesar do entusiasmo, o EGS ainda é uma tecnologia em maturação.

A perfuração a 5 quilômetros de profundidade é cara — muito mais que poços convencionais. Cada poço que não encontra temperatura suficiente é dinheiro perdido.

A indução de fraturas por pressão pode causar microssismos. Embora geralmente imperceptíveis, projetos anteriores em Basel (Suíça) e Pohang (Coreia do Sul) foram cancelados após tremores sentidos pela população.

A escala também é um desafio. 100 MW é impressionante para EGS, mas pequeno comparado a uma usina nuclear (1.000 MW) ou a um grande parque solar (500+ MW).

Ainda assim, se a Cape Station funcionar como planejado, abrirá caminho para centenas de instalações similares. O calor existe em todo lugar — basta cavar fundo o suficiente.

A pergunta que o setor de petróleo precisa responder: se a mesma broca que perfura petróleo pode perfurar energia limpa infinita, por que continuar furando por óleo?

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Douglas Avila

Trabalho com tecnologia há 16 anos, hoje 100% focado em IA. Atuo como CAIO (Chief AI Officer) em São Paulo, com foco em receita. Formado em Sistemas para Internet pelo Senac. No Click Petróleo e Gás escrevo sobre tecnologia e inovação aplicadas aos setores estratégicos da economia brasileira: energia, indústria, transporte marítimo, automotivo, ciência e engenharia

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