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Energia eólica avança rumo ao mar no Brasil e amplia debate ambiental sobre aves migratórias e biodiversidade costeira

Escrito por Rannyson Moura
Publicado em 19/12/2025 às 11:11
Energia eólica offshore ganha força no Brasil, com destaque para projetos no Rio Grande do Sul, enquanto pesquisadores analisam impactos ambientais sobre aves e ecossistemas marinhos.
Energia eólica offshore ganha força no Brasil, com destaque para projetos no Rio Grande do Sul, enquanto pesquisadores analisam impactos ambientais sobre aves e ecossistemas marinhos.
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Energia eólica offshore ganha força no Brasil, com destaque para projetos no Rio Grande do Sul, enquanto pesquisadores analisam impactos ambientais sobre aves e ecossistemas marinhos.

A energia eólica alcançou um novo patamar no Brasil em 2024. De acordo com o boletim anual da Associação Brasileira de Energia Eólica e Novas Tecnologias (ABEEólica), o país gerou 107,58 terawatts-hora (TWh) a partir dessa fonte ao longo do ano. 

Esse volume seria suficiente para abastecer aproximadamente 47 milhões de residências durante um ano inteiro, considerando o consumo médio mensal de 191 kWh por domicílio.

O avanço contrasta com o cenário do início dos anos 2000, quando a participação da energia eólica era praticamente inexistente. A mudança ganhou tração a partir da Lei nº 10.438, de 2002, que instituiu o Programa de Incentivo às Fontes Alternativas de Energia Elétrica (Proinfa). 

A iniciativa abriu espaço para investimentos, garantiu contratos de longo prazo e consolidou a fonte como um dos pilares da transição energética brasileira.

Rio Grande do Sul se destaca na produção e projeta novo ciclo

Segundo a ABEEólica, o Rio Grande do Sul ocupou a quinta posição entre os estados que mais produziram eletricidade a partir do vento. A liderança nacional segue concentrada no Nordeste, onde fatores climáticos e geográficos favorecem a geração em terra firme. Ainda assim, o estado gaúcho desponta como protagonista no próximo estágio do setor.

Isso ocorre porque o Rio Grande do Sul reúne o maior número de projetos de energia eólica offshore em análise no país. Atualmente, são 30 propostas em processo de licenciamento ambiental. A movimentação reflete uma mudança de foco: do continente para o mar.

Até o momento, todos os parques eólicos brasileiros estão instalados em terra. Eles se concentram principalmente no litoral nordestino e no extremo sul do país. No entanto, a busca por novas áreas começa a encontrar limites físicos.

Limitações de espaço impulsionam parques no ambiente marinho

Para Saulo Barbosa, engenheiro florestal com 24 anos de atuação em licenciamentos ambientais de parques eólicos, a migração para o mar é resultado direto da escassez de grandes extensões terrestres disponíveis.

O especialista participou de projetos pioneiros no Rio Grande do Sul, como os parques de Osório e Santa Vitória do Palmar. Segundo ele, o interesse do setor privado tem sido determinante para o avanço dos Complexos Eólicos Offshore (CEO). “No sul, em Santa Vitória [do Palmar], eu acho que tem algumas áreas ainda [para novos parques eólicos], mas em outros locais não”, explica.

Assim, áreas aquáticas passam a ser vistas como alternativa viável para sustentar o crescimento da energia eólica no longo prazo.

Projeto no Porto de Rio Grande mira primeira plataforma offshore do país

Entre as iniciativas em destaque está o projeto Aura Sul Wind. A proposta prevê a instalação da primeira plataforma flutuante de energia eólica offshore do Brasil, no Porto de Rio Grande, no litoral gaúcho.

O empreendimento reúne diferentes instituições públicas, privadas e acadêmicas. Participam do projeto a Superintendência de Portos do Rio Grande do Sul, o Sindicato da Indústria de Energias Renováveis do RS (Sindienergia-RS), a empresa japonesa JB Energy e a Technomar Engenharia, responsável pelo monitoramento ambiental e operacional em tempo real.

Também integra o consórcio a Blue Aspirations Brazil, empresa chinesa especializada em sensoriamento ambiental, com atuação em projetos de grande escala no exterior.

Licenciamento ambiental ganha centralidade no debate

Com a perspectiva de expansão dos parques no mar, cresce também a atenção aos impactos ambientais. Órgãos licenciadores e pesquisadores buscam estabelecer diretrizes claras para a avaliação de riscos associados à energia eólica offshore.

Em 2022, o Centro Nacional de Pesquisa e Conservação de Aves Silvestres (Cemave), vinculado ao ICMBio, publicou a 4ª edição do Relatório de Áreas de Concentração de Aves Migratórias no Brasil. O documento orienta autoridades ambientais sobre pontos críticos que devem ser considerados no licenciamento de empreendimentos eólicos.

O relatório dedica um capítulo específico às eólicas offshore, elaborado por seis pesquisadores. Entre eles estão Guilherme Nunes, professor do Câmpus Litoral Norte da UFRGS, e Leandro Bugoni, professor da Universidade Federal do Rio Grande (FURG).

Impactos diretos e indiretos sobre aves marinhas

Para Leandro Bugoni, os efeitos da energia eólica offshore sobre a fauna marinha podem ocorrer de duas formas. A primeira é direta, por meio de colisões das aves com as hélices das turbinas.

“Os impactos diretos são comparáveis a acidentes de carros: as aves colidem nas hélices das turbinas. No mar, quando elas caem na água, raramente vão aparecer numa praia, e caso apareçam, podem ser confundidas a um animal encalhado, ou seja, não vai estar associado a essa causa de morte”.

Esse fator, segundo o pesquisador, dificulta a mensuração dos danos reais. Já os impactos indiretos estão ligados à ocupação do espaço marinho.

“Quando você instala uma estrutura no mar, você está tirando o espaço que as aves usam para se alimentar ou os corredores que elas usam para se deslocar durante a migração. Isso inclui também espécies que diariamente se deslocam das praias para o mar em busca de alimento e depois retornam. Elas vão ter barreiras. Vão ter locais em que elas não vão poder utilizar em função disso. Essas áreas, para elas, ficam reduzidas. Elas vão ter que procurar outro lugar para encontrar seu alimento”.

Altura das turbinas amplia zona de risco

Guilherme Nunes destaca que as dimensões das estruturas offshore ampliam o desafio ambiental. As torres atuais possuem cerca de 150 metros de altura, enquanto as pás alcançam aproximadamente 120 metros.

“Considerando a torre com a pá erguida, falamos de 270 metros de altura, abrangendo uma faixa vertical de 30 a 270 metros, que é exatamente a área onde muitas aves sobrevoam”.

O risco de colisão, no entanto, não é homogêneo. Ele varia conforme a altura do voo, a latitude, o comportamento noturno e o tipo de deslocamento das aves. Espécies que planam ou realizam voos mais lentos, com mudanças frequentes de direção, como fragatas e trinta-réis, apresentam maior vulnerabilidade.

Estudos apontam maior sensibilidade ambiental no Sul

Um estudo conduzido por Guilherme Nunes em parceria com a doutoranda Natascha Horn, da UFRGS, avaliou os impactos potenciais dos Complexos Eólicos Offshore projetados para toda a costa brasileira.

A pesquisa relacionou a ocorrência de aves marinhas e costeiras à altura das turbinas e às características de voo das espécies. Os resultados indicaram que o Rio Grande do Sul apresenta a maior suscetibilidade aos impactos da energia eólica offshore.

Segundo o pesquisador, esse cenário está associado à elevada riqueza de espécies e à grande oferta de alimento na região. “No Sul, recebemos espécies tanto do trópico quanto das regiões temperadas. Durante o verão chegam aves típicas de regiões tropicais, e no inverno aves de regiões temperadas, criando um cenário de grande riqueza biológica”, explica.

O diagnóstico reforça a importância de estudos ambientais detalhados à medida que a energia eólica avança do continente para o mar no Brasil.

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Rannyson Moura

Graduado em Publicidade e Propaganda pela UERN; mestre em Comunicação Social pela UFMG e doutorando em Estudos de Linguagens pelo CEFET-MG. Atua como redator freelancer desde 2019, com textos publicados em sites como Baixaki, MinhaSérie e Letras.mus.br. Academicamente, tem trabalhos publicados em livros e apresentados em eventos da área. Entre os temas de pesquisa, destaca-se o interesse pelo mercado editorial a partir de um olhar que considera diferentes marcadores sociais.

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