Endividamento das famílias avança, cartão de crédito vira renda e juros altos ampliam inadimplência no Brasil.
O que os números mostram e o que as famílias sentem no bolso seguem trajetórias opostas no Brasil.
Enquanto indicadores divulgados recentemente sugerem uma leve melhora econômica, quem convive com contas acumuladas relata que o aperto permanece.
Segundo especialistas, o endividamento das famílias continua elevado, impulsionado pelo uso crescente do cartão de crédito como complemento de renda, pela inadimplência persistente e pelos juros altos, o que força milhões de brasileiros à renegociação de dívidas como única alternativa.
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O fenômeno ocorre em todo o país, atinge todas as faixas etárias e ganha força justamente agora, quando a inflação desacelera e os primeiros sinais de alívio estatístico aparecem.
Endividamento cresce mesmo com melhora dos indicadores
De acordo com o Serasa, 80,4 milhões de brasileiros estão endividados, acumulando 321 milhões de dívidas que totalizam R$ 509 bilhões.
A média por pessoa ultrapassa R$ 6,3 mil, enquanto cada débito individual gira em torno de R$ 1.584,96.
Apesar do leve recuo do índice agregado para 79,2% em novembro — a primeira queda após nove meses — a distância entre estatística e realidade permanece ampla.
A CNC destaca que o quadro é mais severo entre famílias de baixa renda. Entre quem ganha até três salários mínimos, 82,5% estão endividados.
Na faixa de três a cinco salários, o índice atinge 81,1%. Pequenos desequilíbrios financeiros são suficientes para comprometer o orçamento por completo.
Cartão de crédito vira renda e empurra famílias para a inadimplência
No cotidiano de milhões de brasileiros, o cartão deixou de ser apenas um meio de pagamento e se transformou em fonte de renda imediata.
Quando o salário não fecha as contas, é ele quem sustenta a despensa.
“Cartão de crédito acaba que hoje em dia é uma bola de neve. […] hoje usa para comprar alimento no dia a dia, porque o dinheiro do final do mês não supre todas as contas”, relatou o autônomo Luiz Fernando Mamede, de 23 anos.
A Selic em 15% ao ano e a inflação acumulada de 4,4% tornam o crédito caro, especialmente para quem precisa parcelar despesas básicas.
Mesmo itens essenciais subiram acima da média, reduzindo a capacidade de amortização.
Como consequência, o comprometimento da renda com dívidas atingiu 28,8%, o maior nível da série histórica, segundo o Banco Central.
Apenas juros consomem 10,23% dessa renda.
Juros altos pressionam empreendedores e ampliam renegociação de dívidas
O aperto afeta também pequenos negócios. A microempresária Vanda Cristina Pereira, mãe de seis filhos, resume o desafio:
“Às vezes os impostos são tão grandes, as contas são tão grandes, as dificuldades são tão grandes, que acaba no final, recebendo muito menos do que o nosso próprio funcionário.”
Como reflexo, renegociar virou rotina. O limite do cartão, conta ela, funciona como “linha de sobrevivência”, impedindo que a situação evolua para inadimplência.
Renegociação de dívidas alivia, mas não resolve o problema estrutural
Para o pesquisador Flávio Ataliba, do FGV Ibre, o principal motor do endividamento das famílias é justamente o cartão.
“Praticamente mais de 90% das dívidas acontecem com o cartão de crédito”, afirma.
Ele alerta que, quando o cartão passa a funcionar como “renda contínua”, a bola de neve é inevitável. Ao não conseguir pagar a fatura cheia, o consumidor cai no rotativo — modalidade com juros que ultrapassam 400% ao ano — e o valor devido se multiplica rapidamente.
Mesmo iniciativas de renegociação, como o programa Desenrola, têm alcance limitado. “O programa foi um alívio temporário […] A tendência estrutural permanece”, reforça Ataliba.
O economista-chefe da CNC, Fabio Bentes, concorda. Programas de renegociação de dívidas reduzem o impacto imediato, mas não resolvem o cerne do problema: crédito caro e renda insuficiente.
Seguro prestamista surge como amortecedor pouco explorado
Quando não há margem financeira, qualquer imprevisto empurra famílias para a negativação. Nesse cenário, o seguro prestamista aparece como alternativa ainda pouco difundida.
A presidente da Comissão de Risco da Fenaprevi, Ana Flávia Ribeiro, destaca o potencial do setor:
“Hoje, no Brasil, em torno de 6% do PIB corresponde a operações de seguro […] o mercado tem bastante para crescer.”
O prestamista pode quitar integralmente ou amortizar dívidas em caso de desemprego, doença ou morte, funcionando como um “airbag financeiro”. O produto já responde por 49% dos prêmios do setor e 53% das indenizações.
Entre estatística e vida real: o Brasil do dado e o Brasil do bolso
Então apesar dos sinais de melhora, a rotina de Luiz Fernando, Vanda e milhões de famílias mostra que o sufoco persiste.
Especialistas apontam que juros mais baixos por um período prolongado, aumento consistente da renda e educação financeira são essenciais para reverter o cenário.
Enquanto isso, o cartão de crédito continua sendo ao mesmo tempo porta de entrada para o consumo e principal vetor do endividamento das famílias, da inadimplência e da dependência crescente da renegociação de dívidas.

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