A aquisição da única mina de terras raras em operação no Brasil por uma empresa dos Estados Unidos marca um novo capítulo na disputa global por minerais estratégicos. Em uma operação avaliada em cerca de R$ 13,9 bilhões (US$ 2,8 bilhões), a norte-americana USA Rare Earth (USAR), listada na Nasdaq, anunciou a compra de 100% do Grupo Serra Verde, responsável pela mina de Pela Ema, em Goiás.
Além de representar um dos maiores investimentos recentes no setor mineral brasileiro, o movimento reforça, sobretudo, a importância crescente das terras raras na transição energética e na geopolítica global.
O que está por trás da compra da Serra Verde
A aquisição ocorre em um contexto de disputa internacional por cadeias de suprimento mais seguras e menos dependentes da Ásia. Atualmente, a China responde por cerca de 90% da produção global de terras raras processadas, o que, por sua vez, concentra o controle sobre preços e oferta desses materiais.
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Diante disso, países como os Estados Unidos têm intensificado investimentos em ativos estratégicos ao redor do mundo. Nesse cenário, a compra da Serra Verde surge como um movimento direto para reduzir essa dependência e fortalecer uma cadeia de produção fora do eixo asiático.
Segundo comunicado da própria empresa, o objetivo é construir uma operação global integrada, que envolva desde a mineração até a fabricação de ímãs permanentes — componentes essenciais para diversas indústrias tecnológicas.
Por que a mina brasileira é estratégica
A relevância da Serra Verde vai muito além de sua localização. Isso porque ela é, atualmente, a única mina de argilas iônicas em operação no Brasil e uma das poucas fora da Ásia capaz de produzir terras raras pesadas em escala comercial.
Entre os principais elementos extraídos estão:
- Disprósio (Dy)
- Térbio (Tb)
- Ítrio (Y)
Esses materiais são considerados críticos porque são utilizados na fabricação de tecnologias de alto valor agregado, como:
- veículos elétricos
- turbinas eólicas
- semicondutores
- sistemas de defesa
- robótica e inteligência artificial
Ou seja, além de seu valor econômico, essas matérias-primas têm papel central na chamada economia do futuro.
Para entender melhor a importância desses minerais, você pode conferir este guia da Comissão Europeia sobre matérias-primas críticas.
Estrutura do negócio e impacto financeiro
O acordo prevê o pagamento de US$ 300 milhões em dinheiro, além da emissão de ações da própria USAR, totalizando cerca de US$ 2,8 bilhões.
Além disso, a operação inclui um contrato de fornecimento de 15 anos para 100% da produção inicial da mina, com preços mínimos garantidos — o que, consequentemente, aumenta a previsibilidade de receita e reduz riscos para o projeto.
Outro ponto relevante é o apoio direto do governo dos Estados Unidos, que já havia estruturado financiamentos bilionários para o setor. Isso evidencia que o movimento não é apenas empresarial, mas também estratégico do ponto de vista geopolítico.
Brasil entra no radar global das terras raras
Com essa aquisição, o Brasil passa a ocupar uma posição ainda mais relevante no mapa global de minerais críticos. O país possui a segunda maior reserva de terras raras do mundo, atrás apenas da China, o que naturalmente desperta interesse de grandes potências econômicas.
Ao mesmo tempo, o governo brasileiro já discute formas de ampliar o controle sobre esses recursos, incluindo a possibilidade de criação de uma estatal voltada à exploração de terras raras.
Esse cenário levanta um debate importante: até que ponto o país deve priorizar a exportação de recursos ou investir em industrialização local e agregação de valor.
Produção deve crescer e atrair novos investimentos
Atualmente, a produção da mina de Pela Ema ainda está em fase inicial. No entanto, há expectativa de expansão significativa nos próximos anos, com possibilidade de dobrar a capacidade até 2030.
Além disso, estimativas indicam que a produção pode alcançar cerca de 6.400 toneladas anuais de óxidos de terras raras até 2027, consolidando o projeto como um dos principais fora da Ásia.
Com isso, a tendência é que novos investimentos em pesquisa, infraestrutura e processamento avancem no país, especialmente se houver políticas públicas alinhadas ao desenvolvimento do setor.
Terras raras: o novo petróleo da economia global?
Cada vez mais, especialistas apontam que as terras raras podem desempenhar um papel semelhante ao do petróleo no século XX. Isso porque esses elementos são fundamentais para tecnologias que sustentam a transição energética e a digitalização da economia.
Para aprofundar o tema, vale conferir este relatório da Agência Internacional de Energia (IEA) sobre minerais críticos.
Nesse contexto, garantir acesso a esses recursos deixou de ser apenas uma questão econômica e passou a ser uma prioridade estratégica para governos ao redor do mundo.

O que muda para o Brasil e para o mercado global
A compra da Serra Verde não é apenas uma transação isolada. Pelo contrário, ela sinaliza uma mudança estrutural no mercado global de minerais críticos.
Por um lado, o Brasil ganha relevância e atrai investimentos internacionais. Por outro, aumenta o debate sobre soberania, industrialização e posicionamento estratégico do país nesse novo cenário.
Além disso, a operação reforça a tendência de reorganização das cadeias produtivas globais, com países buscando diversificar fornecedores e reduzir riscos geopolíticos.
O que esperar dos próximos movimentos
A evolução desse mercado dependerá de fatores como:
- avanço da transição energética
- políticas industriais e minerais no Brasil
- disputa geopolítica entre Estados Unidos e China
- investimentos em tecnologia e processamento
Dessa forma, embora o cenário ainda esteja em construção, a aquisição da Serra Verde já indica que o Brasil pode se tornar um dos protagonistas na nova economia baseada em minerais críticos.

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