A OPÉP+ decidiu abrir a torneira em mais 188 mil barris por dia em julho e o petróleo respondeu da forma que o mercado temia: caiu de US$ 112 para US$ 89 o barril em menos de dois meses — o patamar mais baixo desde que o cartel começou a cortar produção em 2022
A decisão tomada na reunião do grupo em junho de 2026 faz parte do processo que a OPÉP+ chama de “reversão gradual e ordenada” dos cortes voluntários adicionais implementados em abril de 2023. Na prática, o grupo de 23 países produtores — liderado por Arábia Saudita e Rússia — está desfazendo, passo a passo, as reduções que realizou para sustentar os preços acima de US$ 80 o barril. O aumento de julho é o terceiro incremento consecutivo do grupo desde o início de 2026.
O que torna a situação complicada é que o mercado já estava em processo de digestão de um excesso de oferta antes mesmo da decisão de julho. Projeções da Agência Internacional de Energia estimam um superávit global de aproximadamente 3,8 milhões de barris por dia em 2026 — um volume considerável para um mercado que consome cerca de 103 milhões de barris diários. Com a OPÉP+ injetando mais oferta numa bacia que já estava transbordando, a pressão sobre os preços se intensificou.
Por que o cartel continua aumentando a produção mesmo com os preços caindo? A resposta tem várias camadas. A Arábia Saudita precisa de preços acima de US$ 80 para equilibrar seu orçamento público, mas também não quer perder participação de mercado para produtores que não fazem parte do acordo — especialmente os Estados Unidos, que bateram recordes de produção de shale em 2025 sem qualquer restrição de cota. Se a OPÉP mantiver cortes prolongados, incentiva os americanos a crescerem mais e ocupa menos espaço no mercado global.
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A Rússia, por sua vez, precisa de receita de petróleo para financiar o orçamento de guerra. Moscou tem produzido acima de suas cotas de forma consistente, e outros membros do grupo — Iraque, Emirados Árabes, Cazaquistão — também extrapolaram os limites acordados antes de apresentarem os planos de compensação. A disciplina produtiva dentro da OPÉP nunca foi perfeita, e em momentos de pressão orçamentária individual ela fica ainda mais fragmentada.
Para o Brasil, que não faz parte da OPÉP mas exporta petróleo pesado do pré-sal, a queda de preços aperta a margem. A Petrobras calcula seus investimentos com premissas de preço entre US$ 70 e US$ 80 o barril — a US$ 89, ainda há lucro, mas a folga para novos projetos fica menor. Se o preço continuar caindo em direção a US$ 70, a empresa começa a revisar planos de capital e adiar decisões de desenvolvimento de novos campos.
O consenso de analistas para o segundo semestre de 2026 aponta para um mercado pressionado. Demanda da China crescendo abaixo do esperado, shale americano em alta, OPÉP+ aumentando oferta: a combinação é deflacionária para o petróleo. Quem apostou em preços acima de US$ 100 neste ano vai ter que rever as planilhas. O equilíbrio do mercado depende agora de até onde a OPÉP+ está disposta a deixar o preço cair antes de mudar de estratégia.
A queda de US$ 112 para US$ 89 em dois meses é uma contração de 21% — suficiente para apertar receitas de países produtores, reduzir o número de poços de shale que fazem sentido economicamente nos EUA e pressionar companhias a reverem capex. O mercado está em compasso de espera para ver se a OPÉP+ vai piscar primeiro ou se vai manter o ritmo de aumento de oferta mesmo com os preços no menor nível em dois anos.
Você acha que o petróleo vai voltar a US$ 100 antes do fim do ano ou o mercado vai ficar nessa faixa dos US$ 80-90 por mais tempo do que a indústria gostaria? Comenta aqui.
