Pesquisa subaquática na Grécia encontrou cinco naufrágios, ânforas, portos antigos e mais de 20 âncoras bizantinas no mar Egeu.
Durante décadas, as águas entre as ilhas gregas de Karpathos e Saria foram vistas apenas como parte de uma antiga rota marítima do mar Egeu. Mas uma campanha arqueológica internacional transformou essa região em algo muito maior: um gigantesco arquivo submerso capaz de reconstruir mais de 2.600 anos de navegação, comércio e circulação de povos no Mediterrâneo oriental. Em uma das maiores pesquisas subaquáticas recentes realizadas na Grécia, arqueólogos completaram mais de 120 mergulhos entre 3 e 45 metros de profundidade, identificando cinco naufrágios, dezenas de ânforas comerciais, estruturas portuárias antigas e mais de 20 âncoras do período bizantino.
O conjunto de descobertas revelou uma rede marítima contínua que atravessa praticamente toda a história do Mediterrâneo, do século VII a.C. ao século XIX.
Mais de 40 especialistas participaram da pesquisa que investigou o norte de Karpathos e a ilha de Saria
A campanha foi coordenada pelo Ministério da Cultura da Grécia através da Ephorate of Underwater Antiquities em parceria com a Fundação Nacional Helênica de Pesquisa.
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Segundo as autoridades gregas, o trabalho reuniu mais de 40 cientistas e especialistas internacionais, incluindo equipes do Instituto Nacional de Antropologia e História do México e do Museu Marítimo Norueguês.
Os pesquisadores concentraram as operações no norte de Karpathos e na pequena ilha de Saria, uma área que aparece em registros históricos desde a Antiguidade e que ocupava posição estratégica entre o mar Egeu e o Mediterrâneo oriental.
Cinco naufrágios revelaram uma linha do tempo marítima que atravessa 26 séculos
Uma das descobertas mais importantes foi a identificação de cinco naufrágios distintos. Quatro deles pertencem à Antiguidade e ao período romano, enquanto um está associado a uma época muito mais recente. Alguns dos navios ainda preservavam parte da carga original no fundo do mar.

Segundo os pesquisadores, o conjunto cobre uma cronologia que vai do final do século VII a.C. até a primeira metade do século XIX d.C., criando uma sequência arqueológica extremamente rara para o estudo da navegação mediterrânea.
Ânforas ainda preservam a memória das antigas rotas comerciais do Mediterrâneo
Diversos naufrágios foram encontrados com grandes quantidades de ânforas. Esses recipientes cerâmicos eram usados para transportar produtos como vinho, azeite, conservas e outros bens comerciais que circulavam entre portos do Mediterrâneo antigo.
Em alguns casos, as ânforas permaneciam agrupadas exatamente onde estavam quando as embarcações afundaram séculos atrás. Isso permite aos arqueólogos reconstruir padrões de comércio, origem das mercadorias e conexões econômicas entre diferentes regiões do mundo antigo.
Mais de 20 âncoras bizantinas indicam que a região funcionava como um corredor marítimo estratégico
Entre os achados mais impressionantes estão as âncoras encontradas na baía protegida de Tristomo. Os pesquisadores registraram mais de 20 âncoras do período bizantino, uma concentração considerada incomum para uma área relativamente pequena.
Segundo o Ministério da Cultura da Grécia, a quantidade de âncoras sugere tráfego marítimo intenso durante a Antiguidade Tardia, indicando que o local funcionava como ponto de parada para embarcações que cruzavam o Egeu e o Mediterrâneo oriental.
Estruturas portuárias submersas mostram que Karpathos possuía infraestrutura marítima organizada
A pesquisa não encontrou apenas navios. Os arqueólogos também documentaram restos de instalações portuárias antigas espalhadas ao longo da costa.

Essas estruturas ajudam a confirmar que a região possuía infraestrutura marítima organizada e integrada às rotas comerciais do Mediterrâneo.
Segundo os pesquisadores, os vestígios indicam que Karpathos desempenhou papel muito mais importante no comércio marítimo antigo do que se imaginava anteriormente.
Descobertas estão ligadas a cidades mencionadas por Estrabão há quase 2 mil anos
Grande parte dos mergulhos foi realizada próximo aos sítios arqueológicos de Vrykous e Nisyros. Essas localidades faziam parte da chamada Tetrapólis de Karpathos, conjunto de cidades citado pelo geógrafo grego Estrabão em sua obra Geographica.
A conexão entre os vestígios terrestres e os achados submersos permitiu aos pesquisadores reconstruir parte da relação histórica entre assentamentos costeiros, portos e rotas de navegação da região. Os materiais documentados cobrem um intervalo temporal extraordinário.
Os achados atravessam o período arcaico grego, a era clássica, o domínio romano, a fase bizantina e chegam até a era moderna.
Isso transforma a região em uma espécie de cápsula do tempo marítima capaz de mostrar como diferentes civilizações utilizaram as mesmas rotas durante mais de dois milênios. Poucos lugares do Mediterrâneo oferecem uma sequência histórica tão longa preservada sob a água.
Projeto também investiga como proteger sítios arqueológicos do impacto das mudanças climáticas
Paralelamente à pesquisa histórica, os cientistas conduziram um programa voltado para conservação subaquática.
O objetivo foi testar métodos de preservação direta dos artefatos no ambiente marinho diante dos riscos provocados por alterações climáticas, tempestades mais intensas e mudanças nas condições oceânicas.

A iniciativa foi aplicada em áreas próximas de Kasos, ao sul de Karpathos, e integra um esforço crescente para proteger patrimônios arqueológicos que permanecem escondidos sob o mar.
Mar Egeu continua revelando uma história que permaneceu invisível por séculos
Os pesquisadores acreditam que a região ainda guarda muitos outros sítios arqueológicos não identificados.
A combinação entre naufrágios, portos antigos, ânforas e âncoras mostra que Karpathos ocupava uma posição central em uma rede marítima que conectava diferentes partes do Mediterrâneo muito antes da formação dos estados modernos.
Sob as águas do Egeu, a poucos metros da superfície, permanece escondida uma história construída por mercadores, marinheiros e impérios que cruzaram o mar durante mais de 26 séculos e que agora começa a reaparecer peça por peça.


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