Biodiversidade escondida na Patagônia confundia a ciência e um estudo agora confirma duas novas espécies de fungos exclusivas da Argentina
Um artigo científico publicado em dezembro de 2025 descreveu duas novas espécies de fungos do gênero Cyttaria, registradas em florestas andino patagônicas da Argentina. A pesquisa combinou trabalho de campo e análises genéticas para separar organismos muito parecidos entre si. O resultado reforça o valor ecológico da região e a necessidade de conservação.
A Patagônia argentina entrou no radar da micologia mundial após a confirmação de duas espécies inéditas de fungos que não haviam sido registradas formalmente pela ciência. O trabalho saiu na revista Mycological Progress em 8 de dezembro de 2025, publicada pela Springer Nature.
O estudo descreve Cyttaria gamundiae e Cyttaria pumilionis, fungos associados a árvores da família Nothofagaceae. As duas espécies foram identificadas como parasitas da lenga (Nothofagus pumilio), árvore típica de áreas frias e altas do sul da América do Sul.
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A pesquisa tem participação de cientistas ligados ao sistema científico argentino e reúne autores como Yamila Arias e Gabriela C. González, além de outros especialistas do grupo. A própria produção científica aparece registrada em bases institucionais do Conicet, que listam o artigo e sua vinculação à revista.
Além do impacto acadêmico, a descoberta chama atenção por indicar que a biodiversidade local pode estar subestimada mesmo em grupos relativamente conhecidos e até com espécies comestíveis populares. O gênero Cyttaria inclui o chamado llao llao, também conhecido como pan de indio, associado a árvores do gênero Nothofagus.
O que o estudo descreveu e por que ele muda o mapa dos fungos Cyttaria na Patagônia argentina
O foco do artigo é uma revisão do gênero Cyttaria no extremo sul, com a descrição formal de duas espécies novas para a ciência. No resumo do trabalho, os autores indicam que elas são biotróficas obrigatórias e foram encontradas em florestas andinas da Argentina, com registros citados para Chubut e Terra do Fogo.
Um ponto central é que Cyttaria gamundiae e Cyttaria pumilionis se parecem muito com espécies já reconhecidas. O texto científico menciona semelhanças morfológicas com C. hookeri e C. hariotii, o que ajuda a entender por que esses exemplares ficaram “escondidos” por tanto tempo em meio a classificações anteriores.
Na prática, a publicação amplia a lista de espécies conhecidas na região e reforça a ideia de endemismo, já que a descrição está ligada a ecossistemas patagônicos específicos. Isso também abre caminho para novas perguntas sobre coevolução entre fungos e árvores hospedeiras.
Como foram as coletas nas florestas andino patagônicas e o que chamou atenção em 2022
Segundo informações divulgadas na Argentina, as coletas ocorreram em áreas com lengas e outras formações de Nothofagus, incluindo províncias como Neuquén, Río Negro, Chubut e Terra do Fogo. O mesmo relato aponta que, nas primeiras observações de 2022, surgiram diferenças morfológicas e ecológicas sutis em amostras tratadas anteriormente como uma única espécie.
A partir daí, a equipe avançou para uma revisão mais ampla, combinando campo e laboratório para resolver a dúvida. Esse tipo de investigação é comum quando um grupo tem espécies muito parecidas e quando fatores como ambiente e hospedeiro podem “mascarar” diferenças reais.
Genética e microscopia ajudaram a separar espécies quase idênticas
O artigo descreve um pacote de métodos que junta morfologia e genética para sustentar a criação das novas espécies. A etapa morfológica envolve documentação por microscopia, que ajuda a padronizar medidas e características observáveis dos corpos de frutificação.
A parte decisiva, porém, veio dos dados moleculares. Os autores relatam o uso de três marcadores genéticos, incluindo regiões nucSSU, nucLSU e TEF1, para comparar amostras e checar divergências consistentes.
Com esses dados, foram feitas análises filogenéticas para avaliar relações entre linhagens e níveis de variabilidade. O próprio resumo do artigo diz que as diferenças morfológicas existiam, mas eram sutis, e que a genética confirmou a separação com divergência alinhada a limites já aceitos para espécies no gênero.
Esse tipo de caso costuma ser classificado como fungos pseudocrípticos, quando organismos parecem iguais a olho nu, mas não são iguais do ponto de vista genético. O estudo destaca justamente a presença de pseudocryptic species em Cyttaria e indica que isso pode até tensionar conceitos sobre relação patógeno hospedeiro.
Como produto prático, o trabalho também informa a disponibilização de uma chave de identificação para espécies, algo útil para futuras pesquisas ecológicas e levantamentos de biodiversidade.
Endemismo e conservação ganham força com o alerta sobre biodiversidade invisível
A confirmação de espécies endêmicas reforça o argumento de que as florestas andino patagônicas funcionam como reservatórios de vida única. Quando uma região abriga espécies que não aparecem em nenhum outro lugar, qualquer pressão ambiental tende a ter consequências mais graves, já que não existe “população de reserva” fora dali.
O próprio artigo científico aponta a importância do enquadramento para pesquisas futuras e esforços de conservação, porque identificar corretamente uma espécie é o primeiro passo para monitorar distribuição, interação com hospedeiros e riscos associados a mudanças ambientais.
Há ainda um componente cultural e econômico indireto, já que Cyttaria inclui fungos comestíveis conhecidos na Patagônia, associados a árvores nativas e a usos tradicionais. A espécie Cyttaria hariotii, por exemplo, é descrita como comestível e parasita de Nothofagus, o que ajuda a contextualizar por que esse grupo chama tanta atenção na região.
Saber ancestral e homenagem a Irma Gamundi entram no centro da história
Relatos locais destacam que povos originários como os yaganes já diferenciavam tipos de Cyttaria observando a árvore hospedeira, uma pista empírica que dialoga com a ideia moderna de separar espécies por padrões consistentes. No mesmo contexto, é citada a homenagem do nome Cyttaria gamundiae à micóloga Irma Gamundi, reconhecida por contribuições ao estudo do gênero.
Sobre os yaganes, registros gerais apontam esse povo indígena como um dos grupos do extremo sul do continente, com território tradicional no arquipélago ao sul da Terra do Fogo. Essa conexão com a natureza local ajuda a explicar por que observações tradicionais podem antecipar perguntas que a ciência só formaliza décadas depois.
No fim, a descoberta vira também um lembrete sobre como conhecimento acadêmico e observação tradicional podem se complementar, principalmente em regiões onde biodiversidade e cultura caminham juntas.
Se essas espécies são tão parecidas que ficaram “escondidas” por anos, quantas outras ainda podem estar passando despercebidas na Patagônia e em outros biomas? E quando a ciência “redescobre” algo que povos originários já distinguiam, isso é reconhecimento ou apropriação do saber tradicional? Deixe seu comentário com sua opinião sobre essa discussão e sobre a importância de financiar pesquisa e conservar essas florestas únicas.

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