A escolha não é simples entre o sim e o não. Por uma lei dos anos 1970, os próprios indígenas viraram acionistas das empresas que exploram suas terras, e hoje uma mesma pessoa pode lucrar com a mina e, ao mesmo tempo, temer pelo rio que alimenta sua família. É o dilema entre o ouro e o salmão.
Debaixo do solo do Alasca há um depósito de ouro avaliado em mais de US$ 170 bilhões, mas o projeto da mina Donlin divide as comunidades nativas da região. De um lado, está a promessa de receitas bilionárias e empregos; de outro, o medo de que o cianeto usado na extração e os rejeitos da mineração contaminem as águas e ameacem o salmão, peixe do qual essas populações dependem para viver.
O dilema ganhou destaque com um estudo recente, divulgado no fim de maio de 2026, publicado no Journal of Anthropological Research e conduzido por pesquisadores da Universidade de Kyushu, no Japão. A análise mostra que as opiniões das comunidades nativas não se dividem de forma simples entre “a favor” e “contra”, porque cada grupo vive os riscos e as oportunidades de maneira diferente. O depósito de ouro de Donlin, na bacia do rio Kuskokwim, tornou-se assim o símbolo de um dos debates mais complexos sobre mineração e modo de vida tradicional.
Um dos maiores depósitos de ouro do mundo
A dimensão da jazida ajuda a entender por que o tema é tão sensível.
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O depósito de ouro de Donlin está entre os maiores ainda não explorados do planeta, com cerca de 39 milhões de onças estimadas, o que representa um valor superior a US$ 170 bilhões considerando os preços atuais do metal, uma fortuna capaz de transformar economicamente toda uma região remota.
Caso a mineração avance, o potencial financeiro é expressivo: empresas ligadas aos povos nativos poderiam receber receitas bilionárias, e os moradores locais teriam prioridade em vagas de emprego e oportunidades de desenvolvimento.
O projeto é tocado pela Donlin Gold, empresa controlada pelas mineradoras NovaGold e Barrick Gold, em terras cujos direitos pertencem a corporações indígenas da região, o que torna a equação ainda mais singular.
A lei de 1971 que transformou indígenas em acionistas
Para entender o impasse atual, é preciso voltar mais de cinco décadas no tempo.
Em 1971, uma lei americana conhecida como ANCSA transferiu parte dos direitos sobre terras e recursos para as comunidades indígenas do Alasca, mas exigiu que elas se organizassem como corporações com fins lucrativos, transformando os indígenas em acionistas dessas empresas.
Foi um modelo de gestão territorial e econômica único no mundo.
Essa estrutura criou uma situação curiosa e cheia de tensões internas: muitos indígenas passaram a ocupar, ao mesmo tempo, o papel de acionistas que podem lucrar com a exploração, de moradores que dependem da terra e de guardiões de territórios ancestrais.
Esses interesses nem sempre apontam para o mesmo lado, e é justamente aí que nasce a divisão de opiniões diante de um projeto como o de Donlin, que mexe com todas essas dimensões ao mesmo tempo.
O medo pelo salmão e pela água
Do lado das preocupações, o ponto mais sensível é ambiental.
A maior inquietação envolve o transporte de materiais por barcaças pelo rio Kuskokwim, já que a falta de estradas obrigaria a usar a via fluvial, o que poderia perturbar áreas de desova do salmão, peixe fundamental para a alimentação e a cultura de muitas comunidades que vivem da pesca de subsistência.
Some-se a isso o método de extração planejado, que prevê o uso de cianeto para separar o ouro das rochas e o armazenamento dos resíduos em grandes barragens de rejeitos.
Como esse tipo de barragem já falhou em outras minas pelo mundo, parte dos moradores teme que os riscos ambientais estejam sendo subestimados.
Não à toa, várias comunidades locais entraram com ações judiciais exigindo estudos mais aprofundados sobre os possíveis impactos do empreendimento.
Por que não há consenso entre as comunidades
A principal lição do estudo é que a realidade é mais complexa do que parece.
As opiniões não podem ser simplesmente separadas entre favoráveis e contrárias, porque cada comunidade enfrenta riscos e oportunidades de formas diferentes, dependendo de sua localização e de suas atividades tradicionais, o que torna o quadro cheio de nuances.
Os grupos que vivem rio abaixo, por exemplo, tendem a se preocupar mais com a contaminação da água e com os impactos sobre o salmão, do qual dependem para estocar comida no inverno.
Já as comunidades mais próximas da área da mina concentram suas atenções nos efeitos sobre a fauna terrestre e os ecossistemas locais.
E as divergências chegam ao interior das próprias famílias, onde uma mesma pessoa pode enxergar vantagens como acionista e, ao mesmo tempo, temer pelo futuro ambiental dos filhos e netos.
Os dois lados de um mesmo dilema
É importante dar voz a quem defende o projeto, e não apenas a quem o critica.
Empresas e parte das corporações nativas, como a Calista, defendem o que chamam de desenvolvimento responsável, argumentando que a mina pode gerar benefícios socioeconômicos importantes para uma região carente, ao mesmo tempo em que se comprometem a proteger a terra e a água das quais o modo de vida local depende.
Do outro lado, lideranças de comunidades como a Orutsararmiut e movimentos locais alertam que o projeto representaria uma ameaça existencial ao rio Kuskokwim e ao salmão, especialmente num momento em que a região já enfrenta uma crise na pesca.
Para esses grupos, nenhum benefício financeiro compensaria o risco de comprometer um recurso que sustenta a vida e a cultura de seu povo há milhares de anos.
É um debate em que ambos os lados têm argumentos legítimos.
Um espelho para o Brasil
Por mais distante que pareça, o caso do Alasca conversa diretamente com dilemas brasileiros.
O Brasil convive com tensões muito parecidas entre mineração, comunidades tradicionais e meio ambiente, seja no debate sobre garimpo em terras indígenas, seja nas tragédias de rompimento de barragens de rejeitos, como as de Mariana e Brumadinho, que deixaram marcas profundas.
O dilema de Donlin, portanto, é universal: como equilibrar o desenvolvimento econômico e a riqueza mineral com a preservação cultural e ambiental de quem vive na região?
Especialistas destacam que não existe resposta única, e que o caminho passa por respeitar as diferentes realidades e visões de cada comunidade.
É uma reflexão valiosa para um país como o Brasil, gigante mineral que enfrenta, cotidianamente, escolhas semelhantes entre o lucro do subsolo e a proteção de seus povos e ecossistemas.
O depósito de ouro de Donlin, no Alasca, é muito mais do que uma fortuna escondida sob a terra: é um retrato vivo de como decisões sobre recursos naturais raramente são simples.
Entre a promessa de prosperidade e o medo de perder o salmão e a água que sustentam um povo, as comunidades nativas se veem diante de uma escolha que pode mudar seu futuro para sempre.
O caso mostra que, quando o assunto é mineração, ouvir todas as vozes e respeitar as diferentes realidades é tão importante quanto medir o valor do que está debaixo do solo.
E você, o que faria diante de um dilema como esse? Acha que vale a pena explorar uma fortuna em ouro mesmo correndo riscos ambientais, ou a preservação do modo de vida e da natureza deve falar mais alto? Deixe seu comentário, conte sua opinião sobre o equilíbrio entre mineração e meio ambiente e compartilhe a matéria com quem se interessa por economia, sustentabilidade e direitos das comunidades tradicionais.

Deixaria do geito que está, se esses povos perderem o que a natureza lhes deu não a ouro no mundo que pague, apesar de um dia vir a ser explorado esse ouro .
Uma vez a natureza destruída jamais será restituída pela a ambição de fortuna,não somente o meio ambiente como os animais e tudo que tem vida neste lugar será totalmente devastador, destruição total,ea população nunca mais terão paz . Eu particularmente optaria pela natureza saudável.