Crise de mão de obra força empresas a buscar trabalhadores de fora, só que 85% entram por agências e alguns desembolsam até 6.000 euros antes mesmo de começar a trabalhar
A crise de mão de obra no Japão está criando uma cena que parece contraditória: o país precisa de trabalhadores estrangeiros com urgência, mas uma parte grande dessas pessoas ainda chega já com uma conta para pagar. Em vez de viajar com um contrato fechado e a vida encaminhada, muitos entram por um sistema de intermediários que cobra taxas altas só para abrir a porta.
Segundo a base, o Japão fechou 2025 com 2,57 milhões de trabalhadores estrangeiros, um recorde histórico. Só que esse número, por si só, não conta o lado menos óbvio: 85% chegam por agências, e há casos de cobranças que podem bater 6.000 euros antes mesmo do trabalhador pisar no país.
Por que o Japão passou a depender tanto de trabalhadores estrangeiros
A base aponta que a necessidade de “importar” trabalhadores vem de um cenário interno difícil, com baixas taxas de natalidade e vagas que não conseguem ser preenchidas com mão de obra local.
-
Brasil tem 8,4 milhões de analfabetos e mais da metade vive no Nordeste, onde 10,6% das pessoas não conseguem ler nem escrever um bilhete simples, contra 2,3% no Sudeste, segundo a Pnad Contínua Educação 2025 do IBGE
-
Grande economista cravou que em 2030 trabalharíamos só 15 horas por semana, e a previsão de John Maynard Keynes está prestes a fracassar feio quase 100 anos depois
-
Empresa brasileira fecha escritório de surpresa, demite dezenas por videochamada e deixa funcionários inseguros; cortes podem ter atingido 30% da equipe enquanto fintech com 1,5 milhão de clientes ativos mantinha vagas abertas e mirava R$ 1 bilhão em margem
-
Maior investimento por habitante do Brasil: cidade recebe R$ 1 bilhão em saneamento, aplica 322% acima da média nacional e ganha nova ETA capaz de fornecer mais 1.270 litros de água por segundo.
O Ministério da Saúde, Trabalho e Bem Estar do Japão registrou que o total de estrangeiros empregados chegou a 2,57 milhões no final de 2025, alta de 11,7% sobre o ano anterior e o 13º recorde consecutivo.
Em termos de ritmo, isso ajuda a entender o peso da crise de mão de obra: em cerca de uma década, o número de trabalhadores estrangeiros ficou quase três vezes maior.
O “pedágio” das agências antes do emprego começar
Não é o governo japonês que cobra para alguém trabalhar, mas uma rede de agências de recrutamento intermediárias que exige comissão antes mesmo da pessoa chegar.
De acordo com o estudo citado, 85% dos trabalhadores estrangeiros entraram no Japão por algum tipo de intermediário. A taxa mais comum varia entre 200.000 e 400.000 ienes, o equivalente a 1.200 a 2.400 euros. Mesmo assim, 13,2% relataram ter pago até 6.000 euros só pela oportunidade de conseguir emprego no Japão.
É aqui que a crise de mão de obra ganha uma camada mais dura: o país precisa de gente, mas muitos já começam endividados ou com custos altos logo no início.
Em quais setores os estrangeiros mais aparecem
Os dados também mostram onde essa mão de obra está concentrada. O setor manufatureiro representa 24,7% dos trabalhadores estrangeiros, seguido por serviços (15,2%) e comércio atacadista e varejista (13,3%).
Por cidade, Tóquio, Aichi e Osaka concentram mais de 43% desses trabalhadores. Isso indica que não se trata só de “algumas vagas”, mas de setores inteiros e regiões-chave que já contam com estrangeiros para manter o funcionamento.
Conflitos trabalhistas e sensação de falta de apoio
A base também traz um recorte sobre quem teve problemas depois de chegar. Entre os 10,9% que relataram conflitos trabalhistas, 18,6% citaram taxas excessivas cobradas por agências de recrutamento. Além disso, 14,9% disseram que não sabiam a quem recorrer quando enfrentaram dificuldades.
Do lado das empresas, a escassez aparece como motivo dominante para contratar estrangeiros: 69% apontaram a crise de mão de obra como a principal razão, acima dos 64,8% do ano anterior.
TITP: um sistema antigo que virou alvo de críticas
Parte desse atrito está ligada ao desenho do sistema migratório citado na base. Por mais de 30 anos, o Programa de Estágio Técnico (TITP), lançado em 1993, foi apresentado como treinamento para trabalhadores de países em desenvolvimento, mas teria funcionado na prática como um meio de obter mão de obra barata.
Segundo a base, os trabalhadores tinham pouca margem de manobra, com queixas que incluíam jornadas exaustivas, violações salariais e dificuldade para mudar de setor ou de emprego.
O que muda com o Ikusei Shuro Seido previsto para 2027
Em junho de 2024, o Parlamento japonês aprovou a substituição do TITP pelo Ikusei Shuro Seido, com entrada em vigor prevista para junho de 2027. Pela primeira vez, o governo reconhece oficialmente que o objetivo é treinar e reter trabalhadores estrangeiros para suprir a escassez.
A base destaca dois pontos do novo modelo:
- permitir que trabalhadores mudem de empresa dentro do mesmo setor, sob certas condições
- limitar comissões de agências ao equivalente a dois meses do salário do trabalhador
Ou seja, a promessa é reduzir a parte mais abusiva do caminho, mas isso ainda fica no horizonte, e a crise de mão de obra continua pressionando o país até lá.
Novas rotas de entrada e a tentativa de atrair perfis diferentes
O Japão vem abrindo novas vias para estrangeiros. Em março de 2024, o visto de Trabalhador Qualificado Especializado (SSW) adicionou novos setores, elevando o total para 17.
A base cita também o visto J-Find, para graduados das 100 melhores universidades do mundo, permitindo ficar no Japão por até dois anos em busca de trabalho ou para desenvolver um projeto empresarial, sem patrocínio de empregador. É uma tentativa de atrair gente altamente qualificada, não apenas preencher vagas.
Empresas também têm dificuldades para lidar com o sistema
A base ressalta que as empresas japonesas também enfrentam problemas: uma pesquisa do MHLW indica que 30% dos estabelecimentos relataram dificuldades, citando barreiras linguísticas e culturais e procedimentos complexos para gerenciar a situação de residência.
No fim, a crise de mão de obra não é só falta de gente. É um sistema inteiro tentando se ajustar, com fricções para quem contrata e para quem chega.
Fica difícil não pensar nisso: se o Japão está precisando tanto de trabalhadores estrangeiros, por que a porta de entrada ainda depende de taxas tão altas cobradas por intermediários?

-
1 pessoa reagiu a isso.