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Contratada pela Petrobras saía de casa às 5 da manhã para ajudar na fazenda do avô, deixou a indústria do petróleo, assumiu a propriedade sem formação agrícola e virou fornecedora de pimenta-rosa para a Natura enquanto ampliava a produção de macadâmia e especiarias

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Escrito por Geovane Souza Publicado em 13/07/2026 às 16:24 Atualizado em 13/07/2026 às 16:26
Ex-funcionária da Petrobras assume fazenda da família em São Mateus e passa a fornecer pimenta-rosa para a Natura
Ex-funcionária da Petrobras assume fazenda da família em São Mateus e passa a fornecer pimenta-rosa para a Natura (Foto: Ana Paula Martin Machado / Acervo pessoal)
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Ana Paula Martin trocou a rotina ligada ao petróleo pela Fazenda Lagoa Seca, em São Mateus, no Espírito Santo. Anos depois, a propriedade familiar passou a fornecer com exclusividade a pimenta-rosa utilizada pela Natura em dois perfumes da linha Essencial Atrai.

Antes de assumir a propriedade rural, Ana Paula Martin dividia os dias entre o trabalho como contratada da Petrobras, a criação do filho pequeno e as tarefas na fazenda adquirida por seus pais do próprio avô. Ela saía de casa por volta das 5 horas da manhã e retornava somente à noite.

A mudança definitiva ocorreu no início de 2016, quando seu pai pediu que ela assumisse a administração da Fazenda Lagoa Seca. Formada em Administração e sem formação técnica agrícola, Ana Paula deixou a indústria do petróleo e passou a comandar uma atividade que ainda conhecia pouco.

A propriedade, localizada em São Mateus, no norte do Espírito Santo, produzia culturas conhecidas na região, mas exigia decisões sobre manejo, beneficiamento, certificações, abertura de fábrica e colocação dos produtos no mercado. A resistência enfrentada por uma mulher à frente do negócio aumentou as dificuldades dos primeiros anos.

A trajetória ganhou outro alcance quando a fazenda passou a fornecer pimenta-rosa para a Natura, substituindo um ingrediente que a fabricante de cosméticos importava de Madagascar. O fruto capixaba chegou à perfumaria nacional depois de uma mudança profissional que começou com jornadas prolongadas e trabalho simultâneo na cidade e no campo.

A saída da indústria do petróleo colocou uma administradora diante de lavouras que ela ainda precisava aprender a conduzir

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Foto: Ruan Klen

O relato de Ana Paula foi publicado pela Agência Sebrae de Notícias em 12 de junho de 2025. Segundo a produtora, a decisão de permanecer na fazenda exigiu aprendizado sobre normas sanitárias, certificações, estrutura de processamento, desenvolvimento de rótulos e regularização dos produtos, áreas distantes da rotina que mantinha anteriormente no setor de petróleo.

A formação em Administração ajudava nas contas e no planejamento, mas não resolvia problemas como irrigação, poda, aplicação correta de defensivos, colheita e controle da qualidade. Esses conhecimentos precisaram ser adquiridos enquanto a propriedade continuava produzindo e gerando despesas.

Em vez de concentrar o negócio em uma única cultura, Ana Paula ampliou o portfólio. A Fazenda Lagoa Seca passou a trabalhar com pimenta-do-reino, pimenta-rosa, pimenta da Jamaica, macadâmia, café e mamão, além de processar parte desses produtos antes da venda.

Cursos de irrigação e poda ajudaram a transformar experiência prática em produção organizada

A capacitação técnica tornou-se parte da reestruturação da fazenda. O Serviço Nacional de Aprendizagem Rural do Espírito Santo informou que Ana Paula e sua equipe participaram de treinamentos sobre irrigação, poda e uso de defensivos, mantendo posteriormente a parceria para capacitar produtores e funcionários.

O aprendizado reduziu a dependência de decisões tomadas apenas pela experiência diária. No campo, falhas de poda, manejo ou secagem podem comprometer uma safra inteira, sobretudo quando o produto será vendido para indústrias que exigem padrão de aroma, aparência, umidade e rastreabilidade.

A propriedade também avançou no processamento. Além das especiarias vendidas como matéria-prima, foram desenvolvidos pimenta-rosa em pó, óleo essencial de pimenta da Jamaica, gelato de macadâmia, biscoitos e doces que combinam macadâmia e especiarias.

Essa diversificação permite aproveitar um mesmo cultivo em mercados diferentes. O fruto pode sair da fazenda como condimento, ingrediente de alimentos, óleo, pó ou insumo aromático, reduzindo a dependência de uma única forma de comercialização.

A pimenta-rosa que nascia em São Mateus substituiu um ingrediente trazido de Madagascar

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Foto: Natura

A parceria com a Natura transformou a pimenta-rosa no produto mais conhecido da Fazenda Lagoa Seca. A empresa avaliou o cultivo, o manejo e a qualidade aromática antes de adotar o ingrediente capixaba nas versões feminina e masculina do perfume Essencial Atrai.

O Conexão Safra informou que Ana Paula representa a terceira geração da família ligada à propriedade e se tornou fornecedora oficial e única da especiaria para a fabricante de cosméticos. O fornecimento adicionou valor a um fruto que anteriormente seguia principalmente para o setor alimentício e para compradores estrangeiros.

Para a fazenda, o contrato não significa apenas vender uma quantidade maior. Atender uma indústria nacional exige manter regularidade, documentação da origem, padrão entre lotes e controle de todas as etapas, do cultivo ao beneficiamento.

Para a Natura, a substituição do ingrediente importado reduz a distância entre a área produtora e a fábrica e incorpora uma matéria-prima brasileira à composição das fragrâncias. A empresa informou que o Espírito Santo colhe cerca de 4 mil toneladas de pimenta-rosa e exporta aproximadamente 1,2 mil toneladas já beneficiadas.

O selo concedido em 2023 protege a origem da pimenta-rosa produzida no município

Ex-funcionária da Petrobras assume fazenda da família em São Mateus e passa a fornecer pimenta-rosa para a Natura
Fazenda da família em São Mateus e passa a fornecer pimenta-rosa para a Natura (Foto: Ana Paula Martin Machado / Acervo pessoal)

A expansão ocorreu em uma região que já havia conquistado reconhecimento formal. Em 18 de julho de 2023, o Instituto Nacional da Propriedade Industrial concedeu a Indicação Geográfica São Mateus para a pimenta-rosa, na modalidade Indicação de Procedência.

O registro abrange exclusivamente o município de São Mateus e foi solicitado pela Associação dos Produtores de Aroeira do Espírito Santo. O processo estabelece uma área delimitada e regras para produtores que pretendem utilizar o nome protegido, permitindo auditoria, rastreabilidade e controle dos lotes.

A pimenta-rosa é o fruto da aroeira-vermelha, espécie nativa da Mata Atlântica. Apesar do nome, ela não pertence à mesma família botânica das pimentas tradicionais e é utilizada pelas indústrias de alimentos, medicamentos, aromas e cosméticos.

São Mateus também recebeu por lei estadual, em junho de 2020, o título de Capital Estadual das Especiarias. Em 2025, outra lei criou a Rota das Especiarias no município, conectando a produção rural a feiras, gastronomia, turismo e venda de produtos processados.

A fazenda passou de produtora agrícola a fornecedora de ingredientes com maior valor agregado

O avanço da Fazenda Lagoa Seca acompanha uma mudança mais ampla na cadeia da aroeira. O Incaper identifica São Mateus como o principal polo brasileiro de produção, coleta, processamento e exportação de pimenta-rosa, com participação de agricultores, extrativistas, indústrias e empresas que utilizam o fruto em alimentos, bebidas, óleos e cosméticos.

A entrada em mercados mais exigentes depende de cuidados que não aparecem no produto final. A colheita precisa ocorrer no ponto adequado, os frutos devem ser selecionados e secos corretamente, e o armazenamento deve impedir umidade, contaminação ou perda do aroma.

Na propriedade comandada por Ana Paula, a macadâmia e as demais especiarias deixaram de ser apenas produtos colhidos e vendidos a granel. O processamento abriu espaço para receitas próprias e mercadorias que podem chegar diretamente ao consumidor, com embalagem, marca e identidade vinculada a São Mateus.

Em junho de 2025, a produtora também revelou que preparava, com apoio técnico do Sebrae, um produto já comercializado na Europa, mas ainda inédito no Brasil. O nome, a composição, a data de lançamento e o preço não foram divulgados naquele anúncio, mantendo o projeto sob sigilo.

A história mostra uma transição feita sem experiência agrícola inicial, mas apoiada em formação administrativa, assistência técnica e diversificação da produção. Uma rotina que começava às 5 horas da manhã para conciliar dois trabalhos terminou com a propriedade familiar inserida na cadeia de fornecimento de uma das maiores empresas brasileiras de cosméticos.

O que mais chama sua atenção nessa trajetória: a saída da indústria do petróleo, o aprendizado no campo ou a transformação da pimenta-rosa em ingrediente de perfumes? Deixe sua opinião nos comentários e conte se você conhece outras propriedades familiares que cresceram depois de investir em capacitação e processamento da produção.

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Geovane Souza

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