Erguida para gerar 20 mil quilowatts, com 83 metros de altura e construída com 30 mil metros cúbicos de concreto, a barragem de Montejaque fracassou por causa do subsolo calcário, foi abandonada e voltou ao noticiário ao encher quase até o limite após as chuvas intensas de 2026
A barragem de Montejaque, no interior da província de Málaga, atravessou mais de um século entre a ambição industrial, o fracasso técnico e a reativação do interesse público após um episódio de enchimento inédito em 2026.
Conhecida também como Presa de los Caballeros, a estrutura foi concebida para aproveitar o curso do rio Gaduares na geração de energia, mas nunca conseguiu reter água com estabilidade por causa das condições geológicas do terreno.
Em fevereiro de 2026, a obra voltou ao centro das atenções quando o reservatório alcançou um nível incomum, em meio a um período de chuvas intensas na Serranía de Ronda. A situação levou ao monitoramento permanente da área e à evacuação preventiva de cerca de 200 moradores da Estación de Benaoján, localizada a jusante da barragem.
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A história da barragem se consolidou, assim, em dois planos distintos e inseparáveis. De um lado, está o projeto energético e industrial lançado no início do século 20; de outro, o comportamento hidrológico e geológico que impediu a obra de cumprir a função para a qual havia sido construída.

barragem de Montejaque nasceu como projeto de eletrificação regional
A origem da barragem está ligada ao esforço de expansão da produção elétrica no sul da Espanha nas primeiras décadas do século 20. Segundo a resolução da Junta de Andalucía que abriu o procedimento de proteção patrimonial do local, o projeto foi encomendado em 1921 pela Compañía Sevillana de Electricidad à empresa suíça Electrowat, sob direção do engenheiro Gruner, de Basileia.
A estrutura foi implantada no município de Montejaque, em um ponto estratégico do curso do rio Gaduares. A escolha do lugar respondia à lógica de aproveitar o desnível e concentrar a água em uma grande obra de contenção, dentro de um plano de geração hidrelétrica que buscava abastecer áreas ainda pouco integradas por infraestrutura moderna.
A barragem ganhou forma entre 1923 e 1924, dentro de um empreendimento de grande escala para a época. Reportagem do El País informa que a obra mobilizou mais de 700 operários, a maioria moradores da própria região, e consumiu cerca de 30 mil metros cúbicos de concreto.
A mesma reportagem registra que a barragem foi idealizada para gerar 20 mil quilowatts. O desenho em abóbada, com 83 metros de altura, era tratado como referência técnica naquele momento e chegou a ser apresentado como o maior da Europa em sua categoria.
A construção alterou o cotidiano de Montejaque e de áreas vizinhas ainda durante a execução das obras. A chegada de máquinas, trabalhadores e acessos viários transformou a paisagem local e associou a barragem a uma expectativa concreta de modernização, trabalho e fornecimento de energia.
Essa dimensão social e econômica passou a integrar a memória da própria estrutura. Décadas mais tarde, a Junta de Andalucía apontaria não apenas seu valor industrial, mas também seus vínculos com a história local, com os usos do território e com a importância do empreendimento para a população da comarca.

Geologia do terreno impediu que a obra funcionasse como previsto
O principal problema da barragem apareceu logo depois da entrada em operação. Embora o muro tivesse sido executado dentro do projeto previsto, a água acumulada no reservatório não permanecia no local, porque o subsolo calcário e cárstico da região apresentava alta permeabilidade e deixava o volume infiltrado escapar pela rede subterrânea.
O El País ouviu o catedrático Iñaki Vadillo, da Universidade de Málaga, que resumiu a contradição da obra ao afirmar que o ponto era topograficamente ideal para fechar a bacia do rio, mas geologicamente o pior possível. Essa incompatibilidade entre forma da paisagem e natureza do terreno explica por que a barragem nunca conseguiu manter o enchimento de maneira regular.
As primeiras tentativas de retenção mostraram com clareza a dimensão do problema. Um estudo do Instituto Geológico y Minero de España sobre o carste andaluz registra que, durante o enchimento de 1924, a água se infiltrou rapidamente no sistema subterrâneo Hundidero-Gato e o reservatório se esvaziou em cerca de dez dias.
Diante desse resultado, foram feitas intervenções para tentar impermeabilizar a área. Segundo o El País, a obra recebeu aplicações de concreto e até asfalto, mas nenhuma das medidas conseguiu alterar de forma definitiva a perda de água através das cavidades e fissuras do maciço calcário.
O fracasso técnico acabou definindo o destino da barragem. Ainda que permanecesse como uma estrutura monumental no território, ela deixou de cumprir o objetivo de armazenamento estável para fins energéticos, tornando-se ao longo do tempo um dos exemplos mais conhecidos de limitação imposta pela geologia a uma grande obra de engenharia.
A resolução patrimonial da Junta de Andalucía reforça esse caráter singular. A barragen é uma obra pioneira da engenharia civil europeia para produção hidrelétrica, mas também associada a um contexto geológico, hidráulico e paisagístico que condicionou seu uso e sua evolução histórica.
Patrimônio industrial e ligação com o sistema Hundidero-Gato
Com o passar das décadas, a barragem deixou de ser lembrada apenas como uma obra mal-sucedida. O reconhecimento oficial de seu valor histórico, técnico e territorial ampliou a forma como ela passou a ser tratada por órgãos públicos, pesquisadores e pela própria população da região.
Em 2023, a Junta de Andalucía abriu o procedimento para inscrever a Presa de los Caballeros no Catálogo Geral do Patrimônio Histórico Andaluz. A classificação proposta foi a de Bem de Interesse Cultural, na categoria de Lugar de Interesse Industrial.
Na justificativa oficial, o governo andaluz afirma que o conjunto possui valor industrial, paisagístico, ambiental, histórico, cultural, etnológico e socioeconômico.
A barragem está diretamente vinculada ao entorno da Cueva del Hundidero e ao sistema Hundidero-Gato, um dos conjuntos cársticos mais conhecidos da Andaluzia. Esse vínculo aparece com destaque nos documentos oficiais, que associam a estrutura ao Monumento Natural Cueva del Hundidero e ao Parque Natural Sierra de Grazalema.
A Junta também aponta que a área da barragem integra um projeto de restauração ecológica da reserva fluvial do embalse de Montejaque. Segundo o governo regional, o enclave exerce influência sobre mais de 500 hectares, o que amplia sua importância para além do valor estritamente arquitetônico ou industrial.
Essa nova leitura do espaço abriu caminho para intervenções voltadas ao uso público e à valorização turística do local. O El País informou que, no verão de 2024, a área recebeu equipamentos como ponte suspensa e via ferrata, incorporando a antiga barragem a uma lógica de visitação e fruição da paisagem.
A resolução da Junta menciona ainda obras de acondicionamento e segurança em pontos de acesso, como a coroa da barragem e a vereda de Taviznilla. Essas ações ajudam a explicar por que uma estrutura marcada durante décadas pelo fracasso hidráulico passou a ser preservada e reinterpretada como patrimônio histórico e industrial.
Chuvas de 2026 levaram a barragem a um nível nunca visto
O episódio que recolocou a barragem no centro do noticiário ocorreu no início de 2026, depois de uma sucessão de chuvas muito intensas na Serranía de Ronda e em áreas vizinhas. Segundo o El País, Grazalema acumulou mais de 1.000 litros por metro quadrado desde 1º de fevereiro e mais de 2.000 litros no acumulado do ano até a data da reportagem publicada em 10 de fevereiro.
Esse volume alterou o funcionamento hidrológico de um sistema que normalmente perde água por infiltração natural. A mesma reportagem informa que, em condições usuais, parte relevante do fluxo segue pela Sima de la Olla e pelo aquífero, mas o excesso de chuva saturou o sistema e reduziu sua capacidade de absorção.
Com isso, a água chegou à barragem em proporção fora do padrão histórico observado no local. O reservatório alcançou 36 hectômetros cúbicos e ficou a cerca de 10 metros da coroação, um cenário incomum para uma estrutura que atravessou décadas sem conseguir reter volumes expressivos de maneira estável.
Dias depois, a situação se agravou ainda mais em termos de atenção pública. A Canal Sur noticiou que a barragem chegou a ficar a apenas 25 centímetros da coroação e começou a desembalsar pela primeira vez em um século, em um episódio acompanhado por autoridades regionais e equipes de emergência.
A Cadena SER informou que o escoamento ocorreu de forma controlada. Ainda assim, o comportamento da barragem e o aumento do caudal a jusante levaram os órgãos responsáveis a reforçar os protocolos de vigilância e comunicação com a população.
A preocupação principal não se concentrou em um colapso estrutural iminente, mas no impacto do aumento do volume de água no rio abaixo da barragem. Por precaução, cerca de 200 moradores da Estación de Benaoján foram retirados preventivamente de suas casas, segundo o El País.
A reportagem também informa que a área passou a ser vigiada 24 horas por técnicos da Endesa e da Junta de Andalucía. A Canal Sur acrescentou que agentes da Guardia Civil e da Unidade Militar de Emergências acompanharam a situação enquanto o controle do rio Guadiaro e de áreas afetadas permanecia sob observação.
Uma obra que reúne ambição industrial, limite geológico e memória regional
A trajetória da barragem de Montejaque acabou reunindo três dimensões que raramente permanecem tão visíveis na mesma estrutura. Ela foi, ao mesmo tempo, um grande projeto de eletrificação, uma obra inviabilizada pelas características do subsolo e um marco material preservado como parte da história industrial da Andaluzia.
Esse percurso ajuda a explicar por que a barragem segue mobilizando atenção muito além do aspecto técnico. A obra concentrou trabalhadores, mudou o cotidiano da região, permaneceu como presença monumental na paisagem e, décadas depois, passou a ser tratada oficialmente como patrimônio de interesse cultural e industrial.
O episódio de 2026 acrescentou um novo capítulo a essa história centenária. Depois de décadas marcada pelo esvaziamento e pela incapacidade de reter água, a barragem se viu diante do cenário oposto, com o reservatório em nível excepcional, vigilância contínua e impacto direto sobre a rotina dos moradores do entorno.
A singularidade do caso está justamente nessa inversão. A estrutura que ficou conhecida por não conseguir armazenar água de forma duradoura tornou-se, ainda que sob condições extremas e extraordinárias, foco de alerta por causa do enchimento quase total.
Ao longo de mais de cem anos, a barragem passou da promessa de produção elétrica à condição de exemplo clássico dos limites impostos pela geologia. Hoje, preservada e observada como patrimônio, ela permanece como uma das obras mais peculiares da engenharia hidráulica espanhola, tanto pelo que pretendia ser quanto pelo que de fato se tornou.
Este artigo foi elaborado com base em reportagens de El País, Canal Sur e Cadena SER, além de documentos oficiais da Junta de Andalucía e registro técnico do Instituto Geológico y Minero de España.

The level of innumeracy these days is very worrying. 30 **** metres of concrete . . . ! A local reported said in all seriousness that the dam held 30 hectolitres of water. 3,000 litres and then got cross when people tried to correct him to 30 cubic hectometers
There is no way that only 30 kub meter concrete was used to build this dam
A concrete truck easily holds 10 cubic meters of concrete. Are you telling me that using three such loads of concrete, an 80-meter-high dam was built that is supposed to produce 20 kW of energy? That’s the energy that powers an EV fast charger? It’s a bit early for such jokes; April 1st is still a long way off.