Diante da queda do preço do petróleo, CEO da Petrobras alerta para riscos ao setor, critica tributação atual e propõe modelo anticíclico para garantir competitividade.
A forte oscilação no preço do petróleo voltou a preocupar a indústria global e reacendeu o debate sobre custos, tributação e sustentabilidade financeira das petrolíferas brasileiras.
Esse alerta foi feito pela CEO da Petrobras durante a PRIO Conference, evento promovido pela PRIO com curadoria do Brazil Journal, no Rio de Janeiro. A executiva apresentou uma leitura direta do cenário atual e destacou que o momento exige disciplina de capital, responsabilidade financeira e ajustes regulatórios compatíveis com o ciclo do mercado.
Com o barril negociado hoje em patamares bem inferiores aos registrados no passado, a executiva afirmou que a indústria enfrenta uma fase crítica, com impactos diretos sobre investimentos, produção e arrecadação.
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Queda do barril evidencia novo ciclo do petróleo
Durante sua apresentação, a CEO contextualizou a mudança estrutural no mercado global do petróleo. Segundo ela, há cerca de dez anos o barril chegou a US$ 120. Atualmente, gira em torno de US$ 62 e pode cair ainda mais no próximo período.
“Depois de bater em US$ 120 dez anos atrás, o barril de petróleo hoje negocia ao redor de US$ 62 e, ‘no ano que vem, está ameaçando bater em US$ 50,’” afirmou.
Ela também destacou a comparação recente. “Estamos a 75% do preço de petróleo que tínhamos um ano atrás, quando o barril estava em US$ 83. Nossa remuneração reduziu muito, e se não fizermos um trabalho forte de redução de custos, de aperto, de responsabilidade financeira, vamos fracassar,” disse a CEO.
Importância estratégica do petróleo para o Brasil
Ao abordar os reflexos macroeconômicos, a executiva fez um alerta mais amplo. Para ela, o enfraquecimento da indústria não afeta apenas as empresas, mas compromete a segurança energética nacional.
“Mas se a indústria de petróleo fracassar, quem vai fracassar é o Brasil, porque 44% de toda a energia primária do país vem da gente.”
Essa dependência estrutural reforça, segundo ela, a necessidade de políticas públicas mais sensíveis aos ciclos de preços do petróleo, evitando decisões que ampliem riscos em momentos de baixa.
Proposta de tributação anticíclica ganha destaque
Na conferência realizada na sede da PRIO, a CEO defendeu a adoção de um modelo de tributação anticíclica. Para ilustrar, citou o exemplo do Reino Unido no Mar do Norte.
Segundo ela, naquele país os impostos pagos pelas petrolíferas variam conforme o momento do setor. Em períodos de alta do petróleo, a carga tributária aumenta. Em fases de baixa, o governo reduz a incidência fiscal.
“Se faltar dinheiro para todo mundo e vierem buscar aqui [no setor de petróleo], tem que vir com muita moderação e responsabilidade,” disse a executiva.
Críticas à MP que alterou cálculo dos royalties
Outro ponto central do discurso foi a crítica à Medida Provisória 1304, que elevou o preço de referência do Brent para cálculo dos royalties pagos por empresas de petróleo à União, Estados e municípios.
“Essa MP nos incomodou muito,” afirmou.
Ela ponderou que a mudança no preço de referência não é, por si só, negativa. “O aumento do preço de referência não é necessariamente ruim. Fui eu que comecei isso lá atrás [quando era diretora da ANP], mas tinha a ver com o pré-sal,” disse.
No entanto, reforçou que a regulação deve acompanhar o contexto histórico. “Mas a regulação tem que ser viva e acompanhar o momento histórico em que ela está regulando. Lá atrás o preço do barril estava em US$ 120. Hoje está em US$ 62. É metade do valor.”
Diferenças regionais no custo de extração preocupam
A CEO também destacou que decisões tributárias afetam regiões produtoras de formas distintas. Segundo ela, o impacto no pré-sal é diferente daquele observado em áreas mais maduras.
“Segundo ela, aumentar o tributo no pré-sal, que produz muito, é uma coisa. ‘Mas se aumentar na Bacia de Campos [que tem um custo de extração mais alto], vamos prejudicar muitos projetos. Se fizermos isso com gás, não vamos ter desenvolvimento do gás. Não é viável.’”
Essas diferenças de custo tornam o debate sobre petróleo ainda mais sensível do ponto de vista regulatório.
Exploração e reposição de reservas entram no radar
Além da discussão fiscal, a executiva ressaltou a necessidade de intensificar campanhas exploratórias. Segundo ela, a reposição de reservas depende diretamente de novos esforços exploratórios.
“E o máximo que estamos olhando é para a Margem Equatorial e a Bacia de Pelotas… Quem descobre petróleo é a broca: temos que furar e temos que torcer, porque não é líquido e certo. Temos que diversificar a exploração.”
Nesse sentido, a diversificação geográfica e técnica surge como estratégia para manter o equilíbrio de longo prazo na produção de petróleo.
Transição energética enfrenta desafios de retorno financeiro
Ao tratar da transição energética, a CEO foi direta ao apontar limitações econômicas de parte dos projetos renováveis. Segundo ela, as taxas internas de retorno ainda são baixas em vários segmentos.
“Quem vai pagar um projeto solar com 10% de TIR? Ninguém paga isso. Quem vai pagar um projeto de eólica com 11% de TIR? Ou um projeto de hidrogênio que não tem contrato de offtake? Ninguém paga,” disse.
Ela destacou, porém, exceções relevantes. “Agora, o etanol tem projeto chegando a 15%. Aí começa a ficar bom. Tem projetos de biodiesel que são igualmente bons. Esses dá para pagar.”
Mesmo assim, a executiva reafirmou que a meta da Petrobras é ampliar gradualmente a participação das fontes renováveis. Segundo ela, a intenção é que essas fontes representem um terço da energia gerada pela companhia em 2050, frente a uma participação ainda reduzida hoje, mantendo o petróleo como eixo central da matriz no médio prazo.
