Empresa brasileira acelera expansão internacional após aquisição da Hickman’s Egg Ranch, reforça presença no mercado norte-americano e aposta em escala, dólar e ovos sem gaiolas
A Mantiqueira avança em uma das movimentações mais estratégicas do setor global de ovos. Com a JBS como sócia, a companhia brasileira quer chegar a 10 milhões de galinhas nos Estados Unidos até o primeiro trimestre de 2027, enquanto reorganiza ativos adquiridos após perdas causadas pela gripe aviária.
A expansão ocorre em um mercado sensível para consumidores, indústria de alimentos e varejo. Nos últimos anos, os Estados Unidos enfrentaram pressão no abastecimento de ovos, com impacto nos preços e na recomposição de plantéis.
Segundo informações da Agrimídia, a empresa já mantém cerca de 6 milhões de aves em território americano e trabalha para concluir a repopulação das granjas. O plano coloca a Mantiqueira em uma disputa mais agressiva por espaço entre os maiores grupos produtores de ovos do mundo.
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O movimento também mostra uma mudança importante no agronegócio brasileiro. Em vez de depender apenas da exportação, a Mantiqueira passa a produzir dentro de um dos maiores mercados consumidores do planeta, reduzindo riscos comerciais e ganhando receita em dólar.
Parceria com JBS muda escala da Mantiqueira no setor de ovos
A entrada da JBS no negócio foi o ponto de virada para acelerar a internacionalização da Mantiqueira. De acordo com a Reuters, a JBS anunciou em janeiro de 2025 a compra de participação na Mantiqueira Alimentos, em uma operação que avaliou a empresa em R$ 1,9 bilhão e marcou a entrada da gigante de alimentos no setor de ovos.
Pelo desenho da transação, a JBS passou a compartilhar o controle da Mantiqueira com o fundador Leandro Pinto. Na prática, a produtora de ovos ganhou acesso a capital, estrutura financeira, rede global de suprimentos, governança e apoio em áreas como pesquisa, desenvolvimento e gestão.
Esse tipo de suporte é relevante porque a produção de ovos exige escala, manejo eficiente, controle sanitário e previsibilidade logística. Em um mercado pressionado por custos, surtos sanitários e mudanças no consumo, empresas maiores tendem a ter mais capacidade de atravessar períodos de instabilidade.
A parceria também amplia a diversificação da própria JBS. A companhia, conhecida pela atuação em carne bovina, frango, suínos e outros segmentos de proteína, passa a disputar espaço em uma categoria de consumo recorrente e altamente presente na rotina das famílias.
Aquisição da Hickman’s abriu caminho para entrada forte nos Estados Unidos
A expansão nos Estados Unidos ganhou força com a aquisição da Hickman’s Egg Ranch, tradicional produtora norte-americana de ovos. Em comunicado divulgado em 2025, a JBS informou que a Mantiqueira USA firmou acordo para adquirir a companhia, descrita como uma das principais produtoras das regiões Montanhosa e Costa Oeste dos EUA e integrante do grupo das 20 maiores empresas de ovos do país.
A Hickman’s tinha relevância regional e estrutura consolidada, mas foi fortemente atingida por um surto de influenza aviária. A perda de grande parte do plantel abriu espaço para uma reconstrução operacional sob nova gestão, com foco em repopulação, eficiência e reorganização das granjas.
Segundo a Bloomberg Línea, Leandro Pinto afirmou que a recomposição da operação adquirida nos EUA está cerca de 60% concluída. O executivo também disse que, ao finalizar essa etapa, a Mantiqueira poderá entrar no grupo das quatro ou cinco maiores produtoras de ovos do mundo.
A estratégia não é simplesmente comprar ativos e aumentar volume. O plano envolve recuperar a produção, ajustar processos, recompor aves, ampliar capacidade e fortalecer a presença comercial em um mercado já estabelecido.
Além da Hickman’s, a Mantiqueira também avançou no controle de ativos nos EUA, incluindo participação relacionada à Colorado Eggs. Esse tipo de movimento reforça a intenção de crescer tanto por aquisições quanto por expansão orgânica, dependendo do custo e da oportunidade de mercado.
Mercado americano de ovos vive transição após pressão sanitária e mudança de consumo
O mercado dos Estados Unidos é atrativo, mas também complexo. De acordo com dados da United Egg Producers, a produção norte-americana de ovos de mesa somou 90,1 bilhões de unidades em 2025, queda de 3,2% em relação a 2024, em um cenário afetado por desafios sanitários e interrupções de oferta.
A gripe aviária de alta patogenicidade foi um dos fatores que mais pressionaram a cadeia. Quando granjas são atingidas, a recomposição não acontece de forma imediata, porque é preciso repovoar instalações, retomar produção e restabelecer ciclos de postura.
Esse ambiente cria tanto risco quanto oportunidade. Para consumidores, a consequência costuma aparecer no preço nas prateleiras. Para empresas capitalizadas e com capacidade de execução, períodos de desorganização podem abrir espaço para compra de ativos, entrada em novos mercados e ganho de participação.
Outro ponto importante é o avanço dos ovos produzidos em sistemas sem gaiolas, conhecidos como cage-free. Segundo o USDA, esse segmento é monitorado em relatórios específicos que acompanham preços, tamanho de plantel, produção semanal e dados de varejo, sinal de que a categoria ganhou relevância no mercado norte-americano.
No Brasil, esse modelo também cresce, mas ainda em ritmo diferente. Para a Mantiqueira, atuar nos Estados Unidos significa lidar com consumidores, varejistas e compradores industriais que já estão mais habituados a exigências de bem-estar animal e rastreabilidade.
Produção em dólar reduz dependência de exportações e fortalece estratégia global
A presença física nos Estados Unidos muda a lógica financeira da Mantiqueira. Em vez de vender apenas a partir do Brasil para outros mercados, a empresa passa a ter receita local em dólar, o que ajuda a reduzir a exposição a barreiras comerciais, câmbio e mudanças repentinas em regras de importação.
Esse ponto é central para uma companhia que deseja se consolidar globalmente. Exportar é importante, mas operar dentro do país consumidor permite maior proximidade com clientes, adaptação ao padrão local e resposta mais rápida a demandas de varejo e indústria.
Hoje, a maior parte dos negócios da Mantiqueira ainda está no Brasil. A companhia tem cerca de 17 milhões de aves no país e trabalha para chegar a até 20 milhões até o fim do ano, mantendo a base brasileira como eixo principal da produção.
Nos Estados Unidos, a produção anual já é estimada em 1,3 bilhão de ovos, enquanto no Brasil gira em torno de 4 bilhões de ovos por ano. Esses números mostram que a operação americana ainda é menor, mas tem potencial de crescimento relevante dentro da estratégia de longo prazo.
A expansão também conversa com o momento do agronegócio brasileiro, que busca ir além da exportação de commodities. No caso da Mantiqueira, o movimento representa a entrada de uma empresa nacional em uma cadeia sofisticada, competitiva e fortemente ligada ao consumo diário.
Mantiqueira mira liderança, mas desafio sanitário continuará no centro do negócio
Apesar da ambição global, o avanço da Mantiqueira nos EUA dependerá de fatores que vão além de capital e escala. Sanidade animal, biossegurança, custo de ração, mão de obra, energia, transporte e aceitação do consumidor serão determinantes para sustentar a operação.
A influenza aviária segue como um risco estrutural para a avicultura mundial. Por isso, granjas modernas precisam investir em controle de acesso, monitoramento de aves, protocolos rígidos de limpeza e separação operacional para reduzir o risco de disseminação.
Também há um desafio de imagem. O consumidor quer preço acessível, mas parte do mercado cobra mais transparência sobre bem-estar animal e origem dos alimentos. Essa pressão favorece empresas capazes de produzir em escala sem perder controle sanitário e qualidade.
Para a Mantiqueira, a meta de 10 milhões de aves nos EUA é mais do que um número. Ela representa uma tentativa de transformar uma produtora brasileira em uma plataforma internacional de ovos, apoiada por uma das maiores companhias globais de alimentos.
Se o plano for executado dentro do prazo, a empresa poderá fortalecer sua posição entre os grandes nomes do setor. A dúvida é se o crescimento acelerado será acompanhado de estabilidade sanitária, competitividade nos custos e capacidade de entregar ovos em um mercado cada vez mais exigente.

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