Comunidade em Mato Grosso do Sul criou um ecossistema digital próprio para movimentar produtos locais, serviços e parceiros em até 200 quilômetros
Em uma região afastada de Mato Grosso do Sul, a comunidade de Zigurats, em Corguinho, passou a chamar atenção por uma proposta incomum, usar criptomoeda própria, blockchain e tokenização para movimentar produtos fabricados no próprio território. A ideia é conectar itens físicos, como água mineral, argila, cosméticos naturais e suplementos, a ativos digitais usados dentro de uma rede de parceiros.
Segundo informações do Primeira Página, a moeda digital criada pela comunidade equivale atualmente a cerca de R$ 13 e pode ser utilizada em estabelecimentos e serviços parceiros em um raio de até 200 quilômetros, incluindo Campo Grande. O modelo não se limita a pagamentos internos, já que também busca transformar produtos locais em representações digitais negociáveis.
A proposta coloca Zigurats em uma discussão que cresce no Brasil: como a tecnologia blockchain pode ser usada fora do universo das grandes corretoras e das criptomoedas mais conhecidas. Nesse caso, o ponto central não é apenas especulação financeira, mas a tentativa de criar uma economia regional própria, baseada em produção, pesquisa e circulação local de riqueza.
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O projeto, no entanto, também exige cautela. Especialistas e órgãos reguladores têm reforçado que ativos digitais podem assumir diferentes formatos e, dependendo da estrutura, podem entrar em áreas reguladas do mercado financeiro e de capitais.
Criptomoeda própria tenta resolver um problema antigo de comunidades isoladas
A criação de uma moeda digital em Zigurats parte de um desafio comum a muitas comunidades afastadas dos grandes centros: manter renda circulando localmente. Quando moradores, produtores e prestadores de serviço dependem apenas de dinheiro tradicional e de mercados externos, parte importante da riqueza costuma sair da região rapidamente.

No caso da comunidade sul-mato-grossense, a estratégia foi criar um ecossistema em que produtos e serviços possam ser pagos e registrados digitalmente. Isso permite que a moeda seja usada em uma rede de parceiros que inclui áreas como saúde, turismo, hospedagem, comércio, vestuário e combustíveis.
A lógica é parecida com a de moedas sociais ou arranjos econômicos locais, mas com uma diferença importante: a base tecnológica usada é a blockchain, a mesma infraestrutura que registra transações de diferentes criptoativos. Em termos simples, esse tipo de sistema funciona como um livro de registros digital compartilhado, no qual cada operação fica gravada e pode ser verificada.
Essa característica ajuda a explicar por que o projeto chama atenção. Em vez de depender apenas de controles internos tradicionais, a comunidade afirma usar tecnologia para registrar circulação de valores, ampliar a confiança entre participantes e organizar a relação entre produtos físicos e ativos digitais.
Produtos locais viram ativos digitais em modelo baseado em tokenização
Um dos pontos mais relevantes da iniciativa é a tokenização. Na prática, tokenizar significa transformar um bem, direito ou produto em uma representação digital registrada em uma rede blockchain. Assim, um item físico continua existindo no mundo real, mas passa a ter uma versão digital associada a ele.
De acordo com material técnico da Anbima sobre tokenização de ativos, esse processo permite representar digitalmente valor econômico e direitos ligados a ativos reais. A associação também aponta que a tecnologia pode ampliar a eficiência de operações e abrir caminho para novos modelos de negócio em mercados financeiros e de capitais.

Em Zigurats, a proposta envolve produtos como argila medicinal, água mineral, cosméticos naturais, óleos essenciais e suplementos alimentares. Esses itens são apresentados pela comunidade como resultado de pesquisas locais e de uma estratégia de autossustentabilidade.
A tokenização, nesse contexto, pode servir para registrar a origem dos produtos, organizar transações e criar uma ponte entre produção física e negociação digital. Para pequenos ecossistemas econômicos, esse tipo de estrutura pode funcionar como uma vitrine tecnológica, especialmente quando há uma rede de parceiros disposta a aceitar os ativos.
Mas é justamente nesse ponto que a atenção regulatória se torna importante. Quando um token passa a ser oferecido como investimento, promessa de retorno ou participação em ganhos futuros, ele pode deixar de ser apenas uma ferramenta de uso interno e entrar em uma zona mais sensível do ponto de vista legal.
Blockchain ajuda a registrar transações, mas não elimina riscos
A blockchain é frequentemente apresentada como uma tecnologia de segurança porque dificulta alterações posteriores no histórico das transações. Cada registro é organizado em blocos e validado conforme as regras da rede, criando uma trilha digital verificável.
Isso não significa, porém, que todo projeto baseado em blockchain seja automaticamente seguro ou livre de riscos. A tecnologia registra operações, mas não garante sozinha a qualidade do produto, a viabilidade do negócio ou a liquidez de um token.
No caso de Zigurats, a força do projeto depende de fatores concretos: existência dos produtos, capacidade de produção, aceitação por parceiros, clareza nas regras de uso da moeda e transparência para quem compra ou utiliza os ativos digitais. Sem esses elementos, qualquer ecossistema desse tipo pode enfrentar dificuldade para crescer além do grupo inicial de participantes.
Outro ponto importante é a diferença entre uma criptomoeda usada como meio de troca em uma rede fechada e um ativo oferecido amplamente como investimento. Para o consumidor, essa distinção precisa estar clara. Usar um token para comprar um produto não é a mesma coisa que investir esperando valorização.
Zigurats mistura autossustentabilidade, pesquisa e imagem futurista
Zigurats não é uma comunidade comum. Localizada em Corguinho, na região centro-norte de Mato Grosso do Sul, ela ficou conhecida nacionalmente por suas construções de arquitetura incomum, pelo vínculo com o grupo Dákila Pesquisas e por narrativas que misturam tecnologia, sustentabilidade e mistério.
De acordo com o Poder Executivo de Corguinho, a cidade foi planejada com proposta de autossustentabilidade, incluindo abastecimento de água próprio, produção de alimentos, sistema financeiro e tecnologias desenvolvidas por pesquisadores ligados ao projeto. A comunidade também se destaca por estruturas cilíndricas, cúpulas e uma organização urbana fora do padrão tradicional.
A própria história de Zigurats ajuda a explicar o interesse do público. O local ganhou projeção após a suposta aparição do ET Bilu, em 2010, episódio que marcou sua imagem na internet e na cultura popular. Agora, o foco divulgado pela comunidade busca ir além da curiosidade e se concentrar em tecnologia, produtos naturais e ativos digitais.
Essa mudança de narrativa é importante. Para a comunidade, a criptomoeda própria e a tokenização funcionam como uma tentativa de mostrar que o projeto não se resume ao imaginário popular, mas envolve uma proposta econômica estruturada.


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