Enquanto o mercado de suplementos cresce e promete energia, emagrecimento e bem-estar instantâneo, a Anvisa encontra falhas graves em ingredientes, doses e rotulagem, prorroga a adaptação das empresas para 2026 e deixa consumidores perdidos entre rótulos sedutores e riscos silenciosos à saúde no dia a dia de academias e internet.
Dois em cada três suplementos avaliados pela Anvisa apresentam algum tipo de irregularidade. O levantamento mais recente da agência, concluído até julho de 2025, aponta 65% de reprovação entre os produtos analisados, com problemas em ingredientes, doses, validade, pureza e estudos de estabilidade, etapas básicas para garantir segurança mínima ao consumidor.
Essa taxa de falha, em um mercado que já movimenta bilhões de reais por ano, escancara a fragilidade do controle sanitário num setor impulsionado por promessas de bem-estar, performance esportiva e emagrecimento rápido. Mesmo assim, a Anvisa decidiu prorrogar para setembro de 2026 o prazo para que as empresas se adequem às normas de segurança e qualidade que deveriam valer a partir deste ano.
Crescimento explosivo, regulação atrasada
De acordo com dados do setor, o consumo de suplementos alimentares no Brasil cresceu cerca de 300% na última década, puxado por academias, redes sociais, influenciadores de fitness e a ideia de que uma cápsula resolve cansaço, gordura localizada e falta de foco.
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Alvo de intensa controvérsia, desde sua ampla divulgação, a eliminação da escala 6 x 1 – sob o argumento inconsistente de que ela implicaria ‘ganhos de produtividade’ e até ‘de renda’ à classe trabalhadora – não resiste ao mais elementar princípio econômico. Isso porque, sem ganhos de produtividade efetivos, haverá custo extra a ser suportado pelas empresas, ‘regiamente’ repassado ao consumidor final, sempre ele.
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No mesmo período, a Anvisa viu explodir o número de problemas ligados a esses produtos. Entre 2020 e 2025, 63% das investigações em alimentos abertas pela agência envolveram suplementos, índice mais alto entre todas as categorias reguladas.
As irregularidades vão desde ausência de estudos de estabilidade, que demonstram se o suplemento mantém a composição até o fim da validade, até uso de ingredientes proibidos, rótulos com alegações terapêuticas falsas e produtos sem testes adequados de pureza.
Casos recentes levaram à interdição de marcas como Insuzin e Prostnar, anunciadas como suplementos naturais, mas com substâncias não declaradas na fórmula.
Para especialistas em defesa do consumidor, isso mostra como o mercado ainda opera em uma zona cinzenta entre alimento e medicamento.
Quando suplemento vira risco para fígado, coração e rins
Endocrinologista da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM), Geórgia Castro alerta que o uso de suplementos sem orientação, em especial vitaminas manipuladas, proteínas concentradas e termogênicos, pode sobrecarregar órgãos vitais.
Segundo ela, a ideia de que “produto natural não faz mal” é um mito perigoso. O excesso de vitaminas lipossolúveis, como A, D e E, pode levar à toxicidade, enquanto substâncias estimulantes não declaradas podem desencadear taquicardia, arritmias, aumento da pressão arterial, ansiedade intensa e insônia.
Em uso prolongado e sem acompanhamento, a combinação de vários suplementos aumenta o risco de lesão hepática, sobrecarga renal e problemas cardiovasculares.
Pacientes chegam com três, quatro, cinco frascos diferentes comprados em academias, sites estrangeiros ou marketplaces, muitas vezes sem qualquer registro na Anvisa e sem supervisão profissional.
Especialista em nutrição esportiva, a nutricionista Juliana Crivellaro reforça que não existe ganho de performance real quando a suplementação é feita de forma aleatória.
Para ela, o suplemento só faz sentido quando há deficiência comprovada em exames ou indicação específica, e não como resposta automática a promessas de “hipertrofia acelerada” ou “secagem em 30 dias”.
A cápsula que prometia emagrecer 16 quilos em um mês
A comunicadora Priscila (nome fictício, a pedido da entrevistada) decidiu testar um suplemento comprado pela internet que prometia eliminar até 16 quilos em um mês.
O rótulo parecia inofensivo: espirulina, chá verde, hibisco, cavalinha, ginseng, colágeno. Nada que indicasse risco imediato, e nenhuma referência clara à Anvisa além de informações genéricas.
Logo após tomar a primeira cápsula, como indicado pelo vendedor, Priscila começou a suar frio, teve taquicardia, tontura e dilatação da pupila. Por dois dias, não conseguia se alimentar sem sentir náuseas intensas. Assustada, interrompeu o uso imediatamente.
O caso ilustra o problema de produtos vendidos como “naturais”, mas que podem conter substâncias farmacológicas não declaradas, em doses que jamais seriam aprovadas em um medicamento regular. Nessas situações, sem registro formal e sem estudos de segurança, não há como saber o que realmente está dentro da cápsula.
Como saber se o suplemento está regularizado na Anvisa
Para reduzir o risco de cair em golpes ou usar produtos irregulares, a médica nutróloga Danielli Orletti, fundadora do Instituto Orletti de Medicina do Estilo de Vida, recomenda uma espécie de checklist mínimo de segurança antes da compra:
- Número de notificação ou registro na Anvisa no rótulo, obrigatório para produtos enquadrados nas normas mais recentes
- Desconfiar de promessas milagrosas, como “emagrecimento rápido”, “cura de doença crônica”, “aumento de libido em poucos dias” ou “ganho de massa muscular sem esforço”
- Conferir CNPJ e nome do fabricante, evitando marcas sem endereço ou dados claros
- Pesquisar o produto no portal de consultas da Anvisa, utilizando o nome ou o número de notificação informado na embalagem
- Comprar apenas em lojas físicas e farmácias que emitem nota fiscal, evitando anúncios em perfis pessoais e links suspeitos em redes sociais
Segundo a especialista, nenhum suplemento sério precisa prometer efeito mágico em poucos dias. Quando a promessa é exagerada, o sinal de alerta deve ser imediato.
O que diz a Anvisa e por que as novas regras ficaram para 2026
Procurada, a Anvisa afirma que manteve a fiscalização em curso e que a prorrogação do prazo para adequação das normas até setembro de 2026 não suspende o controle sanitário sobre suplementos.
A agência justifica a decisão com base na complexidade técnica dos testes exigidos e na capacidade limitada dos laboratórios, tanto públicos quanto privados, para absorver o volume de análises necessárias em pouco tempo.
Segundo o órgão, novos produtos lançados desde 2024 já precisam seguir as regras de composição, rotulagem e estudos de estabilidade definidas pela regulamentação.
Em audiências públicas, representantes da Anvisa reconheceram que o setor ainda está longe da conformidade ideal, mas afirmam que o monitoramento de mercado e as inspeções em estabelecimentos continuam em andamento, com foco especial em alegações de saúde enganosas e suspeitas de fraudes.
Indústria pede previsibilidade, farmacêuticas falam em concorrência desleal
Do lado da indústria, a ABIAD, que reúne uma parte dos fabricantes de suplementos, afirma que as empresas associadas já cumprem as exigências da Anvisa e defendem estabilidade regulatória como condição para competir e investir.
Para a entidade, regras claras e prazos definidos ajudam a separar quem segue as normas de segurança de quem atua na informalidade.
Ao mesmo tempo, a associação reconhece que a fiscalização precisa alcançar com mais força os produtores irregulares, que usam internet e brechas legais para escapar do controle.
Já a vice-presidente do Grupo FarmaBrasil, Adriana Diaféria, considera que a demora na aplicação integral das normas cria um ambiente de concorrência desleal.
Enquanto parte das empresas investe em testes, qualidade e rastreabilidade, outra parcela aproveita a falta de fiscalização efetiva para colocar no mercado produtos mais baratos e sem garantia de segurança, pressionando preços e confundindo o consumidor.
Internet, falsificação e o ponto cego da fiscalização
O avanço do comércio eletrônico tornou a fiscalização ainda mais complexa para a Anvisa. Tanto a agência quanto o IPS Consumo, presidido por Juliana Pereira, apontam que o maior risco hoje está nas vendas online.
Em marketplaces, perfis de redes sociais e sites estrangeiros, circulam suplementos com embalagens muito parecidas com as de marcas conhecidas, mas que não têm qualquer vinculação com o fabricante original. São produtos difíceis de rastrear, muitas vezes enviados a partir de endereços falsos ou intermediários e com retirada rápida dos anúncios assim que surgem denúncias.
Nesses casos, o consumidor acredita estar comprando um produto regularizado, mas recebe algo sem procedência, sem controle de qualidade e fora do radar da fiscalização. Quando surgem efeitos colaterais graves, é comum que não haja nota fiscal, comprovação de origem ou sequer um canal de atendimento da empresa.
Especialistas em defesa do consumidor reforçam que, diante desse cenário, a responsabilidade individual também ganha peso.
Ler o rótulo, consultar a Anvisa, buscar orientação médica e desconfiar de promessas milagrosas deixou de ser só uma recomendação e se tornou uma medida básica de autoproteção.
No fim das contas, o Brasil vive uma contradição: um mercado de suplementos em expansão acelerada, uma regulação mais rígida adiada para 2026 e uma oferta crescente de cápsulas milagrosas com 65% de reprovação nos testes oficiais.
Entre a promessa de mais energia e saúde e o risco real para fígado, coração e rins, a linha é bem mais fina do que parece na propaganda.
E você, já conferiu se os suplementos que toma têm regularização na Anvisa ou ainda confia só no rótulo e na indicação da internet?
