No interior cearense, a ByteDance, dona do TikTok, ergue seu maior complexo de data centers fora da China: um projeto de R$ 200 bilhões desenvolvido pela brasileira Omnia. A obra promete energia renovável barata e soberania digital mas já enfrenta a resistência da comunidade indígena Anacé.
Vistas da rodovia, meio escondidas por palmeiras, fileiras de colunas de 5,5 metros parecem ruínas do Império Romano. Não são. Segundo a Bloomberg Línea, elas marcam o canteiro do maior complexo de data centers da dona do TikTok, a chinesa ByteDance, fora da China uma obra de R$ 200 bilhões (US$ 39 bilhões) erguida num canto remoto do interior do Ceará.
De acordo com a Bloomberg Línea, o empreendimento é desenvolvido pela brasileira Omnia e simboliza a nova fronteira da disputa tecnológica global. Mais do que um amontoado de servidores, o data center do TikTok coloca o Brasil no meio de um tabuleiro geopolítico que opõe Estados Unidos e China pela liderança da inteligência artificial.
Colunas de 5,5 metros que lembram ruínas romanas

De longe, o canteiro impressiona pela estética inesperada. As fileiras simétricas de pilares de 5,5 metros, meio encobertas pela vegetação, evocam as grandiosas construções romanas mas, de perto, revelam um monumento moderno às ambições geopolíticas da China. Não por acaso, o governo brasileiro trata projetos como esse como uma questão de soberania digital.
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Quem toca a obra é a Omnia, empresa brasileira especializada em desenvolver e operar data centers. “Aqui era tudo mato”, resume o chefe da construção, Wellysson Costa, entre guindastes e blocos de concreto do tamanho de banheiras. Foi a Omnia que apresentou o projeto à ByteDance e o instalou em uma zona franca criada para driblar as altas tarifas de importação de equipamentos de informática — e, em menos de seis meses, transformou a vegetação rasteira em estrutura de aço e concreto.
R$ 200 bilhões, 20 data halls e até 1 gigawatt
A escala do projeto é o que o torna único. Com custo estimado em R$ 200 bilhões, será o maior complexo de data centers da dona do TikTok fora da China, organizado em 20 “data halls”. No ritmo atual da obra, os pilares estão sendo fechados e o telhado do primeiro desses galpões já começa a ser erguido.
Os números de energia dão a real dimensão do empreendimento. O complexo nascerá com capacidade computacional de 200 megawatts, com potencial para chegar a 1 gigawatt — o suficiente para abastecer os servidores e equipamentos de rede de uma verdadeira fábrica de processamento de dados. O primeiro data center deve entrar em operação no fim de 2027.
Por que a China escolheu o Brasil
A decisão não foi por acaso. O Brasil oferece energia renovável abundante e barata — hidrelétricas, solar e eólica respondem por quase 90% de toda a geração do país —, um trunfo e tanto para instalações que consomem eletricidade como cidades inteiras. Some-se a isso a posição do país como polo de telecomunicações do hemisfério, conectado por cabos submarinos à América do Norte, à Europa e à África.
O potencial ainda é pouco explorado. O país já abriga mais de 100 data centers, segundo a BloombergNEF, mas isso é uma fração dos quase 1.700 dos Estados Unidos, líderes do setor. “O Brasil tem todos os atributos para se tornar um polo de data centers”, afirma Rodrigo Borges, da consultoria Aurora Energy Research, que projeta a capacidade nacional ultrapassando 4 gigawatts no início da década de 2030. Não à toa, cidades como Fortaleza por onde passam 16 cabos submarinos que respondem por cerca de 90% do tráfego internacional de internet do país já atraem centenas de startups.
O TikTok não está sozinho na corrida
A aposta da ByteDance abriu caminho para outras gigantes. O Alibaba planeja alugar espaço em data centers em São Paulo para rodar cargas de inteligência artificial, enquanto a brasileira Ascenty, com 40 instalações na América Latina, investe US$ 1,2 bilhão no setor. Empresas como Elea e Scala, apoiadas por capital americano, também preparam projetos de grande porte e cortejam tanto hiperescaladores chineses quanto americanos.
O movimento reflete uma corrida bem maior. Enquanto exportam infraestrutura, as empresas chinesas investem ainda mais em casa: o governo de Pequim traçou um plano para aplicar 2 trilhões de yuans (US$ 295 bilhões) em uma rede nacional de centros de computação interconectados. A disputa pela capacidade de processar dados virou peça central da nova economia da IA.
O Brasil no meio da guerra tech entre EUA e China
Para o presidente Lula, o data center da ByteDance é fruto de décadas de aproximação entre Brasília e Pequim. A China é hoje o maior parceiro comercial do Brasil, tendo importado quase US$ 100 bilhões em petróleo, minério de ferro, açúcar, soja e carne no último ano, e o país foi o principal destino do investimento estrangeiro chinês em 2025, segundo o American Enterprise Institute. O projeto diversifica essa presença, antes concentrada em hidrelétricas, linhas de transmissão e portos.
Mas o tabuleiro tem outro lado. O empreendimento desafia diretamente a intenção de Donald Trump de reafirmar a hegemonia americana nas Américas, em meio a tensões comerciais o presidente dos EUA chegou a anunciar uma tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, depois anulada pela Suprema Corte. “Os chineses assumem certos riscos; um americano é mais conservador”, observa Eduardo Menossi, do Grupo EBM. Ainda assim, ele nota que conflitos como a guerra com o Irã que danificou data centers no Oriente Médio — podem tornar o Brasil, longe das zonas de tensão, o “Plano B” das próprias gigantes americanas.
Soberania digital: a aposta e o paradoxo
Por trás do entusiasmo, existe uma urgência estratégica. Cerca de dois terços dos dados brasileiros são processados fora do país, o que fez da construção de data centers uma prioridade do governo. “É a nossa principal vulnerabilidade nacional: a soberania digital”, afirma Luis Fernandes, vice-ministro da Ciência, Tecnologia e Inovação.
Há, porém, um paradoxo incômodo. O próprio data center do TikTok não reduzirá essa dependência, já que atenderá usuários de fora dos Estados Unidos e da Europa, e não o tráfego interno brasileiro. Enquanto isso, o país tropeça nas próprias pernas: um programa que reduziria impostos de importação sobre servidores está parado no Congresso, e um leilão de armazenamento de baterias, essencial para sustentar a energia solar e eólica, foi adiado.
A resistência da comunidade Anacé
Nem todos comemoram a chegada do complexo. Quando Lula foi ao Ceará anunciar o investimento, em dezembro, integrantes da comunidade indígena Anacé bloquearam estradas em protesto e, desde então, fazem piquetes esporádicos diante da obra. Para eles, o data center é o capítulo mais recente de uma longa história de desapropriações: nos anos 1990, famílias foram retiradas de suas terras para o complexo portuário do Pecém; nos anos 2010, o plano de uma refinaria da Petrobras deslocou outras. A refinaria fracassou, e foi esse terreno que sobrou para a ByteDance.
A ferida é também prática. O complexo consumirá tanta energia quanto uma cidade de porte médio, enquanto os Anacé convivem com apagões frequentes em sua reserva. “Sinceramente, não vejo nada de positivo para a nossa comunidade. Não apoio o projeto”, diz a líder tribal Andrea Coelho. A Omnia afirma treinar centenas de moradores para atuar como eletricistas e encanadores, e o governo cearense trata a obra como só o começo: “Quando o primeiro data center estiver pronto, outros virão”, prevê o secretário de Desenvolvimento Econômico, Fábio Feijó, para quem “o mundo inteiro está de olho”.
E você, acha que o Brasil sai ganhando nessa disputa?
Colunas que parecem ruínas romanas, R$ 200 bilhões em jogo e uma comunidade indígena resistindo: o data center da dona do TikTok concentra, em um só canteiro no Ceará, promessas de investimento e dilemas reais. Você acha que projetos assim colocam o Brasil numa posição estratégica na guerra tech entre EUA e China, ou o país corre o risco de virar só um quintal digital das grandes potências? E como fica quem mora ao lado dessas obras? Deixe sua opinião nos comentários.
