Estudo da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara publicado em 2026 na revista Communications Sustainability mostra que substituir calcário por rochas basálticas no cimento Portland pode reduzir até 80% das emissões de CO₂ e cortar mais de 40% do consumo de energia no setor
O cimento à base de basalto pode redesenhar a maior fonte industrial de emissões de carbono do planeta.
Conforme estudo publicado em 2026 na revista Interesting Engineering, o paper na Communications Sustainability apresenta dados experimentais robustos.
Pesquisadores liderados pelo geólogo Jeff Prancevic, da University of California, Santa Barbara, demonstraram que o uso de basalto e gabro como matéria-prima reduz mais de 80% das emissões de CO₂.
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O estudo foi feito em parceria com a empresa norte-americana Brimstone Energy. Segundo o pesquisador, o calcário usado no cimento Portland tradicional é “metade CO₂”, liberado direto na atmosfera durante a produção.
Impacto global do setor de cimento
O cimento responde por cerca de 4,4% das emissões globais de gases de efeito estufa. Em comparação, isso equivale ao volume emitido por todos os carros de passeio do mundo somados, segundo o paper.
A fórmula Portland tradicional libera cerca de 500 kg de CO₂ por tonelada de cimento produzida, sem contar a energia gasta nos fornos.
Para entender a escala, o mundo produz por ano mais de 4 bilhões de toneladas de cimento, segundo a International Energy Agency.
Cada ponto percentual de redução nas emissões do setor equivale a tirar milhões de carros de circulação.
Por isso, qualquer rota tecnológica que substitua a matéria-prima da reação básica do cimento tem peso geopolítico e climático. O basalto entra nessa categoria.
Cimento à base de basalto: a química por trás da nova rota
O cimento Portland se produz aquecendo calcário a temperaturas próximas de 1.450 °C. Nesse processo, a rocha libera dióxido de carbono em proporção fixa: metade do peso do calcário vira CO₂ atmosférico.
Segundo o estudo de Prancevic, o basalto e o gabro contêm cálcio em quantidade suficiente para gerar cal viva, ingrediente-chave do cimento, sem liberar tanto carbono.
Na prática, isso ocorre porque essas rochas vulcânicas têm pouco carbono incorporado em sua estrutura química. O cálcio vem de silicatos, não de carbonatos.
De acordo com o paper, o aquecimento das rochas silicatadas acima de 1.500 °C produz cal viva com consumo energético de cerca de 60% do necessário pelo método tradicional.

Os números do estudo de UC Santa Barbara
Os ganhos quantificados pelos pesquisadores são expressivos. Em comparação com a rota convencional do cimento Portland, a nova fórmula apresenta:
- Mais de 80% menos emissões de CO₂ por tonelada de cimento produzida
- Cerca de 60% do consumo energético em relação ao processo do calcário
- Pelo menos 25% de redução de emissões mesmo sem otimização química adicional
- Coprodução de ferro e alumínio a partir da mesma rocha basáltica
O último ponto é particularmente importante. O basalto contém ferro e alumínio em concentrações úteis, permitindo extração simultânea de múltiplos materiais industriais.
Por sua vez, isso reduz a pegada de mineração de minérios isolados. Uma única pedreira de basalto pode fornecer matéria-prima para cimento, siderurgia e metalurgia leve.
Disponibilidade global do basalto
O basalto é a rocha vulcânica mais comum da superfície da Terra. Além disso, cobre cerca de 70% do fundo dos oceanos.
Grandes extensões aparecem em continentes como a América do Sul, a Índia, o leste africano e o noroeste dos Estados Unidos.
Conforme análise geológica citada no estudo, há basalto disponível para abastecer a indústria de cimento por centenas de milhares de anos no ritmo atual de consumo.

Na Argentina, formações basálticas cobrem grandes áreas da Patagônia, com colunas naturais famosas em províncias como Neuquén e Río Negro.
De fato, a região é considerada uma das maiores reservas potenciais de basalto da América do Sul.
Por outro lado, no Brasil há vastas extensões da rocha no Sul, sobretudo no oeste do Paraná e em Santa Catarina, herança das efusões da Formação Serra Geral.
Brimstone Energy leva o cimento à base de basalto à escala industrial
A Brimstone Energy, parceira da pesquisa, é uma startup norte-americana fundada em 2019 com sede em Oakland, na Califórnia. A empresa desenvolve processos químicos para produção de cimento de baixo carbono.
Em outras palavras, a Brimstone serve de ponte entre o laboratório universitário e a fábrica industrial.
Segundo a publicação, a startup já recebeu rodadas de financiamento de fundos focados em descarbonização industrial. O objetivo é construir a primeira fábrica comercial de cimento à base de basalto até o fim da década.
Por isso, o ganho de eficiência energética se traduz em ganho operacional direto, com possibilidade de redução no custo final da tonelada de cimento.

Desafios da adoção em escala
Apesar do potencial técnico, a transição não é trivial. A indústria do cimento está otimizada para calcário há mais de um século.
Plantas industriais, fornos, logística e padrões de qualidade foram desenhados em torno dessa rocha.
Por isso, mudar a matéria-prima exige requalificar engenheiros, recertificar fórmulas e adaptar normas técnicas em dezenas de países.
Conforme analistas do setor, a adoção em larga escala tende a ser gradual. Mesmo assim, o ganho ambiental justifica o investimento, especialmente em mercados com metas climáticas agressivas como a União Europeia.
Além disso, o cimento de baixo carbono é elegível para mecanismos como o ajuste de fronteira de carbono europeu, que tributa importações com pegada elevada. Isso cria incentivo financeiro para a transição em economias exportadoras.
Países que largam na frente
Estados Unidos, União Europeia, Canadá e Austrália aparecem como mercados-piloto naturais. Por isso, esses países combinam metas de descarbonização agressivas, capacidade tecnológica e disponibilidade da rocha vulcânica.
Segundo a Brimstone Energy, a primeira planta comercial deve usar basalto extraído de pedreiras da Califórnia e de Oregon.
Em comparação, mercados emergentes como China, Índia e Brasil enfrentam pressão menor para descarbonizar o cimento de imediato, mas têm reservas geológicas abundantes da rocha vulcânica.
Por sua vez, a Argentina pode entrar no jogo via Patagônia, transformando uma rocha geologicamente ordinária em insumo estratégico para a transição energética da América do Sul.

Paralelos com outras transições industriais
O caso do cimento ecoa o que aconteceu antes na siderurgia verde.
Em comparação, a megaobra dinamarquesa Lynetteholm, com 80 milhões de toneladas de solo afundadas no Mar Báltico, mostra o apetite europeu por engenharia de larga escala com pegada ambiental controlada.
Conforme dados do setor energético, a capacidade global de solar e eólica atingiu 4.000 GW em 2026, ultrapassando carvão e gás. O cimento de baixo carbono pode seguir o mesmo arco de crescimento exponencial.
Naquele momento da revolução energética, as empresas que abraçaram a transição cedo capturaram fatias de mercado relevantes. A nova fórmula pode repetir o padrão na próxima década.
Em comparação com outros materiais experimentais, a vantagem do basalto está na disponibilidade quase ilimitada da matéria-prima.
Limites e próximos passos
A pesquisa da UC Santa Barbara representa um marco, mas tem ressalvas claras. Conforme o próprio paper, os resultados são de laboratório e precisam de validação em escala industrial.
Por outro lado, sem padrões técnicos atualizados em organismos como o ASTM nos Estados Unidos e o CEN na Europa, a adoção comercial enfrenta barreira regulatória relevante.
Será que a indústria do cimento, conservadora por natureza, conseguirá fazer a transição em menos de 20 anos? A história mostra que setores intensivos em capital costumam levar décadas para mudar de paradigma.
Ainda assim, vale lembrar que o avanço é real, mensurável e replicável em laboratório.
