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Cientistas encontram no fundo do Mar Báltico uma muralha de quase 1 km feita com mais de 1.500 pedras há 10 mil anos, quando a região ainda era terra firme, para encurralar renas antes de o avanço do mar engolir a paisagem

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Escrito por Ana Alice Publicado em 25/06/2026 às 17:46 Atualizado em 25/06/2026 às 17:50
Muralha submersa no Mar Báltico revela pistas sobre caçadores da Idade da Pedra e antigas caçadas a renas há 10 mil anos. (Imagem: Ilustrativa)
Muralha submersa no Mar Báltico revela pistas sobre caçadores da Idade da Pedra e antigas caçadas a renas há 10 mil anos. (Imagem: Ilustrativa)
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Uma estrutura submersa no Mar Báltico reacendeu investigações sobre paisagens pré-históricas cobertas pelo avanço do mar e pode ajudar cientistas a entender métodos de caça usados por grupos humanos da Idade da Pedra.

O fundo do Mar Báltico voltou ao centro das pesquisas arqueológicas depois que cientistas iniciaram uma nova etapa de estudos sobre uma fileira de pedras submersa a 21 metros de profundidade, na Baía de Mecklenburg, no norte da Alemanha.

A estrutura, conhecida como Blinkerwall, foi descoberta em 2021, descrita em estudo publicado na PNAS em 2024 e agora serve de ponto de partida para uma investigação mais ampla sobre possíveis paisagens pré-históricas preservadas sob o mar.

O projeto SEASCAPE, lançado em maio de 2025 pelo Instituto Leibniz de Pesquisa do Mar Báltico de Warnemünde, pretende analisar o Blinkerwall e buscar outras estruturas semelhantes no fundo do Báltico.

A iniciativa reúne arqueologia, geofísica marinha e estudos paleoambientais para reconstruir áreas que já foram terra firme antes de serem cobertas pela elevação do nível do mar.

A muralha fica a cerca de 10 quilômetros de Rerik e tem quase 1 quilômetro de extensão.

Segundo os pesquisadores, o alinhamento regular de mais de 1.500 pedras torna improvável uma formação natural e indica que grupos caçadores-coletores podem ter usado a estrutura para conduzir renas durante caçadas, há mais de 10 mil anos.

A nova fase de estudos não muda a data original da descoberta, mas atualiza o contexto da pesquisa.

O Blinkerwall deixou de ser apenas um achado isolado e passou a orientar uma busca por outros vestígios submersos da Idade da Pedra no Báltico, incluindo áreas apontadas por registros hidroacústicos antigos no Fiorde de Flensburg e no Estreito de Fehmarn.

Muralha no Mar Báltico ficava em terra firme antes de ser submersa

Embora hoje esteja no fundo do Mar Báltico, a área fazia parte de uma paisagem terrestre no fim da última era glacial.

A muralha está na lateral sudoeste de uma crista natural, próxima a uma depressão interpretada pelos pesquisadores como um antigo lago ou pântano.

Essa posição ajuda a sustentar a hipótese de uso na caça.

Segundo os autores do estudo, a parede e a margem da água poderiam formar um corredor estreito, capaz de orientar o deslocamento dos animais em direção a um ponto de captura.

A construção teria ocorrido antes da última grande elevação do nível do mar na região, há cerca de 8.500 anos.

Como as renas desapareceram dessas latitudes por volta de 11 mil anos atrás, quando o clima esquentou e as florestas avançaram, a equipe considera provável que a estrutura tenha sido erguida antes desse período.

Esse intervalo coloca o Blinkerwall entre os registros mais antigos de estruturas humanas já identificadas no Báltico.

O achado também se diferencia de outros sítios arqueológicos da Idade da Pedra conhecidos no litoral de Mecklenburg-Vorpommern, que costumam estar em águas mais rasas e, em geral, pertencem a fases posteriores, como o Mesolítico e o Neolítico.

Pedras podem ter servido para conduzir renas durante caçadas

A principal interpretação apresentada pelos cientistas é que a fileira funcionava como uma barreira de condução.

Em vez de indicar uma estrutura defensiva ou de moradia, o alinhamento teria servido para guiar renas em deslocamento sazonal até um ponto de estrangulamento, entre a parede e a margem de um lago, ou até mesmo para dentro da água.

Marcel Bradtmöller, da Universidade de Rostock, afirmou no material divulgado pela Universidade de Kiel que as renas estavam entre as principais fontes de alimento dos grupos humanos que viviam naquela paisagem pós-glacial.

Segundo ele, a parede provavelmente ajudava a direcionar os animais para um local onde os caçadores da Idade da Pedra poderiam abatê-los com mais facilidade.

A interpretação também leva em conta comparações com estruturas pré-históricas identificadas em outras regiões.

Um exemplo citado pelos pesquisadores é o Lago Huron, em Michigan, nos Estados Unidos, onde arqueólogos documentaram paredes de pedra e abrigos de caça submersos associados à captura de caribus, animais equivalentes às renas na América do Norte.

No caso do Báltico, a semelhança observada está na relação entre a parede, a topografia e a antiga margem de água.

Nos dois ambientes, segundo o estudo, as estruturas aparecem em áreas elevadas do terreno e acompanham linhas naturais que poderiam limitar ou orientar o movimento dos rebanhos.

Descoberta do Blinkerwall começou durante uma expedição geológica

A identificação do Blinkerwall não ocorreu em uma escavação arqueológica tradicional.

O primeiro registro surgiu durante uma campanha de geofísica marinha da Universidade de Kiel, quando equipamentos usados para mapear o fundo do mar revelaram o padrão linear de pedras.

Após a descoberta, os pesquisadores comunicaram o achado ao órgão estadual de cultura e preservação de monumentos de Mecklenburg-Vorpommern, responsável por coordenar novas investigações.

A partir daí, equipes de diferentes instituições passaram a combinar métodos geofísicos, análise de sedimentos, modelagem 3D e mergulhos científicos para examinar a estrutura e seu entorno.

Participaram dos estudos o Instituto Leibniz de Pesquisa do Mar Báltico de Warnemünde, a Universidade de Kiel, a Universidade de Rostock, o Centro de Arqueologia Báltica e Escandinava, o Centro Aeroespacial Alemão, o Instituto Alfred Wegener e o órgão estadual de preservação de Mecklenburg-Vorpommern.

A participação de diferentes áreas ocorreu porque o sítio está submerso e exige métodos de investigação próprios da arqueologia e das geociências marinhas.

Jacob Geersen, autor principal do estudo e pesquisador do Instituto Leibniz, afirmou que as investigações indicam baixa probabilidade de a fileira ter origem natural ou moderna.

Ele mencionou hipóteses como obras relacionadas a cabos submarinos ou retirada de pedras, mas disse que a organização dos blocos menores conectando rochas maiores pesa contra essas explicações.

Pesquisa busca outros vestígios da Idade da Pedra no fundo do Báltico

Os pesquisadores ainda tratam a datação da estrutura com cautela.

A idade estimada parte do contexto geológico, da reconstrução da antiga paisagem e da presença histórica de renas na região, mas novas análises podem tornar esse intervalo mais preciso.

Entre as etapas citadas pela equipe estão levantamentos com sonar de varredura lateral, ecobatímetros multifeixe, análise de sedimentos e novas campanhas de mergulho.

Arqueólogos também pretendem buscar artefatos no entorno da muralha que possam ajudar na interpretação da estrutura.

Outro método mencionado pelos pesquisadores é a datação por luminescência, capaz de indicar quando a superfície de uma pedra foi exposta pela última vez à luz solar.

Caso seja aplicada ao Blinkerwall, a técnica pode ajudar a estimar com mais precisão o período em que os blocos foram posicionados.

A equipe também informou haver indícios de estruturas semelhantes em outros pontos da Baía de Mecklenburg.

A confirmação de novos alinhamentos poderá ampliar os dados disponíveis sobre a organização espacial, a cooperação e os métodos de caça de grupos caçadores-coletores que viveram no norte da Europa no período de transição entre o fim da era glacial e o avanço do mar.

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Ana Alice

Redatora e analista de conteúdo. Escreve para o site Click Petróleo e Gás (CPG) desde 2024 e é especialista em criar textos sobre temas diversos como economia, empregos e forças armadas.

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